“Um Toque Familiar”, também conhecido como “Familiar Touch”, é um filme que se faz muito com base em diálogo e no trabalho de ator, na disposição de corpos em cena e na expressão contida na relação entre atores e suas energias. Alguns diriam que é um filme teatral, mas isso é erróneo, pois a fita até evidencia bem as distinções entre a arte do ecrã e a arte do palco, especialmente no que se refere aos atores a que estes ofícios se dedicam. Em certa medida, a grande maravilha do teatro corresponde igualmente à sua grande tragédia. Trata-se da efemeridade essencial.
O texto que serve de base ao espetáculo sobrevive, algum registo visual também, dependendo da produção, e as descrições de quem o viu, seus testemunhos orais e escritos. Contudo, não é possível apreciar uma récita a não ser que lá estejamos, com a comunhão entre quem está em palco e aqueles na plateia parte essencial da experiência. E essa dita parte só pode existir no momento, tudo o mais perdendo-se com a implacável passagem do tempo. O cinema é bem diferente, nesse e muitos outros aspetos, sendo uma arte que trabalha mais na função da imagem e do tempo, congelado num jeito impossível para o teatro e também para a memória humana.
Por isso mesmo, atores consagrados no grande ecrã podem ser mais facilmente lembrados do que aqueles cuja glória se fez entre o enquadramento do proscénio e os limites da boca de cena. Considerem-se algumas lendas do teatro americano do século XX, como Gertrude Lawrence ou Uta Hagen, e comparem-nas com colegas que, no mesmo período, apareceram diante das câmeras de Hollywood. Hoje em dia, a arte dessas deusas dos palcos é um detalhe histórico que não podemos desfrutar em qualquer plenitude.
São memórias imperfeitas e alienadas, tão impossíveis de conhecer como a voz de Farinelli ou o vigor de Mozart no piano. As senhoras do grande ecrã, pelo contrário, têm sua glória lembrada como algo vivo, que nos chega com o mesmo poder com que outrora maravilhou espectadores. Falo de tudo isto porque, até recentemente, Kathleen Chalfant era uma dessas estrelas do palco cujo legado parecia condenado ao esquecimento ou, pior ainda, à análise enquanto relíquia histórica. Sua carreira no teatro é invejável, incluindo as produções originais de “Angels in America”, de Tony Kushner, e “Wit”, de Margaret Edson, entre muitas outras.
Kathleen Chalfant é um espanto, um assombro, um milagre.

No cinema e na televisão, ela raramente fez mais do que pequenos papéis secundários, formas de ganhar dinheiro fácil entre novos projetos teatrais. Nunca nenhum cineasta lhe havia dado uma oportunidade correspondente à grandiosidade da atriz. Assim era até que, aos 79 anos, Chalfant foi abençoada com o melhor papel da sua modesta carreira no grande ecrã. “Um Toque Familiar” marca a estreia de Sarah Friedland na realização de longas-metragens e consiste no retrato de Ruth, uma octogenária a recomeçar a vida num lar especializado em casos de declínio cognitivo.
Em jeito de brincadeira, a realizadora terá até descrito e promovido a obra consoante a tradição do bildungsroman cinematográfico, só que sobre idosos ao invés da mocidade. Logo a primeira cena marca um jogo subtil entre o estudo de personagem e o melodrama que a premissa narrativa proporciona. Longe de olhar em jeito superior ou condescendente para o declínio de Ruth, Friedland envolve-nos na sua subjetividade. Numa casa elegante, banhada pela luz âmbar de um crepúsculo simbólico, vemos Chalfant em preparos para o que parece ser um serão romântico.
Ela faz um almoço, ou será lanche? Escolhe a indumentária com cuidado, ou quiçá com um toque de improviso irreverente? E, no fim, com ar matreiro e um olhar que reluz de inteligência, ela entretém um homem bastante mais novo. Será seu amante? Não, é o filho, mesmo que Ruth já não se recorde desse facto. Isto não é nenhum lanche adocicado com caprichosos elogios e algum atrevimento que nos recorde que até os mais velhos têm desejos sexuais. Trata-se da tentativa de um homem levar a mãe para seu novo lar, caminhando na corda bamba que treme por cima dos abismos da verdade e da mentira.
