Os 25 Melhores Álbuns de 2018

Estes são os melhores álbuns de 2018 para a MHD, num ano em que as opiniões se dividem e consensual só a gratidão por um período musical extraordinário.

Obras de arte revolucionárias há poucas. Veja-se que “revolucionárias” desempenha aqui a função de modificador restritivo e não apositivo do nome. Os conceitos de “arte” e “revolucionário” não têm as mesma extensão, havendo objectos de arte que não são revolucionários e objectos revolucionários que não são artísticos. Isto, no fundo, é só uma maneira um pouco complicada de dizer uma coisa muito simples, que mudar as regras do jogo ou inventar novos jogos não é um traço essencial à arte. Assim foi este ano que termina agora. Cheio de grandes álbuns, todos eles obras de arte, nenhum deles revolucionário. A imensa variedade das listas que saíram até agora, discordantes não apenas nos lugares atribuídos aos discos mas também no próprio corpus seleccionado, mostram que não faltou música que perdurasse na memória de muita gente e apelasse a gente muito diferente. A nossa lista dos melhores álbuns de 2018 não foi consensual entre nós (vejam só, no final, as preferências de cada um) e, claro, estará tão de acordo com outras listas quanto essas listas estão de acordo umas com as outras.

Critérios de apreciação? Mais uma vez, muito diversos e muito discutíveis. Uma só coisa sabíamos de antemão, a mesma que nos tem guiado nestes últimos tempos. Modas passam depressa e arte não é propaganda. Se há boa música pop e R&B, experimental e aventurosa, capaz de comunicar de forma única e original aquelas poucas coisas que desde sempre interessaram à espécie humana, acolhemo-la com entusiasmo. Se estes últimos tempos assistiram à emergência de inúmeras vozes femininas de peso, não apenas no pop/R&B, mas também no hip-hop e no rock alternativo, alegrámo-nos sempre que o aparecimento destas cantautoras ou produtoras resultou num contributo artístico e humano insubstituível. Mas daí a abraçar o pop/R&B como a nova música de vanguarda, capaz de contestar hábitos e costumes adquiridos (como se “contestar” fosse um valor em si) ou a condenar à irrelevância bandas rock que, para além de serem rock ainda por cima não são 50% qualquer coisa, vai um grande passo, que não estamos dispostos a dar sob o risco de enclausurar a arte em agendas políticas e condená-la ao efémero.

A lista que se segue não inclui, por isso, entre os melhores álbuns de 2018, algumas coisas que julgamos sobrevalorizadas por razões que se prendem com a moda; com a visão metafísica da sociedade como fundada sobre o conflito e a luta pelo poder; com a ideia de que o vulgar e ordinário possa ser um gesto de contestação e uma declaração de autonomia e preponderância social; com o avanço de uma agenda política, por mais meritória que seja. A lista que se segue é o resultado das nossas preferências pessoais, das obras de arte que nos impressionaram, às vezes até por razões políticas. Queremos falar de todas elas como aquelas que falaram de nós, para nós e para todos. Como aquelas que falarão de nós aos que vierem depois de nós, porque, caso contrário, para quê arrancá-las da abundância de música produzida todos os anos, salvá-las do inevitável esquecimento e introduzi-las na memória colectiva por meio de uma lista? E falar de nós de uma maneira que possa falar também a eles, independentemente da classe a que pertençam ou da moda que vigore nesse utópico ou distópico futuro. Que os ilumine e sirva de consolo, que os faça cantar e dançar e lhes revele que não estão sós.

Melhores Álbuns de 2018 - Jon Hopkins - Singularity
Melhores Álbuns de 2018 | Singularity
25. Jon Hopkins, Singularity (Domino, 4 maio)

O quinto álbum do produtor/artista electrónico britânico é uma viagem alucinante, com pouco mais de uma hora e bipartida, assente em piano acústico, coros, tecno, ambiente psicadélico e formação clássica. Em Singularity, Hopkins improvisa, mistura todos esses ingredientes e constrói aquela que é uma das experiências auditivas mais estimulantes do ano. Na faixa homónima introdutória somos lançados para uma densa pista de dança, nas texturas de “Emerald Rush” ficamos sem fôlego, mas é na sua peça central, “Everything Connected”, que nos rendemos definitivamente ao génio de Jon Hopkins. (DR)

Melhores Álbuns de 2018 |
Melhores Álbuns de 2018 | Pissing Stars
24. Efrim Manuel Menuck, Pissing Stars (Constellation, 2 fevereiro)

