Em certa medida, o jovem Diego Céspedes viveu o sonho de qualquer cineasta em início de carreira. Depois de uns anos de estudo e um par de curtas-metragens com pouca projeção internacional, o realizador chileno lançou a sua primeira longa no Festival de Cannes. “O Misterioso Olhar do Flamingo”, conhecido como “La misteriosa mirada del flamenco” no original, ganhou-lhe a secção Un Certain Regard. Além disso, seu sucesso no circuito festivaleiro, entre crítica e público e até o comité de seleção dos Óscares no Chile, possibilitou um convite muito especial.
Já este ano, uns meros doze meses depois da sua estreia na Croisette, Céspedes foi selecionado como membro do júri da competição principal de Cannes, sendo simbolicamente colocado no mesmo patamar que Chloé Zhao, Demi Moore, Stellan Skarsgård e outros grandes nomes, sob a presidência de Park Chan-wook. Como é evidente, tais glórias trazem consigo uma abundância de expetativas, porventura colocando demasiado peso sobre os ombros de uma obra modesta. Afinal, será “O Misterioso Olhar do Flamingo” digno de tanto furor?
Para responder, convém descrever a fita no centro da questão. Acontece que a primeira longa-metragem de Diego Céspedes insere-se num paradigma da alegoria queer que o coloca em convívio com outro filme a concurso no Festival de Cannes de 2025 – “Alpha” de Julia Ducournau. Ambos abordam a crise da SIDA através de um apelo ao realismo mágico, algo que funciona melhor num projeto contextualizado pela popularidade de tais histórias na literatura latino-americana do que num exercício de género entre identidades culturais franco-persas.
Contudo, partilham muito, inclusive uma dependência da inocência de olhos juvenis mirando um mundo que não compreendem. Neste caso, trata-se de Lidia, filha adotiva da drag queen, quiçá mulher trans, que dá pelo nome de Flamingo. Elas vivem numa pequena comunidade, perdida algures na vastidão do deserto do Atacama, sob a proteção e carinho de Mama Boa. Essa matriarca transvestida chegou à localidade há muito tempo, encontrando-a sedente de feminilidade, e as mulheres já haviam partido, deixando para trás os homens, mineiros solitários e a tremer de desejo.
Diego Céspedes fala de assuntos sérios em jeito fabulista.
A casa de Mama Boa é um oásis nestas paisagens de terra queimada sem fim, desabrochando como uma flor que traz cor e vida e um bestiário de mulheres trans, todas elas batizadas com o nome de algum animal. São elas cantoras e bailarinas, cortesãs e prostitutas, uma cura para o suplício da solidão masculina, ao mesmo tempo que representam uma transgressão das normas do género, da sociedade e da misoginia implícita tanto no que se apelida de valores tradicionais. Certa noite, a tragédia desampara a comunidade e, dela, nasce um mito deveras mortífero.
Aconteceu depois de um dia de trabalho nas minas, quando Yovani pôs os olhos em Flamingo e, como acólito em êxtase perante Nossa Senhora, rendeu-se de amores. Em gestos localizados algures entre o rito religioso e a indulgência da carne, o bruto seguiu essa divindade até um charco, onde, sob a luz de uma lua argêntea, consumaram a união. Mas a vergonha de estar com alguém que, segundo o jeito conservador da gente, não era uma mulher de verdade, despoletou a vergonha e, em seguida, a raiva. A violência viria também, mas, antes, surgiu o rumor.
Porque, quando a morte chegou à aldeia no Atacama, formularam-se logo teorias que desculpassem os homens de bem e pusessem todas as culpas nos “maricones.” Chamam-lhe a peste, uma maldição nefasta que surge quando dois pressupostos homens olham nos olhos um do outro. Se, entre eles, houver amor e desejo, então qualquer moléstia começa a afetar-lhes o corpo, erodindo o organismo como uma podridão que cresce de dentro para fora. Na sua histeria patriarcal, os mineiros atacam as meninas de Mama Boa e até as obrigam a andar vendadas.
A questão do olhar sempre foi um dos principais fundamentos do cinema queer desde tempos imemoriais. Nessa altura, tudo tinha que ser codificado ou então vivia condenado à marginalidade de projeções clandestinas. Nos dias de hoje, os artistas podem ser mais explícitos e diretos, falando verdades sem a imposição censória do eufemismo. Isso não quer, contudo, dizer que todo o artista queer deseje representar a realidade tal como ela é. Para Céspedes, há mais valor na mentira que conta verdades, no sonho pelo qual se entende a vida desperta, na metáfora literalizada, no conto de fadas.