O filho não a quer ludibriar nem invocar a memória de um patriarca falecido que ela possa projetar sobre sua face. Mas haverá forma de lhe assegurar o conforto, o tratamento necessário, e a dignidade que lhe é devida sem este gesto ilusório? A questão da dignidade é particularmente pertinente em “Um Toque Familiar,” impondo especial peso no modo como Friedland considera a protagonista e na prestação de Chalfant. Entre esses dois polos, cria-se uma ideia, quase palpável, de quem Ruth foi em tempos, a mulher que era e que, de certa forma, ainda é, apesar da erosão que a demência impõe à memória e à identidade.
Sarah Friedland marca aqui uma estreia bem promissora.

Porque, afinal, a noção de “eu” parte da acumulação de vivências, escolhas, recordações e remorsos recolhidos na mente de cada um. Nesse sentido, “Um Toque Familiar” vai além do estudo de personagem e almeja algo mais arriscado do ponto de vista conceptual. Propõe, assim, uma indagação sobre o que define o indivíduo e o quanto é possível esbater o que nos faz quem somos até deixarmos de ser essa pessoa, restando um espectro de carne e osso e pouco mais. Friedland em tudo evita o sensacionalismo, mantendo-se fiel àquela noção de dignidade para com Ruth, mas também para com Chalfant.
A atriz jamais se entende como um veículo para a exploração salaz do degredo humano, mas sim como intérprete de uma realidade insular que, por meio do engenho do cinema, tenta exteriorizar-se para o entendimento do público. Desde a fisicalidade daquele coquetismo enganado da primeira cena até ao sentimento de ultraje perante o embuste revelado, a serenidade que ela traz a momentos em que esperaríamos histeria ou a frieza no lugar onde o sentimentalismo seria mais comum, ela é uma mestra retratista capaz de evidenciar como, até no seu definhar, Ruth permanece uma mulher complexa.
De facto, ela é um daqueles milagres cinematográficos que merecem, talvez até exijam, uma ovação de pé. Se ela fosse uma atriz em início de carreira, poderíamos esperar que daqui nascesse uma estrela, mas Kathleen Chalfant já é uma estrela. Ela é um astro consagrado dos palcos americanos e, através de “Um Toque Familiar”, podemos perceber alguma da imensidão que as audiências dos teatros nova-iorquinos tiveram a sorte de apreciar desde a sua estreia nos anos 70. Mas, se para a atriz, este filme é a cereja no topo do bolo que é uma carreira com meio século, “Um Toque Familiar” serve como anunciação de Friedland enquanto cineasta do futuro, já celebrada até no Festival de Veneza.
A mise-en-scène que negocia a perspetiva da personagem principal e o modo como os outros a observam indicam a astúcia de uma classicista. Contudo, há experimentação no projeto também, nomeadamente no uso de elementos de documentário, mesclando o texto dramático com o cenário de um verdadeiro lar de idosos, seus habitantes e trabalhadores a interpretarem versões de si mesmos ou somente a existirem perante o olhar das câmaras. Nessa pontada de neorrealismo, “Um Toque Familiar” mostra-se muito mais do que uma mera montra para os talentos de Kathleen Chalfant. É isso, sim, mas muito mais também.
Um Toque Familiar
Conclusão:
- A grande atriz de teatro Kathleen Chalfant mostra que tem tudo o que é preciso para ser uma diva do grande ecrã. Seu retrato de uma mulher a cambalear no abismo da demência traz dignidade a um papel que muitos outros intérpretes tornariam em espetáculo grotesco ou, porventura, algum melodrama a puxar a lágrima.
- Convém, contudo, dizer que “Um Toque Familiar” não é somente um pódio em forma de filme, um qualquer alicerce cinematográfico para a admiração de uma artista dos palcos a partilhar sua glória com novo público. Na verdade, afirma-se um estudo sobre os limites da identidade e sua relação com a fragilidade da memória.
- É ainda a estreia de Sarah Friedland nas longas-metragens, combinando um estudo de personagem muito ao estilo do que se faz no cinema independente americano desde que Cassavetes revolucionou o sistema com um suave neorrealismo, hibridizando facto e ficção enquanto documenta o dia-a-dia num lar de idosos em degeneração cognitiva.

