“À Voix Basse” é um filme que prova que se pode competir sussurrando. © 2025 - UNITE

Entre Sussurros, Jazz e Uma Popstar em Colapso | Berlinale 2026 (Dia 3)

Da Tunísia a Nova Iorque na Competição, o festival oscila entre a memória, o luto e a fama instantânea e nós no meio, a tentar perceber se ainda há um silêncio possível no meio de tanto ruído.

Berlim acordou cinzenta, como sempre, mas os filmes do dia vieram tudo menos tímidos. Entre funerais tunisinos (“À Voix Basse”), pianos em luto no Village Vanguard (“Everybody Digs Bill Evans”) e a popstar Charli XCX (“The Moment”) a discutir com a sua própria caricatura, a Berlinale gosta daquele cinema com nervo, mas com identidade e, já agora, também com algumas crises existenciais incluídas.

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VÊ TRAILER DE “À VOIX BASSE”

Em “À Voix Basse”, mas com impacto

Há regressos que são geográficos e outros que são emocionais e afectivos. Em “À Voix Basse”, Lilia (Eya Bouteraa), uma engenheira tunisina, volta à Tunísia para o funeral do tio e encontra uma família que não faz a mínima ideia de quem ela é ou melhor, em quem ela se tornou. Vive em Paris, ama uma mulher e traz consigo um passado que preferia ter deixado enterrado. Mas a morte, como sabemos, é sempre má a guardar segredos. A realizadora tunisina Leyla Bouzid filma este reencontro com uma delicadeza quase táctil. Há silêncios que pesam mais do que discursos políticos e há olhares que dizem mais do que qualquer manifesto. A realizadora, que já nos tinha dado “Assim que “Abro Meus Olhos” (“As I Open My Eyes”) e “Um Conto de Amor e Desejo”, dá aqui um passo decisivo: pela primeira vez na competição oficial de um grande festival. E sente-se que o filme sabe disso. Não é exibicionista, mas é confiante. O que começa como drama familiar transforma-se lentamente numa investigação íntima sobre a morte do tio, o seu passado e a própria fuga para a frente de Lilia. O suspense aqui não é policial, é emocional. Bouzid brinca com a estrutura, mistura memórias, presenças e fantasmas. E, pelo meio, há uma homenagem tocante à mãe da realizadora, Najette Khéfacha, falecida antes das filmagens. Nota-se que este filme não é apenas um objecto artístico; é também um gesto de luto e de continuidade. A actriz israelita-palestiniana Hiam Abbass, presença maior do cinema árabe contemporâneo, empresta densidade ao conjunto, como mãe de Lilia. Mas é Eya Bouteraa que sustenta o filme com um rosto maravilhoso, que parece estar sempre a escutar algo que os outros não ouvem. Num festival que tantas vezes confunde intensidade com volume, “À Voix Basse” é um filme que prova que se pode competir sussurrando.

Everybody Digs Bill Evans
“Everybody Digs Bill Evans” não é um biopic convencional. © Shane O’Connor 2026 Cowtown Pictures_Hot Property

“Everybody Digs Bill Evans”: Jazz, luto e o silêncio depois da música

Em “Everybody Digs Bill Evans”, de Grant Gee, estamos em Nova Iorque, junho de 1961. Dois discos gravados numa noite no Village Vanguard pelo grande músico e pianista de jazz Bill Evans. Dez dias depois, o seu contrabaixista Scott LaFaro morre num acidente de viação. E o génio fica mudo ou quase. Grant Gee, conhecido pelo seu trabalho entre música e documentário, regressa à Berlinale com um filme que alterna entre cor e preto e branco, entre presente e memória, entre sobriedade e autodestruição de um génio. “Everybody Digs Bill Evans” não é um biopic convencional; é antes uma meditação sobre o que acontece quando a música deixa de ser refúgio e passa a ser ferida aberta. Anders Danielsen Lie (o actor norueguês que trabalha habitualmente com Joachim Trier) compõe um Bill Evans frágil, obsessivo, quase infantil na sua vulnerabilidade. Não o tenta imitar; tenta compreendê-lo. E isso basta. O filme respira jazz — entre o preto e branco e a cor — não apenas na banda sonora, mas na própria estrutura e montagem, improvisa, repete, volta atrás e avança no tempo. Há aqui também uma reflexão subtil sobre o “intervalo”, esse espaço entre notas que define a música. E o silêncio como parte da composição. E, num festival onde tanto se fala e se discute, é curioso que dois dos filmes mais fortes do dia — e até agora — falem precisamente daquilo que não se diz.

VÊ TRAILER DE “THE MOMENT”

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“The Moment”: Charli XCX e a sátira que quase morde

E depois houve o pop na secção Panorama, num filme vindo directamente das boas graças do Festival de Sundance: “The Moment”, concebido por Charli XCX e realizado por Aidan Zamiri, um mockumentário que imagina uma versão “infernal” da própria artista durante o auge do fenómeno “Brat”: para quem não sabe: “um fenómeno cultural e estético de 2024, popularizado pelo álbum da cantora Charli XCX, que define um estilo de vida confiante, independente e caótico”. A pergunta é simples: e se ela tivesse cedido à pressão corporativa e traído a sua própria visão artística? A ideia é boa. A execução nem sempre funciona. Visualmente hipnótico, com uma fotografia nervosa e uma paleta de cores muito saturada, o filme tem momentos de brilho, sobretudo quando abraça a vulnerabilidade em vez da sátira. Alexander Skarsgård diverte-se como realizador megalómano de um filme-concerto para a Amazon. Mas a crítica à indústria da música é mais decorativa do que verdadeiramente corrosiva. Há aqui uma reflexão interessante sobre a “tensão de ficar demasiado tempo”. Sobre o que acontece quando o momento se transforma em prisão. Mas o filme parece satisfeito em formular a pergunta sem ir até ao fim da resposta. Ainda assim, é impossível ignorar o fenómeno: Charli XCX está em todo o lado, de Sundance a Berlim, do cinema indie ao mainstream, até na banda sonora de “O Monte dos Vendavais”. Talvez “The Moment” seja menos sobre a indústria e mais sobre o medo de perder relevância. No mundo da pop, cada vez mais temporário e efémero, esse medo é combustível e sentença. E esse, convenhamos, é agora um dos temas mais universais até na Berlinale.

JVM

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