Marilyn Monroe Centenário | Hollywood Nunca Mereceu Esta Loira
Lisboa, Paris, Londres e Los Angeles celebram o centenário de Marilyn Monroe, a actriz, a empresária e a mulher que tentou mandar no próprio mito. Porém cem anos depois do seu nascimento, ainda há quem prefira o vestido a levantar, ao seu cérebro. A celebração começa hoje no Cinema Nimas com uma retrospectiva dedicada aos seus filmes.
Os centenários de figuras importantes, costumam trazer flores, discursos, lágrimas civilizadas e uma ou outra frase pomposa sobre eternidade. O de Marilyn Monroe, nascida a 1 de junho de 1926 e falecida a 4 de Agosto de 1962, traz tudo isso, obviamente, mas traz também uma coisa mais moderna e de certo modo perversa: mercado. Em 2026, o mundo celebra Marilyn Monroe entre retrospetivas, exposições, relançamentos, livros de luxo, objectos pessoais, merchandising autorizado e toda a maquinaria cultural que sabe transformar memória em produto com a eficiência de uma multinacional e a delicadeza de uma caixa de música. Só que, desta vez, há qualquer coisa de ligeiramente diferente — e até de reparador — no tom das homenagens. Pela primeira vez em muito tempo, uma parte séria destas celebrações não está apenas interessada em repetir o velho catecismo da “loira trágica”, do ícone pop, da vítima bela, da imagem congelada sobre uma grelha de metro. Está finalmente a tentar recuperar Marilyn Monroe como actriz, como estratega, como empresária e como mulher que percebeu demasiado cedo o funcionamento predatório da indústria de Hollywood, que a fabricou e devorou.
Já não era sem tempo. Porque durante décadas tratou-se Marilyn como se fosse um acidente biológico com fotogenia divina, uma espécie de milagre loiro com salto alto, quando o que estava ali era muito mais do que isso: uma mulher com talento cómico raro, presença dramática autêntica, consciência aguda da própria imagem e uma ambição profissional que o sistema aceitava mal, sobretudo quando vinha embrulhada num corpo que a cultura patriarcal da altura, preferia contemplar em vez de ouvir.
Pôr Marilyn de novo em movimento
Em Portugal, a celebração mais visível acontece em Lisboa, no Cinema Medeia Nimas, a partir de hoje 16 de abril até 13 de maio, com uma retrospetiva dedicada ao centenário de Marilyn Monroe com 15 dos seus filmes mais marcantes em cópias restauradas, num percurso que vai de “Louco por Mulheres” a “Os Inadaptados” e inclui títulos como “Os Homens Preferem as Loiras”, “Niagara”, “O Pecado Mora ao Lado”, “Paragem de Autocarro”, “Quanto Mais Quente Melhor” e “Vamo-nos Amar”.
VÊ TRAILER DE “OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS”
E isto, que parece apenas um belo gesto cinéfilo, é na verdade muito mais importante do que parece. Porque há uma diferença brutal entre consumir Marilyn em almofadas, cartazes, reels, t-shirts ou imagens geradas por inteligência artificial e sentar-se numa sala escura para a ver em movimento, em grande plano, num ecrã de cinema, a fazer aquilo que sabia fazer melhor: representar. O cinema ainda tem essa vantagem magnífica sobre a cultura do souvenir. Obriga-nos a confrontar a evidência.
E a evidência é esta: Marilyn Monroe não era apenas uma estrela. Era uma actriz. Basta vê-la surgir em “Eva” ou em “Quando a Cidade Dorme” para perceber que, mesmo em papéis breves, havia ali qualquer coisa mais do que magnetismo. Havia timing. Havia inteligência de composição. Havia a noção exacta do efeito produzido, da pausa, do olhar, da respiração, do uso do corpo como instrumento expressivo e não apenas decorativo. O que chamaram durante muito tempo “encanto natural” era muitas vezes trabalho altamente sofisticado, só que feito por uma mulher demasiado bonita para que a crítica masculina da época lhe reconhecesse facilmente a técnica.