Efrim Manuel Menuck lançou Pissing Stars explicando que todo ele gira em torno de uma falhada história de amor, o romance de tablóide entre a americana Mary Hart, apresentadora do programa de televisão Entertainment Tonight, e o saudita Mohammed Khashoggi, filho de um barão do petróleo e traficante de armas, que encheu, na década de 80, os jornais e a cabeça do jovem Efrim. Mas esta funciona apenas como um ícone de todas as histórias de amor, como uma máscara que, porque oculta o compositor, lhe permite cantar o amor que o feriu, a ele que fala com a experiência de quem arriscou, não se defendeu e, por isso, viveu: “I’m not speaking from a safe place/ Out here the stars fall like knives/ But I have loved and been loved”. Com a legitimidade de um homem transfigurado pela dor, “I learned when I was very small/ How to breathe through pain/ And I never did/ Breathe normal again”. (MPA)

Lê Também:
Efrim Menuck | Um murmúrio a si mesmo
Melhores Álbuns de 2018
Melhores Álbuns de 2018 | Let’s Eat Grandma
23. Let’s Eat Grandma, I’m All Ears (Transgressive, 29 junho)

Let’s Eat Grandma (LEG), além da fácil sigla e de nos proporcionar uma das mais belas capas de 2018, trouxeram também um dos melhores álbuns pop do ano. Grã Bretanha, junto ao mar, terra de praias abundantes mas parcas em sol, a origem do duo composto pelas jovens Rosa Walton e Jenny Hollingworth, parece ter sido a inspiração para este Pop delicioso e consistente, apoiado em sintetizadores vigorosos e bem dominados, harmonias vocais só aparentemente inocentes, ritmos simples mas bem estruturados, capaz de produzir paisagens sonoras ricas, com vários níveis de leitura e com destino não raramente apontado às estrelas, como no caso do sublime I’ll Be Waiting. A mão do experiente Faris Badwan (Sophie e the Horrors), parece ter feito um milagre de maturidade e fantasia com material tão jovem. Congrats!  (RR)

Melhores Álbuns de 2018
Melhores Álbuns de 2018 | We’re Not Talking
22. The Goon Sax, We’re Not Talking (Wichita, 14 setembro)

O sucessor de Up To Anything, disco de estreia de 2016 dos Goon Sax, é um álbum que expõe, sem qualquer receio, a sua faceta mais charmosa e genuína no meio de inúmeras imperfeições. Acessível, emocional e ingénuo na sua componente lírica, We’re Not Talking revela um subtil processo de amadurecimento, a nível instrumental, da banda australiana composta pelos agora adultos Louis Forster (filho de Robert Forster, cantautor e guitarrista dos Go-Betweens, mítico grupo de Brisbane que, inevitavelmente, vê o seu legado directamente associado à música produzida pelos Goon Sax… pelo menos na sua fase primordial de Send Me A Lullaby e Before Hollywood), James Harrison e Riley Jones. A guitarra robusta, percussão e harmonias vocais, assim como o recurso esporádico a castanholas, secções de sopro, cordas e piano (que belíssima balada é “Now You Pretend”) enriquecem, sem sombra de dúvida, a qualidade técnica do álbum. No entanto, o autêntico encanto de We’re Not Talking continua a prevalecer, assim como em Up To Anything, nas deleitantes histórias que caracterizam uma adolescência de incertezas e desorientação (se bem que, agora, descritas através de um formato mais ambíguo). Já que a primeira impressão é sempre a mais perdurante, “Make Time 4 Love”, faixa de abertura do álbum, desvenda, de forma excepcional e imediata, a vontade que este grupo de três jovens tem de discutir e abraçar as suas dores de crescimento, determinando, assim, o estado de espírito do resto de We’re Not Talking. “But I can’t understand why you’re still trying / What you want, what I want / We forget over time / And I’m trying to make time for love”. Todos estamos, não é verdade? (DAP)

Melhores Álbuns de 2018
Melhores Álbuns de 2018 | Bottle It In
21. Kurt Vile, Bottle It In (Matador, 12 outubro)

Depois da aventura com Courtney Barnett em Lotta Sea Lice (ainda não os desculpámos por não nos terem vindo visitar a este canto junto ao Oceano Atlântico), Kurt Vile regressou com Bottle It In, uns furos abaixo (dizemos nós) de B’lieve I’m Goin’ Down. Sim, Bottle It In acaba por não conter melodias tão atractivas e letras tão viciantes como “Pretty Pimpin”, “Life Like This” ou “I’m an Outlaw”. Mas ouvir Vile de novo, através de canções intermináveis, instrumentalmente nebulosas, emocionalmente profundas e mais pessoais do que nunca, é um dos melhores exercícios de introspecção que o rock nos ofereceu em 2018. “Loading Zones” (“How beautiful to take a bite out of the world / I want to rip the world a new one / It just crawls out of my mouth anymore”) e sobretudo “Bassackwards” (“I was on the ground but looking straight into the sun / But the sun went down and I couldn’t find another one”) são viagens pela ziguezagueante vida de Vile, e um convite aliciante a nos perdermos nas suas belas guitarras. (DR)

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *