© Seven Springs Pictures

Um médico iraniano decide morrer, um advogado francês tenta sobreviver a si próprio e um homem regressa à Argentina para olhar de frente para quem o torturou. Veneza encerrou a Competição com três maneiras bastante pouco festivas de perguntar o que fazemos depois de chegar ao limite. Amanhã, às 19h00 no Lido de Veneza, 18h00 em Lisboa, chegam os prémios e o Leão de Ouro 2026. Nas tabelas da crítica, Possible Love, de Lee Chang-dong, parte à frente. Mas Veneza já nos ensinou que os júris gostam muito de estragar apostas.

Chegámos ao décimo dia e, mais importante, ao fim da Competição. Dez dias depois, dezenas de filmes depois (mais alguns dos importantes fora da competição como Musk por exemplo —, demasiados cafés depois e com o organismo humano já a funcionar graças a uma combinação pouco recomendável de cafeína, adrenalina e ar condicionado gelado das salas de cinema, Veneza fechou a corrida ao Leão de Ouro com uma curiosa dupla sobre sobrevivência. Não daquelas com tubarões, vulcões, zombies ou Tom Cruise pendurado num avião. Sobrevivência da pior espécie: a que acontece dentro da cabeça. Em A Bit of Light, de Ali Asgari, um médico iraniano decide que já não aguenta viver; em Ritorno a Buenos Aires, Marco Bechis põe um sobrevivente da ditadura argentina perante os homens e a memória que nunca conseguiu verdadeiramente abandonar; pelo meio, fora de Competição e servido pela Netflix, Un bon avocat, de Tristan Séguéla, transforma Laurent Lafitte num advogado brilhante, cocainómano e especialista em defender toda a gente menos a si próprio. Bela maneira de terminar um festival: ninguém está propriamente bem na fotografia.

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Quando viver passa a ser um acto político

O melhor dos três, para mim, é A Bit of Light, de Ali Asgari, e não apenas porque o cinema iraniano continua a ter esta irritante capacidade de fazer com meia dúzia de gestos aquilo para que Hollywood precisa de música, drones, discursos e três páginas de diálogo explicativo. O protagonista é um médico que, depois de ser preso e de perder o consultório, decidiu morrer. Não ameaça, não dramatiza, não transforma o suicídio numa chantagem emocional. Organiza-o. Antes disso visita os irmãos e a mãe, como quem faz uma última ronda pelos afectos antes de entregar a chave da vida na recepção.

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Asgari filma essa despedida sem violinos a empurrarem-nos para a lágrima e sem transformar o homem numa tese ambulante. O Irão que vemos já não é o Irão rural, poeirento e quase metafísico de Abbas Kiarostami. É Teerão, urbana, moderna, cheia de apartamentos, cafés, carros, telemóveis e gente que procura uma normalidade num país onde a normalidade parece ter sido declarada actividade suspeita. A repressão política, a crise económica e a ameaça permanente da guerra vinda de Washington, não precisam de entrar em campo com uniforme. Estão em todo o lado porque se instalaram na vida quotidiana dos personagens.

É impossível não pensar em O Gosto da Cereja, claro. Outro homem, outro automóvel, outra decisão de morrer. Mas Asgari não está interessado em refazer Kiarostami. A pergunta mudou. Já não se trata apenas de saber porque razão alguém quer abandonar a vida, mas de perceber quantas outras vidas ficam agarradas à nossa quando decidimos partir. Uma mãe que prepara comida, um irmão que aparece, uma conversa banal, uma mão pousada no sítio certo. Pequenas coisas. Num cinema contemporâneo obcecado em explicar tudo e mais alguma coisa e sobretudo mostrá-lo com aparato, Asgari tem a inteligência de perceber que um copo de chá pode dizer mais sobre a sobrevivência do que vinte minutos de diálogos ou grandes efeitos especiais.

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E existe aqui outra coisa que não convém ignorar: filmar no Irão continua a ser, para certos realizadores, uma profissão próxima da desobediência civil. Asgari sabe-o bem. O seu cinema tem vivido sob vigilância, censura e limitações impostas pelas autoridades, mas continua a filmar. A Bit of Light é, por isso, menos um filme sobre o desejo de morrer do que sobre a dificuldade, e a teimosia, de continuar vivo. Num país onde o poder pretende regulamentar corpos, comportamentos, imagens e pensamentos, respirar ainda pode ser um pequeno acto de insubordinação.

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Cocaína, toga e Netflix

Depois entrou o grande actor francês Laurent Lafitte e Veneza muda de temperatura. Un bon avocat, do francês Tristan Séguéla (o realizador da série Tapie), está fora da Competição, chega pela Netflix e parte de uma ideia bastante simples: o advogado que consegue salvar os piores clientes do mundo é incapaz de salvar o próprio pescoço. Léonard Landry (Lafitte) é um penalista brilhante, exibicionista, rápido de raciocínio e ainda mais rápido a consumir cocaína. Até ao dia em que sofre uma overdose em pleno tribunal, o que, convenhamos, é uma maneira pouco discreta de informar colegas, magistrados e clientes de que talvez exista um pequeno problema de gestão pessoal.

