© Jérôme Prébois / Films4You

Em Guru (Gurou), o realizador francês Yann Gozlan transforma a indústria da auto-ajuda num thriller sobre egos insufláveis, seguidores desesperados e um homem capaz de prometer a felicidade a um auditório inteiro sem conseguir organizar a sua própria cabeça. Pierre Niney exagera, transpira, grita, seduz e quase leva o filme às costas.

Se alguém ainda precisava de provas de que o capitalismo descobriu a maneira de vender ar engarrafado, basta assistir a Guru (Gurou) de Yann Gozlan. Matt Vasseur não vende casas, carros ou criptomoedas. Vende uma coisa bastante mais cara: a versão melhorada de nós próprios. Entra em palco como se Tony Robbins tivesse sido cruzado com um candidato presidencial, um televangelista e o gerente de uma cadeia de ginásios. Grita, corre, aponta para a plateia e, poucos minutos depois, milhares de adultos acreditam que o segredo da existência talvez esteja num slogan projectado em letras gigantes.

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Pierre Niney deve ter-se divertido imenso. Talvez até demais. Depois de O Homem Ideal e Caixa Negra, Yann Gozlan volta a chamar-lhe Matthieu Vasseur — agora abreviado para Matt, porque um guru com três sílabas no nome perde autoridade — e torna a colocá-lo à beira da implosão. Niney consegue parecer simultaneamente muito seguro de si e ao mesmo tempo a dois minutos de telefonar à mãe. O olhar infantil, o sorriso treinado e aquela energia de homem que bebeu quatro cafés ou cheirou qualquer coisinha, antes de descobrir a meditação fazem dele um magnífico acidente à espera de acontecer.

Facturar com a ansiedade dos outros

A primeira metade do filme danos a perceber o negócio. Matt fareja fragilidades, escolhe pessoas no auditório com a precisão de um ilusionista e transforma ansiedade, burnout, solidão e fracasso em matéria-prima para facturação. A equipa sopra-lhe informações pelo auricular; ele devolve milagres em palco. É a Amazon da autoestima, com luzes, música épica e banhos de gelo. Estes gurus raramente vendem respostas: vendem a sensação de que alguém nos viu. O problema começa quando essa atenção vem acompanhada de cartão de crédito.

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Depois chega a ameaça de uma lei para enquadrar a profissão, uma comissão parlamentar, inimigos, suspeitas e seguidores cada vez mais fanáticos. Matt reage como qualquer homem habituado a aplausos: conclui que o problema só pode estar nos outros. Guru mergulha na paranoia, nas redes sociais e no populismo emocional sem assumir inteiramente a dimensão política do material. O filme olha para o abismo, vê influencers, coaches, profetas digitais e vendedores de masculinidade premium, mas prefere chamar-lhe thriller.

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Um micro-retrato da França

Guru
© Jérôme Prébois / Films4You

A França que aparece aqui está cansada, zangada, dividida e pronta a pagar a alguém que lhe explique, com música motivacional, porque correu tudo mal. Matt percebe isso melhor do que muitos políticos. Basta substituir “acredita em ti” por “recuperemos o país” e mudar o PowerPoint. Gozlan aproxima-se dessa ideia e recua.

O segundo problema é simples: o filme repete-se. Matt em palco, Matt a gritar, Matt a perder o controlo, Matt outra vez em palco, agora ainda mais alto. A certa altura já não estamos a assistir a uma crítica da repetição motivacional; estamos inscritos no seminário. Os 126 minutos começam a pesar e o suspense perde oxigénio quando devia apertar o pescoço. Marion Barbeau, como companheira que percebe o desastre, merecia mais, e Christophe Montenez, no papel do irmão, abre uma dimensão familiar tóxica que o argumento deixa meio à porta.

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Pierre Niney segura mesmo a corda em Guru

© Jérôme Prébois / Films4You

Mesmo assim, Guru aguenta-se porque Niney segura a corda. Depois de O Conde de Monte Cristo o ter confirmado como uma das grandes estrelas populares francesas, mostra outra vez uma capacidade física e nervosa impressionante. O seu Matt é ridículo, perigoso, sedutor, infantil e às vezes assustadoramente convincente. Percebemos porque o seguem. Percebemos até porque pagam.

Gozlan de qualquer maneira fez um filme pertinente, divertido e venenoso sobre uma época em que toda a gente tem uma solução para a nossa vida, normalmente disponível por subscrição mensal. Faltou-lhe desconfiar mais do próprio método. Guru quer denunciar quem fala durante duas horas para explicar como devemos viver. E demora duas horas e seis minutos a fazê-lo. Convenhamos: um bom coach teria vendido o mesmo pacote no máximo em 90 minutos.

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JVM (4/10)

Guru

Conclusão

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  • “Guru” aguenta-se porque Niney segura a corda. Depois de “O Conde de Monte Cristo” o ter confirmado como uma das grandes estrelas populares francesas, mostra outra vez uma capacidade física e nervosa impressionante. O seu Matt é ridículo, perigoso, sedutor, infantil e às vezes assustadoramente convincente.
  • “Guru” quer denunciar quem fala durante duas horas para explicar como devemos viver. E demora duas horas e seis minutos a fazê-lo. Convenhamos: um bom coach teria vendido o mesmo pacote no máximo em 90 minutos.
Overall
4/10
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