Werner Herzog: O Homem Que Move Montanhas e Ainda Não Aprendeu a Ficar Quieto | Festival de San Sebastián 2026

© CNN Films
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Aos 84 anos, o realizador alemão recebe hoje o Prémio Donostia em San Sebastián e apresenta Bucking Fastard, acabado de chegar da competição de Veneza. Herzog continua a filmar como sempre viveu: convencido de que a realidade é apenas uma primeira versão dos factos e geralmente a menos interessante.

Werner Herzog fez 84 anos no passado dia 5 de Setembro e continua a comportar-se como se a reforma fosse uma invenção administrativa destinada a pessoas que não têm uma montanha para atravessar, um vulcão onde meter a câmara ou um louco suficientemente interessante para seguir até ao fim do mundo. O Festival de San Sebastián entrega-lhe hoje, na abertura da sua 74.ª edição, o Prémio Donostia pelo conjunto de uma carreira que já ronda os 80 filmes, entre ficções e documentários, embora estas categorias nunca tenham servido de grande coisa quando se fala de Herzog. Antes da cerimónia no Kursaal, o Victoria Eugenia recebe Bucking Fastard, a nova longa-metragem que chega directamente da competição de Veneza.

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Um cineasta que nunca soube obedecer

Chamar-lhe realizador é manifestamente pouco. Herzog é realizador, argumentista, produtor, escritor, actor, encenador de ópera, caminhante profissional, aventureiro por conta própria e uma espécie de filósofo alemão com câmara de filmar, voz de trovão e alergia crónica ao bom senso. O material preparado pelo próprio Festival define bem esta mistura: escultor-humanista, poeta do Sturm und Drang, homem de acção que pergunta tanto às montanhas como aos seres humanos e cuja obra nunca aceitou fronteiras tranquilas entre aventura, história, música, filosofia, ficção e documentário. Não deixa de ser extraordinário que um homem que, segundo a biografia oficial do Festival, não soube sequer que o cinema existia até aos 11 anos tenha acabado a reinventá-lo à sua maneira. Aos 15 começou a imaginar filmes; como ninguém queria pagá-los, trabalhou de noite como soldador enquanto ainda estudava; aos 19 realizou o primeiro. Pelo meio começou também a andar a pé, hábito que nunca abandonou verdadeiramente, mesmo quando os pés foram substituídos por barcos, aviões, helicópteros e equipas de produção aterrorizadas.

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É impossível separar Herzog das criaturas que filmou porque ele próprio parece saído de um filme de Herzog. Aguirre procura o Eldorado até enlouquecer; Fitzcarraldo quer levar a ópera à selva e decide transportar um barco por cima de uma montanha; Timothy Treadwell acredita poder viver entre ursos; Dieter Dengler sobrevive à guerra e à selva. Todos perseguem qualquer coisa para lá do razoável. Herzog também. Em Fitzcarraldo não quis uma miniatura nem um truque óptico: mandou realmente puxar um navio por uma montanha amazónica. Podia ter usado efeitos. Evidentemente, isso teria sido demasiado simples. A dificuldade, para Herzog, nunca foi um acidente de produção; é quase uma matéria-prima.

A verdade não cabe nos factos

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Também por isso a velha oposição entre documentário e ficção praticamente não funciona no seu cinema. Herzog desconfia da verdade puramente factual e prefere aquilo a que chama “verdade extática”: não falsear o mundo, mas procurar nele uma camada mais funda, poética, contraditória e por vezes delirante. Filmou desertos como se fossem planetas desconhecidos em Fata Morgana, a conquista colonial como uma febre em Aguirre, o Aventureiro, a marginalidade como um estado de pureza brutal em O Enigma de Kaspar Hauser e Stroszek, o vampiro de Murnau como uma criatura simultaneamente grotesca e melancólica em Nosferatu, o Vampiro da Noite. Filmou a Antárctida, vulcões, cavernas pré-históricas, corredores da morte, a Internet, meteoritos, cérebros e elefantes-fantasma. Se lhe disserem que determinado lugar não deve ser filmado, Herzog começa provavelmente a procurar o avião.

E há Klaus Kinski, claro, actor-fetiche, inimigo íntimo, parceiro de cinco filmes e de várias ameaças de homicídio mais ou menos literais. Aguirre, Nosferatu, Woyzeck, Fitzcarraldo e Cobra Verde nasceram dessa relação entre génio, fúria e catástrofe, mais tarde transformada pelo próprio Herzog em O Meu Melhor Inimigo. Poucas duplas explicam tão bem a ideia de que o cinema pode ser uma arte colaborativa desde que todos sobrevivam.

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“Bucking Fastard”: duas irmãs, uma só voz

© Lena Herzog

Agora chega Bucking Fastard. Kate Mara e Rooney Mara interpretam Jean e Joan Holbrooke, duas irmãs tão inseparáveis que falam em uníssono, amam o mesmo homem, partilham os mesmos sonhos e até cometem simultaneamente o mesmo lapso. Orlando Bloom e Domhnall Gleeson completam o elenco desta produção EUA-Irlanda de 109 minutos, fotografada por Peter Zeitlinger e novamente musicada por Ernst Reijseger, colaborador regular de Herzog desde Wings of Hope. É território perfeito para o realizador: pessoas que o mundo não consegue arrumar numa gaveta, observadas não como aberrações mas como seres cuja diferença revela a estranheza daqueles que se julgam normais. No material do Festival destaca-se precisamente a empatia de Herzog pelas criaturas excêntricas, ligando estas duas irmãs à linhagem de Stroszek e Kaspar Hauser.

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O Donostia chega, por isso, menos como um prémio de despedida do que como confirmação de resistência. Herzog não parece interessado em despedidas. Continua a filmar, escrever, representar, pensar, provocar e caminhar. Aos 84 anos ainda procura imagens que não existiam antes de ele chegar. Talvez seja essa a sua grande obscenidade num cinema cada vez mais domesticado pelo streaming, estudos de mercado, universos cinematográficos e reuniões de executivos: Werner Herzog continua convencido de que, se uma montanha estiver entre ele e um filme, o problema é da montanha.

JVM

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