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Sai da reabilitação e recebe uma semana para recompor a carreira, preparar um processo complicado e, detalhe desagradável, preparar também o seu próprio julgamento. Ao lado tem Noé, jovem estagiário persistente interpretado por Anthony Bajon, espécie de consciência profissional de um homem que passou anos a tratar a moral como uma cláusula contratual escrita em letra pequenina.

Séguéla mistura thriller judicial, comédia e filme de recuperação sem descobrir propriamente a pólvora, mas Lafitte é suficientemente bom para transformar arrogância em espectáculo. O seu Léonard pertence à velha escola dos homens convencidos de que inteligência é imunidade: se somos suficientemente espertos, as regras aplicam-se sobretudo aos outros. Até o corpo apresentar recurso.

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O filme diverte-se com o mundo da advocacia, as brechas legais, os grandes interesses económicos e a elasticidade extraordinária que a palavra justiça adquire quando existem honorários suficientes em cima da mesa. A Netflix terá certamente aqui um produto muito confortável: ritmo, estrelas, cocaína, tribunais e redenção possível. Não há algoritmo que resista. Mas por baixo da embalagem fica uma ideia menos confortável: passamos a vida a construir personagens profissionais tão eficazes que um dia descobrimos que elas já não sabem quem somos quando tiramos a toga.

Os mortos continuam a testemunhar

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Ritorno a Buenos Aires, do argentino Marco Bechis, traz-nos de volta ao território onde o cinema deixa de ser entretenimento para funcionar como acerto de contas. Buenos Aires, 2008. Mariano Guerra — protagonizado pelo pelo italiano Adriano Giannini — vive em Itália há trinta e três anos quando regressa à Argentina para testemunhar no julgamento dos antigos militares que o sequestraram e torturaram durante a ditadura. Não regressa como herói, nem como vingador. Regressa como sobrevivente, palavra que pronunciamos muitas vezes como se significasse vitória quando pode significar precisamente o contrário: ter ficado vivo com os mortos todos lá dentro.

Bechis conhece demasiado bem este território. Foi ele próprio sequestrado em Buenos Aires em 1977, tinha vinte anos, passou pela máquina clandestina da repressão da ditadura e acabou expulso para Itália. A Argentina, os desaparecidos, a tortura e a memória atravessam o seu cinema desde Garage Olimpo. Desta vez escolhe a ficção para colocar alguma distância entre a sua própria biografia e Mariano. Uma distância curta.

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O que interessa ao filme não é mostrar a violência. Essa já aconteceu. Interessa-lhe perceber o estrago que ficou. Os sobreviventes encontram-se nas instalações do Ministério da Justiça, esperam para depor, reconhecem rostos, recuperam episódios, carregam culpas. Mariano sabe que nenhuma sentença lhe devolverá aquilo que perdeu e enfrenta uma das perversões mais cruéis da tortura: a vergonha de ter sobrevivido quando outros morreram, e a culpa pelo que um ser humano pode dizer ou fazer quando alguém lhe destrói o corpo até a vontade deixar de lhe pertencer.

Bechis filma sem tribunal de consciência para o espectador. Rostos, silêncios, espera. A memória não surge como flashback decorativo, mas como matéria física. Está na postura dos corpos, no medo, no modo como alguém entra numa sala. Cinquenta anos depois do golpe militar argentino de 1976, Ritorno a Buenos Aires recorda uma coisa que as democracias às vezes esquecem quando começam a achar cansativo falar do passado: as ditaduras acabam administrativamente muito antes de acabarem dentro das pessoas.

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À espera do Leão

Veneza 83
O Leão de Ouro de Veneza, o prémio mais importante. ©Biennale di Venezia

E assim terminou a Competição de Veneza 83. Não com fogo-de-artifício, mas com um médico que quer morrer, um sobrevivente obrigado a regressar e, pelo meio, um advogado que descobre que a vida não aceita sempre pedidos de adiamento. Dez dias de filmes depois, chegamos amanhã à cerimónia dos prémios com Possible Love, de Lee Chang-dong, instalado no topo de muitas tabelas da crítica italiana e internacional e com ar de favorito ao Leão de Ouro 2026. Mereceria. É um dos grandes filmes desta edição e um daqueles raros objectos que parecem crescer depois da sessão em vez de desaparecerem quando se acendem as luzes e saímos para a rua.

Mas os festivais têm esta saudável mania de lembrar aos jornalistas que previsões são apenas uma forma mais sofisticada de passar vergonha em público. Amanhã, às 19h00 em Veneza, 18h00 em Lisboa, saberemos o que decidiu o júri. Até lá, podem fazer contas, consultar estrelas, somar votações e estudar tendências. O Leão e os jurados, felizmente, ainda não aprenderam a ler as tabelas da crítica.

JVM


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