© Lie Still

O Monte dos Vendavais: Pop Gótico, Néon e Heresia Literária

Emerald Fennell pega em “O Monte dos Vendavais”, o romance de Emily Brontë, ignora o manual de boas maneiras e transforma o amor trágico num espectáculo pop tão excessivo quanto revelador.

“O Monte dos Vendavais” é um daqueles romances clássicos que atravessam os séculos protegidos por uma redoma de respeito académico, mas que, de tempos a tempos, precisam de levar um abanão para percebermos se ainda estão vivos na memória colectiva e na história da literatura mundial.

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A nova versão cinematográfica realizada por Emerald Fennell não é uma adaptação no sentido clássico do termo, mas uma apropriação assumida, descarada e provocatória do romance de Emily Brontë, mais interessada em traduzir sensações do que em respeitar o texto, mais empenhada em provocar o corpo do espectador do que em tranquilizar a consciência literária. Fennell não quer fidelidade; quer reacção. Quer excesso. Quer resposta primordial, como ela própria diz. E consegue-a.

Margot Robbie em O Monte dos Vendavais
Margot Robbie. © Lie Still

Clássico em choque

Margot Robbie surge em “O Monte dos Vendavais”, como Cathy não por erro de casting, mas por decisão política e estética. A antiga “Barbie” entra aqui numa versão gótica, febril e auto-consciente, sabendo perfeitamente que o escândalo precede a personagem. Tem 35 anos a interpretar uma jovem de 19? Pois tem. É demasiado bela? É. E tudo isso faz parte do jogo.

A Cathy de Fennell já não é apenas uma alma atormentada: é um corpo observado, exibido, decorado, transformado em superfície simbólica. O famoso quarto forrado com papel de parede inspirado na textura da sua pele não é apenas uma excentricidade de produção; é a metáfora central do filme: ser mulher continua a ser habitar um corpo transformado em cenário.

Jacob Elordi, por sua vez, é um Heathcliff reinventado à imagem do nosso tempo: menos pária racializado, mais ícone de desejo tóxico, um fantasma bonito demais para ser feliz, um macho trágico de catálogo emocional. A química entre ambos é real, intensa, quase indecorosa, chega a roçar o sadomasoquismo emocional, e o filme vive muito dessa tensão carnal, mais física do que psicológica, mais suor do que literatura.

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Desejo como espectáculo

O gótico de Brontë passa aqui no filme “O Monte dos Vendavais” por um filtro pop assumido. As charnecas são substituídas por interiores saturados de cor, tecidos exuberantes, figurinos anacrónicos e uma banda sonora assinada por Charli XCX que transforma o sofrimento romântico numa espécie de rave emocional. Pode parecer heresia, mas há coerência nessa escolha: o amor destrutivo de “O Monte dos Vendavais” sempre foi excessivo, obsessivo, violento. Fennell limita-se a traduzir esse excesso para a linguagem visual e sonora do século XXI, onde a dor precisa de ser representada para existir e onde o drama vive tanto da intensidade quanto da sua capacidade de circular como imagem.

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Owen Cooper em O Monte dos Vendavais
Owen Cooper em o jovem Heathcliff. © Lie Still

Gótico em modo rave

É evidente que “O Monte dos Vendavais”, de Fenell divide e dividirá ainda mais. Os puristas apontarão o dedo à idade dos actores, às escolhas raciais, à sexualização explícita, ao anacronismo, à indulgência estética. E terão razão, mas apenas se o critério for o da fidelidade. Fennell não joga esse jogo. Tal como já fizera em “Uma Miúda com Potencial” ou “Saltburn”, interessa-lhe mais desmontar mitologias do que preservá-las, mais provocar desconforto do que consenso. O seu cinema é auto-consciente, narcisista, exagerado e, por vezes, desequilibrado, mas nunca morno, nunca neutro, nunca irrelevante.

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"O Monte dos Vendavais"
© Lie Still / LuckyChap / MRC Film

Blasfémia ou liberdade artística

No fim, “O Monte dos Vendavais” não é um filme para quem quer rever o clássico da literatura; é para quem aceita vê-lo colidir com o presente. Não é uma história de amor redentor, mas um ensaio visual sobre desejo, ego, auto-aniquilação e espectáculo. Pode ser excessivo, pode ser discutível, pode ser até irritante, mas é vivo. E num panorama cinematográfico cada vez mais bem-comportado, ver um clássico reanimado com coragem, delírio e algum humor cruel é, no mínimo, refrescante. Saímos do cinema sem saber se assistimos a uma blasfémia ou a um gesto de liberdade artística. Provavelmente às duas coisas. E isso, convenhamos, Emily Brontë teria certamente apreciado.

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One thought on “O Monte dos Vendavais: Pop Gótico, Néon e Heresia Literária

  • Para mim blasfémia, sim. Não, não me considero purista, nada disso. O Monte dos Vendavais é para mim um dos romances “maiores”. Este versão? Não, por favor, é o avesso. Querem fazer algo diferente??? No remake, please. Sejam originais.

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