“Terra Vil”: O Douro Não Lava Tudo
“Terra Vil” é um filme sobre heranças tóxicas, fantasmas nacionais e miúdos empurrados para a margem. Luís Campos filma o patriarcado à escala de um rapaz de 12 anos e de um país que prefere não olhar para as suas tragédias. Está nas salas de cinema nacionais desde a semana passada e é um filme português que não pode passar despercebido.
“Terra Vil”, a primeira longa-metragem de Luís Campos (realizador, entre outras, da curta Monte Clérigo), chama a atenção ao que se herda, ao que se repete, ao que se naturaliza. Não é um filme sobre a masculinidade tóxica, mas um filme dentro dela, visto a partir de um miúdo de 12 anos que aprende o mundo — e a crescer — da pior maneira possível. Um filme que não chega com tese, mas com corpo; não com discurso, mas com convivência forçada com aquilo que dói.

Aprender a violência antes de aprender o mundo
Em “Terra Vil”, João (William Cesnek) vive à beira do Douro com o pai, António (Rúben Gomes), alcoólico funcional — ou disfuncional, depende do dia —, num equilíbrio precário feito de redes de pesca, lampreias cada vez mais raras no rio e um quotidiano onde a violência não explode: infiltra-se. Ao lado, a ainda jovem viúva Teresa (Lúcia Moniz) e as filhas, Paula (Francisca Sobrinho) e Liliana (Beatriz Relvas), compõem uma família improvisada, daquelas que o cinema português conhece bem, nascidas de tragédias, acidentes, incêndios, cheias ou a queda abrupta de uma ponte. Gente que se aguenta como pode porque, depois do desastre, já não há uma maneira fácil para dar a volta à vida. É neste microcosmo que o filme “Terra Vil” faz o seu trabalho mais duro e honesto de revelar algo que o país real por vezes esquece ou finge que não vê. O filme não grita nem acusa. Observa. E essa escolha — aparentemente modesta — é o que o torna mais interessante e desconfortável. Como o próprio realizador explicou na apresentação do filme, nunca houve a vontade de contar uma tragédia específica ou uma história verídica: “É impossível ignorar o imaginário colectivo desses acontecimentos. Filmámos em Entre-os-Rios, Castelo de Paiva, e esse passado está lá: na paisagem, nas pessoas, na memória.”
O Douro como memória ferida e não como postal
A queda da ponte Hintze Ribeiro em Entre-os-Rios, as minas encerradas, o abandono estrutural de quem vive longe dos centros de decisão não são tema directo, mas são pano de fundo permanente de “Terra Vil”. O Douro surge aqui não como postal ilustrado, mas como corpo ferido. A seca, a escassez, a tradição da lampreia em vias de extinção ligam-se a um passado que não passou. “Terra Vil” é um filme de fantasmas, não os do género fantástico, mas os que continuam a assombrar comunidades inteiras e que raramente entram em quadro sem folclore ou condescendência. Aqui entram com peso e respeito.

O olhar do miúdo e o peso dos actores
A câmara cola-se a João. Acompanha-o na devoção quase religiosa que sente pela jovem vizinha Liliana, na admiração cega pelo pai e, sobretudo, no momento exacto em que percebe que amar também pode significar reproduzir o pior. A misoginia não chega aqui sob a forma de discurso articulado: chega como aprendizagem informal, como herança silenciosa, como eco de frases atiradas ao ar num dia mau de pesca. É nesse ponto que o filme se torna verdadeiramente político, sem nunca o anunciar. Essa centralidade do ponto de vista infantil foi, aliás, uma descoberta feita ao longo do processo. “Desde a primeira versão do guião, a história era sobre estes cinco personagens, duas famílias que juntas formavam quase uma família disfuncional. Mas percebi que o verdadeiro ponto de vista tinha de ser o do miúdo”, explicou Campos. O filme foi crescendo a partir daí, tentando levantar questões sobre relações humanas, sustentabilidade, coexistência e heranças emocionais, tudo aquilo que se transmite sem palavras. No centro desse olhar está William Cesnek, numa estreia impressionante como actor em “Terra Vil”. Ver-se agora no grande ecrã, passados quase dois anos sobre a rodagem, foi para ele uma experiência estranha: “É um bocado estranho, foi a minha primeira experiência. Mas gostei de me ver e gostei de ver o filme todo. E isto só foi possível por causa de toda a gente que aqui está.” A simplicidade da resposta diz muito sobre o filme: não há vaidade, há espanto. Para Rúben Gomes, o processo foi tudo menos simples. “Foi intenso, muito intenso. Um processo duro. Cheguei com bastante receio, perguntava muitas vezes ao Luís se ele estava feliz com o trabalho. Hoje, quando vi o filme, percebi que era verdade.” Ainda muito próximo da personagem, o actor confessava sentir-se ainda “dentro do António”, como se a pressão emocional não tivesse terminado com o último dia de rodagem. Essa proximidade sente-se no ecrã: António não é monstro nem caricatura, é falência emocional acumulada. Lúcia Moniz traz ao filme uma contenção comovente. A sua Teresa não é mártir nem salvadora, é alguém que tenta compensar perdas com cuidado. “Não conseguiu salvar o marido, tenta salvar o vizinho, tenta proteger aquele miúdo”, explicou. “É sobre como tentamos tapar buracos, faltas e desequilíbrios com aquilo que temos ao nosso alcance.” O filme atravessa-a — e atravessa-nos — sem apontar uma emoção específica, deixando espaço para que cada espectador se reconheça numa fracção daquele sofrimento contido.

Um cinema que não consola, mas confronta
Em “Terra Vil”, Luis Campos evita a armadilha do miserabilismo e também a do optimismo fácil. Há esperança, sim, mas não é imediata nem redentora. É uma esperança cansada, mínima, possível. Está no olhar do miúdo quando percebe que terá de escolher. Está na ideia, politicamente corajosa, de que romper ciclos é um acto violento, mas necessário. O confronto entre António e Paula não é um clímax narrativo clássico: é uma linha de não-retorno moral. A partir dali, ninguém sai ileso. Formalmente, “Terra Vil” é um filme contido, seco, quase ascético. A fotografia respeita o ritmo da região, a montagem não acelera o que deve doer e o som — da água, do vento, dos corpos — faz metade do trabalho emocional. O elenco mistura actores profissionais e gente da terra com uma naturalidade rara, criando uma sensação de presença que muitos filmes ambicionam e poucos alcançam. Como explicou o realizador, “o casting foi muito instintivo, guiado pela ideia de encontrar pessoas que acrescentassem verdade ao território e não o contrário”. “Terra Vil” não quer ser um filme simpático sobre uma região de Portugal; quer ser justo com aquelas pessoas que guardam na alma o trauma do passado. E isso, no cinema português contemporâneo, é uma grande e justa ambição. É um filme que dialoga com a crise climática sem virar manifesto, que fala de masculinidade sem didactismo e que olha para o interior Norte do país sem exotismo nem condescendência. Um filme que sabe que a violência estrutural não começa no murro, mas na frase repetida, no gesto herdado, no silêncio cúmplice. Não é um filme fácil, para o espectador comum. Sai-se da sala com a sensação incómoda de que aquilo não é só ficção. Que aquelas margens do Douro são também margens de um país que continua a empurrar os seus miúdos — e os seus jovens — para escolhas impossíveis. “Terra Vil” não resolve nada. Mas aponta o dedo com precisão. E, às vezes, é exactamente isso que o cinema deve fazer.
JVM

