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Martin McDonagh (Wild Horse Nine) leva John Malkovich e Sam Rockwell para a Ilha de Páscoa e assina o primeiro grande filme do festival e da Competição; Werner Herzog  (Bucking Fastard) responde com Rooney e Kate Mara em perturbadora sintonia. Gianni Amelio (Nessun Dolore) abre a porta aos migrantes e o documentário Everest: The Other Side, tira-nos o oxigénio.

Ao segundo dia, Veneza deixou de fazer apresentações. Acordámos para a CIA, almoçámos com duas irmãs que falam ao mesmo tempo, passámos pela crise migratória italiana e acabámos a olhar para gente convencida de que subir a face norte do Everest para depois descer de esquis é uma ideia aceitável e relativamente acessível a qualquer um. Estou a ironizar, claro. Porém, foi um programa equilibrado, portanto. Ao fim de quatro filmes, a coisa mais estranha do dia já nem é o filme de Werner Herzog.

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Wild Horse Nine: a consciência americana chegou atrasada

Martin McDonagh foi à Ilha de Páscoa e levou aquilo que melhor sabe transportar para um cenário paradisíaco: homens em guerra consigo próprios, diálogos afiados e a sensação de que uma conversa banal pode acabar numa confissão, num cadáver ou numa gargalhada culpada. Wild Horse Nine passa-se pouco antes do golpe de Estado chileno de 1973. John Malkovich e Sam Rockwell são dois agentes da CIA enviados de Santiago para Rapa Nui, supostamente longe da tempestade. Péssima ideia. Num filme de McDonagh, quanto mais isolado é o lugar, menor é a possibilidade de fugir ao que se traz na mala. Estes dois carregam culpa e segredos suficientes para transformar os moai  (as famosas cabeças de pedra) em testemunhas de acusação. É uma comédia negra brilhante, inquietante e frequentemente hilariante, em que rimos primeiro e percebemos dois segundos depois que a gargalhada vinha com veneno. McDonagh continua a escrever personagens capazes de dizer coisas monstruosas com a naturalidade de quem pede uma cerveja. A política entra pelos silêncios, pelas piadas e pela normalidade burocrática com que se podem preparar golpes de Estado.

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Sam Rockwell conhece este território como quem já tem a chave de casa. John Malkovich, porém, rouba o filme. Aos 72 anos, basta-lhe inclinar a cabeça, atrasar uma resposta ou deixar uma frase suspensa para transformar ironia em ameaça e cansaço em remorso. A personagem parece ter sobrevivido a demasiadas operações secretas e a si própria. Malkovich dá-lhe uma inteligência amarga, sem pedir simpatia nem absolvição. Se a temporada de prémios precisar de acordar, pode começar por aqui. McDonagh filmou 1973 com a indiscrição de quem está a falar de 2026. Wild Horse Nine transforma a memória das interferências e acção secretas americanas num acerto de contas servido com humor venenoso e uma paisagem tão bela que até a conspiração parece indecentemente fotogénica. É a primeira pedra preciosa desta Veneza.

Bucking Fastard: duas Mara e um Herzog chegam para a loucura

Bucking Fastard - Festival de Veneza
© Lena Herzog

Werner Herzog, aos 83 anos, continua a comportar-se como se o cinema fosse demasiado sério para ser entregue a pessoas sensatas. Bucking Fastard inspira-se nas gémeas Freda e Greta Chaplin e entrega a Rooney e Kate Mara duas irmãs que falam, andam, reagem e até tropeçam nas palavras em perfeita sincronia. O título nasce de um lapso pronunciado pelas duas em tribunal: “bucking fastard”, versão acidental de um insulto que convém deixar simplesmente em inglês. Procurem-no no dicionário!

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A ideia é Herzog em estado puro: duas mulheres fundidas numa identidade, apaixonadas pelo mesmo homem, convencidas de que podem cavar um túnel até uma terra onde o amor verdadeiro funcione. Orlando Bloom ocupa o centro deste triângulo que já nasceu com problemas; Domhnall Gleeson tenta introduzir normalidade numa história que trata a normalidade como doença contagiosa. O acontecimento são Rooney e Kate Mara. A precisão com que falam e se movem em uníssono é cómica, inquietante e hipnótica. Durante largos momentos deixamos de perceber onde termina uma e começa a outra. Herzog reencontra as suas criaturas preferidas: seres que perseguem uma ideia até ao ponto onde a razão pede licença e vai embora. O filme não tem a febre de Aguirre, a Cólera dos Deuses nem a insanidade física de Fitzcarraldo. Repete-se e perde fulgor. Pedir a Herzog, aos 83 anos, que volte a arrastar um barco por cima de uma montanha apenas para nos tranquilizar seria crueldade crítica. Bucking Fastard é irregular, estranho e inconfundivelmente seu. “Um filme de Werner Herzog” já funciona quase como género cinematográfico.

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Amelio abre a porta; o Everest tira-nos o ar

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Nessun Dolore, de Gianni Amelio, num filme apresentado fora da competição, troca a excentricidade pela consciência europeia. Alessandro Borghi interpreta Davide, livreiro ou melhor alfarrabista de quiosque romano, uma bom-samaritano como já não existe, cuja a casa propria se transforma num abrigo improvisado para migrantes. Um rapaz norte-africano, uma adolescente argelina grávida, outras pessoas sem lugar onde dormir: mais de trinta anos depois de Lamerica, Amelio regressa à pergunta que a Europa continua a empurrar de cimeira em cimeira: quem é o estrangeiro quando deixa de ser estatística e aparece à nossa porta?

É um filme generoso, sério e humanista, por vezes demasiado empenhado em provar essa generosidade. Quando observa Borghi, Valeria Golino e Valerio Mastandrea, respira; quando transforma personagens em argumentos, aperta-lhes o pescoço e torna-se um pesadelo de assistir. Amelio filma a dignidade com frontalidade, mas a boa consciência também pode tornar-se demasiado confortável e sobretudo muito aborrecida.

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Por seu lado, o documentário da National Geographic, apresentado igualmente fora da competição intitulado, Everest: The Other Side, de Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin, leva-nos para um sítio onde conforto é palavra proibida. Depois de Free Solo, a dupla acompanha Jim Morrison e Hilaree Nelson no projecto de subir a face norte do Everest e descer de esquis. A morte de Hilaree converte a aventura num filme sobre luto, persistência e uma pergunta incómoda: até onde podemos chamar coragem àquilo que se parece perigosamente com obsessão? As imagens são esmagadoras e Jimmy Chin volta a colocar a câmara onde qualquer pessoa razoável colocaria um testamento. O documentário perde força quando sublinha uma tragédia que já está diante de nós; o abismo faz esse trabalho sozinho. Chin está na montanha, preso à mesma corda, assumindo o risco que filma, e essa proximidade física dá ao filme uma verdade que nenhum drone consegue fabricar.

JVM

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