O grande truque histórico: transformar talento em caricatura
O que aconteceu a Marilyn foi uma velha especialidade cultural: reduzir uma mulher complexa a uma caricatura confortável. No caso dela, a caricatura foi a da “loira ingénua”, sensual, aérea, espontânea, meio infantilizada, como se a sua presença em cena brotasse por geração espontânea, sem construção, sem cálculo, sem consciência e, sobretudo, sem inteligência. Ora, uma das coisas mais interessantes destas celebrações de 2026 é precisamente a tentativa de demolir esse cliché. O British Film Institute apresenta, a partir de 1 de junho, a temporada “Marilyn Monroe: Self Made Star”, e a própria formulação diz tudo. Não “vítima eterna”, não “bomba sexual trágica”, não “mistério sem fim”: self-made star. Uma estrela feita por si. O programa sublinha o que durante anos foi empurrado para nota de rodapé: Marilyn desafiou o sistema de estúdios, protestou contra maus argumentos, levou o seu trabalho a sério, estudou no Actors Studio e criou a sua própria produtora, tornando-se a primeira mulher desde a era muda a fazê-lo em Hollywood.
VÊ TRAILER DE “O PECADO MORA AO LADO”
Traduzindo isto para linguagem menos diplomática: Marilyn não queria ser apenas um produto de luxo com voz de soprano ofegante. Queria escolher, mandar, negociar, crescer, controlar o rumo da carreira e deixar de ser tratada como bibelot erótico de serviço. Nos anos 50, uma mulher assim era catalogada como problemática. Hoje chamar-lhe-iam visionária, produtora, criadora de marca, autora da própria narrativa. O mundo gosta muito de mulheres empreendedoras, desde que já estejam mortas há bastante tempo ou que a ousadia delas possa ser convertida em slogan inspiracional.
Paris e Londres tentam salvar a mulher do postal
Em Paris, a Cinémathèque française faz uma operação igualmente inteligente: separar a estrela da actriz, ou pelo menos tentar. A exposição e a retrospetiva dedicadas a Marilyn insistem nessa reavaliação, revisitando a passagem para Nova Iorque, a criação da sua produtora e a luta para se libertar do molde da “blonde idiote” imposto pela indústria e pela imprensa. A ideia não é embalsamar a lenda, mas repor conflito, devolver contexto e mostrar que a mulher por trás do mito não era uma sombra passiva da própria imagem. Em Londres, o BFI cruza a revisão filmográfica com o discurso crítico, enquanto a National Portrait Gallery apresenta a exposição “Marilyn Monroe: A Portrait” entre 4 de junho e 6 de setembro, centrando-se precisamente na construção da imagem e no papel activo de Marilyn nesse processo. Isto é importante porque durante anos olhou-se para a sua imagem pública como se fosse apenas uma fabricação externa, uma invenção dos fotógrafos, dos estúdios, dos homens que a enquadravam. Agora começa finalmente a admitir-se que Marilyn colaborava, dirigia, vetava, escolhia e percebia como o seu rosto e o seu corpo circulavam no espaço mediático. Em suma: talvez a melhor forma de honrar Marilyn em 2026 seja reconhecer que ela não foi apenas fabricada por Hollywood. Também tentou fabricar-se a si própria, e foi aí que começou a incomodar seriamente.
A actriz estava sempre à frente da boneca insuflável
O problema é que, mesmo agora, continua a haver uma resistência subtil a aceitar o óbvio. Talvez porque admitir a inteligência de Marilyn obrigue a rever muita coisa sobre a forma como o cinema clássico tratou as mulheres. É mais fácil venerar o ícone do que discutir o talento. É mais simples vender o vestido branco de “O Pecado Mora ao Lado” do que olhar para a precisão cómica de “Quanto Mais Quente Melhor”. É mais cómodo repetir “Diamonds Are a Girl’s Best Friend” do que admitir que em “Os Homens Preferem as Loiras”, Marilyn está a fazer um trabalho satírico e cómico de uma sofisticação letal. E no entanto basta voltar aos filmes. Em “Niagara”, percebe-se a dimensão sexual e ameaçadora da sua presença. Em “Paragem de Autocarro”, vê-se a tentativa séria de deslocação dramática. Em “O Príncipe e a Corista”, há um duelo curioso entre o classicismo britânico de Laurence Olivier e a instabilidade moderna daquela mulher que parecia vir de outro século e de outra temperatura. Em “Quanto Mais Quente Melhor”, que tanta gente ainda trata como se fosse apenas uma comédia com uma mulher muito fotogénica, está um dos maiores trabalhos de comédia do cinema americano. E em “Os Inadaptados” aparece a actriz total: ferida, vulnerável, exacta, moderna, profundamente triste sem nunca pedir desculpa por isso. O BFI, aliás, volta a lançar o filme nos cinemas do Reino Unido e da Irlanda a 5 de junho, como se dissesse ao público: querem perceber Marilyn? Comecem por aqui.
