© El Ser Querido

Basta ter o nome de Javier Bardem para rapidamente se tornar num dos filmes mais esperados do Festival de Cannes. “El Ser Querido” é um dos três filmes espanhóis presentes este ano no Festival, neste caso com realização de Rodrigo Sorogoyen.

O filme conta a história de um famoso realizador de cinema que ja venceu Óscares e Palmas de Ouro. Contudo, tem um passado conturbado e vem tentar redimir-se ao gravar um filme em Espanha com a sua filha, que já não vê há mais de dez anos.

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A comparação injusta com Sentimental Value

El Ser Querido
O pai chama-se Esteban Martínez e tem o rosto de Javier Bardem. @El Ser Querido

Provavelmente, após esta pequena sinopse do filme, vão lembrar-se de “Sentimental Value”, é inevitável. Contudo, é profundamente injusto e espero que não lhe custe nenhum prémio, em Cannes ou temporada de premiações. Pois são filmes completamente diferentes.

Sentimental Value” é um filme melancólico e emocional. Sobre o significado de casa e como as memórias construidas nesse lar nos acompanham para a vida. Sobre o poder curativo da arte. E tem uma irritante falta de comunicação entre as personagens.

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Já “El Ser Querido” é sobre assumir erros, chegar-se à frente e responsabilizar-nos pelo dano que causamos aos outros. Mas também sobre seguir em frente, sobre reconstruir relações e mudar de vida.

E não querendo chatear nenhum fã, é muito melhor do que “Sentimental Value”, principalmente no que toca à tecnica, realização e cinematografia. Quando a atuações, são ambos muito fortes.

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Meta cinema ao mais alto nível em El Ser Querido

Neste filme vamos até ao making of do novo filme do realizador Estebán (personagem de Javier Bardem), que tem a sua filha como protagonista. Acompanhamos as gravações do filme e ficamos até curiosos em saber mais sobre ele, tendo em conta o que vemos nessas filmagens.

Assim, é um filme muito meta, algo qe aprecio sempre bastante. Não só vemos o making of do filme, como a forma que esta relação profissional afeta a verdadeira relação entre pai e filha. A forma como faz ressurgir os problemas do passado.

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E não só isso, há momentos em que os filmes se fundem, com a banda sonora a sobrepor-se em ambos os filmes, aumentando a tensão, o drama e as emoções das personagens.

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Também os momentos a preto e branco que nos lembram que estamos a ver um filme, mas também servem para ilustrar os momentos em que as personagens estão realmente com dificuldades nas suas emoções.

E ainda a noção de que podemos adorar e idolatrar, realizadores, atores, celebridades e a sua arte, mas não conhecemos verdadeiramente a sua vida, o seu passado e aquilo por que estão a passar.

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Os momentos de genialidade de Rodrigo Sorogoyen

Todo este filme mostra a mestria do realizador, começando com um diálogo de quase vinte minutos, em que vemos maioritariamente duas caras. Sem nos apercebermos, este momento conta-nos tudo o que precisamos de saber sobre o filme e as suas personagens. Quem são as perosnagens principais, pelo que estão a passar, como é a sua relação e sobre o que vai ser a história.

O mise en céne é fantástico. Muito calculado, com tudo o que precisamos de saber e ver sempre à nossa frente de forma subtil. E tudo culmina naquela que provavelmente vai lutar para ser a cena mais memorável do cinema de 2026.

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Não querendo dar spoiler de qualquer forma, pois o visionamento não seria igual. No cinema todos começamos por rir do que estava a acontecer e lentamente o clima foi ficando cada vez mais pesado, até culminar numa cena agressiva e catártica para o filme e para o espectador. É realmente fantástico o que o realizador e os atores fazem nessa cena.

Javier Bardem, do encantador ao violento

Como só o ator o sabe ser, a sua personagem é encantadora, com um grande charme que vem da popularidade da sua personagem. Mas ao longo do filme vai-se revelando cada vez mais pesado.

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O seu grande momento, é verdadeiramente violento para quem o vê, extremamente tenso e real (mas não posso dizer mais pois é a cena que falava acima). Caso o filme continue com a popularidade que está a ter no Festival de Cannes, não tenho dúvidas que este momento será o necessário para uma nomeação aos Óscares.

Victoria Luengo tem a difícil tarefa de ter de estar à altura de Javier Bardem, para este filme resultar. E está. É uma oponente de qualidade, mas também é a sua filha. Assim, as interações saltam entre a tensão, a violênica e o carinho de uma forma muito humana.

Esta relação conturbada entre as peronagens também não aparece por acaso e está profundamente relacionada com os seus atores. Uma vez que Rodrigo Sorogoyen não deixou que os dois atores se vissem até às filmagens, onde se conheceram pela primeira vez.

O realizador criou uma biografia para ambas as personagens, desde o momento que nasceram até onde começamos a ver o filme. E deu notas e partes destas personagens a cada um dos atores. Contudo, havia informações equivocadas, perspetivas diferentes, mesmo para causar o artrito necessário para esta relação parecer real.


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