Há uma tentação, em qualquer análise de auscultadores baratos, de os julgar pelo que lhes falta. E aos Corsair HS35 v3 Wireless falta muita coisa: não têm RGB, não têm materiais nobres, não têm cancelamento de ruído ativo, nem sequer aparecem no software iCUE da Corsair. A minha surpresa foi perceber que quase nada disto é um problema. Pelo contrário — em muitos casos, é precisamente o ponto forte, até porque o preço compensa! A questão é que a Corsair é muito boa a criar produtos low-cost.
A linha HS35 sempre foi a porta de entrada da Corsair: sem show-off, sem demasiada engenharia, um headset direto ao assunto, barato, com o que realmente é essencial. Esta terceira versão pega nessa fórmula e moderniza-a com o que interessa: som sem fios, três modos de ligação e Dolby Atmos (nada mau), cortando tudo o resto. É a velha máxima de que menos é mais, e aqui ela resulta.
Ficha técnica
- Drivers: 50 mm de neodímio · resposta em frequência 20 – 20 000 Hz · impedância 32 ohm
- Peso: ~250 g
- Ligações (tri-mode): 2,4 GHz (dongle SLIPSTREAM), Bluetooth e USB com cabo
- Alcance sem fios: até 20 m (2,4 GHz, linha de vista)
- Bateria: até 30 h em 2,4 GHz (a 50% de volume) · até 32 h em Bluetooth
- Áudio espacial: Dolby Atmos, só em PC (via dongle 2,4 GHz + app Dolby Access)
- Microfone: omnidirecional, destacável, com controlos na concha
- Compatibilidade: PC, PlayStation, Nintendo Switch, Mac e telemóvel
- Iluminação: nenhuma (e ainda bem)
- Garantia: 2 anos
- Cor: Carbono ou Branco
- Preço: cerca de 80 dólares / na casa dos 80–90 € cá (a versão com fios anda pelos ~50 dólares)
Conforto: o argumento que fecha a compra
É aqui que os HS35 v3 mostram ao que vêm. O corpo é todo em plástico, sim — mas um plástico maleável e flexível que, aliado aos ~250 g, os torna dos headsets mais confortáveis que se encontram por este dinheiro. Acreditem, foi o que mais me surpreendeu, porque por este preço, normalmente o conforto baixa muito nesta gama. A grande mudança em relação aos modelos anteriores é a banda de suspensão “flutuante”: em vez de a estrutura assentar diretamente no cimo da cabeça, uma tira de tecido distribui o peso e alivia a pressão. O resultado é aquele conforto que só se nota pela ausência de incómodo, mesmo depois de várias horas.
As almofadas de tecido respirável envolvem bem a orelha e — detalhe que agradeci — deixam espaço a mais lá dentro, por isso a orelha assenta em vez de ficar esmagada contra o enchimento. A força de aperto está bem calibrada: seguros sem serem um torniquete. E há ainda pormenores de bom senso, como poder rodar as conchas para as pousar ao pescoço quando não estão em uso. Não chega ao conforto de um topo de gama, mas nesta faixa de preço é dificílimo de bater.
Ao nível do visual, a Corsair fugiu do exagero “gamer”: linhas sóbrias, limpas, com dois pequenos acentos amarelos nas dobradiças que lhes dão identidade sem gritar. Gosto, e é barato.
O dongle híbrido é uma pequena obra de engenharia
A ligação de 2,4 GHz é, para mim, o verdadeiro destaque — não tanto pelo desempenho (é estável e de baixa latência, como se espera), mas pela elegância da solução. À primeira vista, o dongle parece uma pen USB-A vulgar. Só que parte do corpo destaca-se e transforma-se num mini dongle USB-C. Ou seja: um só acessório serve PC, portáteis, consolas e telemóveis modernos sem andares à procura de adaptadores. É o tipo de ideia simples que faz toda a diferença no dia a dia de quem salta entre dispositivos. Surreal, uma vez mais, para este preço.
O resto da conectividade acompanha: além do 2,4 GHz, tens Bluetooth (a escolha óbvia no telemóvel) e o cabo USB, que serve para ligação direta e para carregar. A única limitação a reter é que não dá para usar Bluetooth e 2,4 GHz em simultâneo — não esperes juntar o som do jogo e as chamadas do telemóvel ao mesmo tempo. Nas consolas, atenção ao pormenor da Switch: na Switch 1, o dongle só funciona pela porta USB-C da consola (não na dock); na Switch 2, funciona nos dois cenários.
Som e Dolby Atmos: cumpre, sem espantar
Os drivers de 50 mm de neodímio entregam um som agradável logo à primeira, afinado a pensar primeiro nos jogos. Não é um som de topo nem pretende sê-lo, mas para jogar — sobretudo shooters, onde a direção importa — e para música casual, cumpre bem. Se quiseres afinar, dá para equalizar pelo sistema operativo ou por apps de terceiros, mas nunca terás algo de topo. Em PC há o bónus do Dolby Atmos, que acrescenta aquela camada de áudio espacial e direcional. Convém saber as letras miúdas: só funciona em PC, apenas através do dongle de 2,4 GHz e obriga a instalar a app Dolby Access. Nas consolas, telemóvel ou por cabo, ficas com o estéreo dos drivers — bom, mas sem o processamento Atmos. A questão volta a ser a mesma: não há melhor para este preço para quem quer algo que funcione em todo o lado.
Microfone e Bateria
A autonomia anunciada — até 30 horas em 2,4 GHz — aguenta-se bem na prática, até porque consegui cerca de 27 horas num volume médio. Em uso real, com algumas horas por dia e a alternar entre Bluetooth e sem fios, é perfeitamente possível passar quase uma semana entre carregamentos. Não é a maior bateria do mercado, mas para quem não faz maratonas de dias inteiros sobra e vem daí, em parte, um efeito colateral simpático da ausência de RGB: menos coisas a consumir energia. Resultado? Menos peso, mais conforto, menor preço.
Já a nota sobre o software é a mais curiosa. Estes HS35 v3 não aparecem no iCUE nem no novo Web Hub da Corsair — são totalmente plug-and-play. Longe de me incomodar, aplaudo: quem não tem outros produtos Corsair não precisa de instalar mais um programa residente só para gerir um par de auscultadores. Parece uma decisão consciente e, na prática, é bem-vinda. No entanto, o ideal seria podermos escolher…
Vale a pena?
Os Corsair HS35 v3 Wireless não são os auscultadores mais completos nem os mais sofisticados, e nunca tentaram ser. O que a Corsair fez foi cortar com critério — nos materiais e nas funções não essenciais — e concentrar o dinheiro onde ele se sente: conforto excelente, ligações versáteis, uma bateria decente e um som que faz o que promete. O dongle híbrido é a cereja no topo.
Recomendo-os sem hesitar a quem quer um primeiro headset sem fios sem complicações, a quem anda constantemente a saltar entre PC, consola e telemóvel, ou a quem simplesmente valoriza leveza e conforto acima de tudo. Quem procura um microfone de streaming, som de topo ou construção premium deve olhar mais acima — e pagar por isso. Mas, para o que são e para o que custam, é raro ver cortes tão bem feitos. Às vezes, tirar é mesmo a melhor forma de oferecer algo ideal para a maioria.