Entre a relíquia e a caixa registadora
Claro que o centenário também tem o seu lado de romaria capitalista, e seria ridículo fingir surpresa. Em Nova Iorque, a Icon Collection apresentou objectos pessoais raros, incluindo documentos, roupa, fotografias e o que é descrito como o último cheque assinado por Monroe. Em Los Angeles, o Academy Museum inaugura a 31 de maio a exposição “Marilyn Monroe: Hollywood Icon”, com centenas de objectos, cartas, vestuário e materiais ligados à sua vida pessoal e profissional. Isto diz muito sobre a maneira como a cultura contemporânea funciona. Já não basta rever os filmes; é preciso ver os talões, os cheques, o espelho, os vestidos, as sandálias, os objectos da casa, como se a proximidade material ao corpo desaparecido prometesse uma verdade qualquer. É o velho culto da relíquia adaptado à sociedade do espectáculo. E, ao mesmo tempo, há qualquer coisa de pungente nisso: uma vida transformada em arquivo, um rosto transformado em economia, uma mulher que sonhou controlar a própria imagem a continuar, sessenta e tal anos depois da morte, presa entre a devoção estética e a caixa registadora.
VÊ TRAILER DE “QUANTO MAIS QUENTE MELHOR”
Talvez Marilyn percebesse a ironia melhor do que ninguém. Talvez até a achasse previsível. O mundo que a usou em vida continua a vendê-la em morte, só que agora com design mais elegante, curadoria respeitável e texto de parede museológico. A diferença, felizmente, é que algumas destas instituições estão pelo menos a tentar complicar o boneco. A tentar lembrar que a imagem foi construída com trabalho, nervo, disciplina, ambição e inteligência. E isso já é uma forma de justiça.
Porque é que ainda precisamos tanto de Marilyn?
A pergunta mais interessante deste centenário não é, por isso, “quem foi a verdadeira Marilyn Monroe?”, como se houvesse um cofre metafísico onde a resposta estivesse fechada à chave. A pergunta é outra: porque é que continuamos a precisar tanto dela? Porque é que a sua imagem continua a sobreviver a todas as modas, a todos os formatos, a todas as reciclagens visuais, a todos os maus filmes biográficos, a todas as simplificações, a todas as t-shirts vendidas em aeroportos e concept stores? Talvez porque Marilyn continua a condensar uma contradição moderna que ainda não resolvemos. A mulher extremamente visível e profundamente invisível. A pessoa adorada e mal compreendida. A figura hipermercantilizada e, ao mesmo tempo, emocionalmente irredutível. A estrela transformada em marca que, apesar de tudo, resiste como pessoa cada vez que a vemos num plano de cinema.
VÊ TRAILER DE “O PRINCIPE E A CORISTA”
Hoje, numa época em que a imagem parece valer mais do que a substância, Marilyn conserva uma coisa rara: substância dentro da imagem. Continua a haver ali alguém. É isso que desconcerta. É isso que torna inúteis muitos dos clichés. É isso que faz com que, cem anos depois do nascimento de Norma Jeane, a actriz ainda saia do ecrã muito maior do que o mito.
O melhor sítio para a encontrar continua a ser uma sala escura
Por isso, talvez a melhor homenagem a Marilyn Monroe em 2026 não seja comprar mais uma edição comemorativa, nem visitar uma loja de recordações com perfume a nostalgia premium, nem voltar a partilhar a mesma fotografia de sempre com legendas piegas sobre fragilidade e brilho. Talvez seja uma coisa muito mais simples e muito mais exigente: ir ao cinema.
VÊ TRAILER DE “OS INADAPTADOS”
Ir ao Nimas, por exemplo, e sentar-se a vê-la como deve ser vista. Não como ícone portátil, não como algoritmo de beleza, não como mártir pop, não como teoria da conspiração com baton. Mas como actriz. Como uma mulher que soube usar o corpo, a voz, a comicidade, a tristeza, a inteligência e a própria vulnerabilidade como instrumentos de criação. Como alguém que tentou tomar posse do seu destino num sistema construído para a reduzir a decoração. Hollywood adorou Marilyn enquanto fantasia. O que nunca soube fazer foi respeitá-la como cérebro. Cem anos depois, esse continua a ser o centro do problema — e também a razão pela qual ela ainda nos perturba. No fundo, Marilyn Monroe continua viva exactamente por isso: porque atrás do mito ainda se sente a mulher real a bater à porta da caricatura. E, felizmente, a pedir para entrar com toda a força.
JVM

