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Entre Euphoria, O Drama, A Odisseia, Homem-Aranha — Um Novo Dia e Dune Duna: Parte Três, 2026 transformou a antiga menina Disney na última estrela total de uma indústria que já quase só sabe fabricar marcas.

A maioria dos actores tem anos bons ou uns melhores que outros. Zendaya tem praticamente o ano inteiro reservado em nome próprio. Em 2026, reapareceu como Rue na terceira temporada de Euphoria, casou-se cinematograficamente com Robert Pattinson em O Drama, desceu do Olimpo para ser Atena em A Odisseia, regressa agora ao universo Marvel em Homem-Aranha — Um Novo Dia e termina dezembro nas areias de Arrakis com Dune: Parte Três. Basta entrar numa sala ou abrir a HBO Max para tropeçar nela. Hollywood chama-lhe agenda. Nós podemos chamar-lhe ocupação territorial.

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A miúda que não desapareceu

A história fácil seria esta: uma menina Disney cresceu, livrou-se das orelhas do Mickey e tornou-se uma estrela adulta. Mas Zendaya percebeu cedo que, em Hollywood, crescer não chega; é preciso sobreviver ao crescimento. Começou aos 13 anos em Shake It Up e, ainda adolescente, já exigia poder de decisão, personagens inteligentes e uma representação que não tratasse as jovens negras como decoração multicultural. Enquanto outras crianças-prodígio aguardavam pela inevitável crise pública, Zendaya foi aprendendo produção, imagem, negociação e silêncio, mercadoria rara numa indústria onde toda a gente tem um podcast.

Zendaya
© Trae Patton / A.M.P.A.S.

A grande ruptura chegou com Euphoria. Rue Bennett não era uma limpeza de imagem; era o contrário: uma personagem tóxica, frágil, manipuladora, dependente e, ainda assim, desesperadamente humana. Zendaya não pediu ao público que esquecesse a Disney. Obrigou-o a perceber que aquela rapariga tinha crescido mais depressa do que o preconceito dos espectadores. Os dois Emmys de melhor actriz dramática confirmaram o essencial: por baixo da celebridade havia uma intérprete com nervo, contenção e uma tristeza que não se compra numa campanha de marketing.

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A estrela e o produto

É aqui que Zendaya se torna mais interessante. É actriz, produtora, ícone de moda e máquina de promoção com aparência de pessoa tímida. A contradição perfeita da celebridade contemporânea: parece fugir da exposição enquanto domina cada centímetro dela. Com Law Roach, o seu “arquitecto de imagem”, transformou a passadeira vermelha numa extensão do filme. Em Dune: Parte Dois apareceu como criatura futurista; em Rivais levou o ténis para os sapatos e vestidos; em A Odisseia vestiu-se como se Homero tivesse contratado Schiaparelli.

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VÊ TRAILER DE “HOMEM-ARANHA UM NOVO DIA”

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Pode chamar-se method dressing, estratégia viral ou publicidade com alta-costura. O certo é que funciona. Antes de vermos o filme, já vimos Zendaya a representá-lo. A roupa deixa de ser acessório e passa a trailer sem diálogos. Numa época em que os estúdios gastam fortunas a explicar-nos que um acontecimento é um acontecimento, ela aparece e o algoritmo ajoelha-se. Nem sempre é arte. Às vezes é apenas marketing muito bem penteado. Mas, comparado com actores a comer asas picantes no YouTube para vender o próximo blockbuster, uma peça de arquivo de Alexander McQueen ainda conserva alguma dignidade.

Consegue ela carregar um filme às costas?

A pergunta persegue-a porque Hollywood continua a desconfiar das mulheres jovens que parecem saber exactamente o que fazem. Serão as sagas que a tornam gigante ou é ela que empresta desejo às sagas? Homem-Aranha, Dune e A Odisseia chegariam ao público sem Zendaya. Mas chegariam com o mesmo magnetismo? Provavelmente não. E Rivais (ou Challengers), de Luca Guadagnino, mostrou outra coisa: Zendaya consegue ser o centro moral e erótico de um filme adulto, ambíguo e sem capa de super-herói, transformando um triângulo amoroso num campo de ténis num estudo sobre poder, desejo e competição.

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O Drama (2026) HBO Max Zendaya Robert Pattinson
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O Drama, de Kristoffer Borgli, prolonga essa deslocação para um cinema menos protegido pelas franquias. Zendaya percebeu que uma carreira não se constrói escolhendo entre o blockbuster e o cinema de autor, mas usando um para comprar liberdade dentro do outro. Faz Marvel, Nolan e Villeneuve; depois procura Guadagnino, Borgli ou um projecto que possa produzir. Não rejeita a máquina. Aprende a conduzi-la — forma eficaz de não acabar atropelada.

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A última estrela de cinema?

Talvez Zendaya seja a última estrela clássica fabricada por meios modernos. Tem o mistério de quem não conta tudo, a elegância das divas antigas, a disciplina de uma executiva e o domínio digital de quem sabe que uma fotografia pode valer tanto como uma cena. Mas conserva a sensação de que ainda está a escolher e a guardar uma parte de si fora do negócio.

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No final deste vendaval, diz que quer parar e desaparecer por algum tempo. É compreensível. Depois de passar um ano inteiro em todos os ecrãs, talvez o verdadeiro luxo seja não aparecer em nenhum. Até lá, continuará onde Hollywood mais precisa dela: entre a personagem e a marca, entre o talento e o vestido, entre o cinema que ainda sonha e a indústria que já só sabe vender o sonho. E faz tudo isto antes dos 30, com uma serenidade quase ofensiva. Há quem conquiste Hollywood. Zendaya, mais prática, parece ter decidido alugá-la por temporada.

JVM

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