E é isso mesmo que “O Misterioso Olhar do Flamingo” acaba por ser – um conto de fadas cruzado com um western, por influência da paisagem, e uma revista de drag queens, pelo esplendor das personagens. A alquimia cinematográfica que Céspedes mistura aqui é bem arriscada, mas os resultados falam por si, especialmente quando ele se desapega de quaisquer presunções miméticas e se deixa levar por floreados estilísticos mais mirabolantes. A fantasia eleva o filme, enquanto a convenção, quando se manifesta, o desvaloriza.
Só que, no assunto de modelos narrativos, as convenções existem porque funcionam e, se não tivermos cuidado, a sua subversão pode dar raia. “O Misterioso Olhar do Flamingo” nunca se torna em nenhum desastre ou peca pela mediocridade. Contudo, ainda está longe da perfeição. Em parte, porque a sua extravagância de estilo no que se refere às suas personagens queer pode criar efeitos de distanciamento, alienando-nos, enquanto espetadores, destas pessoas que já, por si, são desumanizadas pela sociedade em que vivem.
Sente-se grande afeto da câmara pelos seus sujeitos marginalizados.

Há muito amor na forma como Céspedes e o diretor de fotografia Angello Faccini evocam o desfoque e os filtros da Velha Hollywood ao retratar as drag queens em grande plano. Contudo, isto também as isola na gramática visual da fita. Por outro lado, a escrita das personagens é tão apegada aos esquemas arquetípicos de mitos e fábulas e afins, que talvez essa barreira estética seja mais-valia. Lidia, que não tem essa benesse fotográfica, tem problemas em afirmar-se como uma figura tridimensional, exatamente porque a câmara não lhe dá espetacularidade alguma. De facto, a câmara encontra uma gémea nessa rapariga.
Digo isso, pois Lidia existe única e exclusivamente como ponto de acesso a este mundo que Céspedes concebeu, um Chile de 1982 espicaçado pelos espelhos roseados de um caleidoscópio. A fantasia não é uma fantasia, mas um realismo magicado pela inocência da meninice. A função de Lidia na narrativa é, portanto, ser a câmara que nos permite ver uma crise histórica enquanto sonho, mas a subjetividade dela não a valoriza como pessoa. Assim, o enredo acaba por se revolver em torno de um centro oco, um mecanismo textual com o qual dificilmente nos emocionamos.
E as passagens finais de “O Misterioso Olhar do Flamingo” exigem que nos emocionemos perante o fado de Lidia. Dito isso, sentimos perda, sentimos ardor e sentimos a melancolia de uma inocência confrontada com a maldade do Homem e a brutalidade da transfobia. O elenco secundário, tanto na escrita quanto na atuação, está muito bem e é responsável pelo pathos que Céspedes conjura. Amo a Flamingo de Matías Catalán, e ainda mais apreço tenho pela Boa que Paula Dinamarca interpreta, cheia de dignidade e retidão, de um olhar tão ternurento que parece capaz de trespassar a barreira do ecrã e nos fazer sentir o calor de um abraço. Na verdade, quase desejo um filme só sobre ela, seu romance e matrimónio no crepúsculo da vida.
Tal ternura é necessária para adocicar a amargura de uma história que, quando tudo está dito, se afirma como um conto trágico, ainda mais triste por corresponder ao impacto redobrado que a SIDA teve sobre a comunidade queer. Primeiro, pela doença em si, mas depois pelo novo vigor que deu ao ódio da sociedade para com seus marginais, a justificação que concedeu àqueles dispostos a derramar sangue em nome de uma monstruosa moralidade. “O Misterioso Olhar do Flamingo” não conseguiu assegurar a nomeação para o Óscar de Melhor Filme Internacional, mas é uma obra de grande relevo no atual panorama do cinema LGBT+, mostrando como jovens criadores olham para trás, para a História da sua gente, e dramatizam o passado como forma de imaginar um futuro melhor.
Conclusão:
- Um conto de fadas, uma alegoria sobre a crise da SIDA nos anos 80 ou uma experiência estilística para um cineasta LGBTQ+ em início de carreira? “O Misterioso Olhar do Flamingo” é tudo isso e mais, anunciando Diego Céspedes como um realizador do momento e alguém cujos filmes devemos acompanhar de agora em diante. Quem sabe quais maravilhas nos aguardam no futuro deste autor?
- Dito isso, a longa-metragem inaugural do chileno não é um sucesso imaculado, denunciando algumas limitações na conceção de personagens e no equilíbrio entre as muitas vertentes tonais em jogo. Trata-se de uma alquimia cinematográfica muito quimérica e arriscada, de onde surgem momentos maravilhosos e outros aspetos que nos deixam de pé atrás.
- O melhor de “O Misterioso Olhar do Flamingo” é o seu elenco secundário e o estrondoso trabalho de fotografia, capaz de navegar uma série de transformações que forçam um western a virar fantasia, a virar elegia por um idílio efémero, perdido algures no deserto do Atacama.


