O grande actor argentino Ricardo Darín está no cartaz, Brad Pitt chega novamente ao Kursaal, Werner Herzog e Naomi Watts recebem o Prémio Donostia, Sorogoyen junta-se à festa e NAZA aterra directamente de Veneza. De 18 a 26 de Setembro, San Sebastián volta a provar que não precisa de ser Cannes para querer mostrar praticamente tudo.
Faltam poucos dias ou seja já na próxima sexta, para San Sebastián voltar a fazer aquilo que sabe fazer particularmente bem: encher uma cidade relativamente pequena com uma quantidade bastante pouco razoável de cinema. A 74.ª edição realiza-se de 18 a 26 de Setembro e será também a despedida de José Luis Rebordinos da direcção antes de Maialen Beloki assumir oficialmente o festival em Janeiro de 2027. Mudança de guarda, portanto, mas sem sinais de mudança para uma velocidade mais baixa.
A grande estrela do cinema ibero-americano Ricardo Darín, Prémio Donostia em 2017, é o rosto do cartaz oficial e estará presente para apresentar Lo dejamos acá, de Hernán Goldfrid. Brad Pitt regressa 17 anos depois de Sacanas Sem Lei, de Quentin Tarantino para acompanhar Heart of the Beast: Heróis Inseparáveis, de David Ayer, já com estreia marcada para 24 de setembro em Portugal. E logo nas primeiras 48 horas o festival entrega dois Prémios Donostia que dispensam grandes apresentações: Werner Herzog, que leva Bucking Fastard directamente da Competição de Veneza, e Naomi Watts, homenageada a 19 de Setembro antes da apresentação de The Housewife, estreia na longa-metragem do canadiano Ben Shirinian.
Uma Concha com peso suficiente

A Selecção Oficial reúne 17 filmes em competição e começa com Geister / Ghost Song, de Fatih Akin. Há regressos de gente que não precisa propriamente de cartão de apresentação: Mike Leigh com Tender Loving Care, Pablo Larraín com Mis muertos tristes, Nicole Garcia com 7:40 ce matin-là / Milo, Hans Petter Moland com Growth of the Soil, Benjamín Naishtat com Glaxo e Yeşim Ustaoğlu com What Remains.
Jesse Eisenberg apresenta The Debut, Fred Cavayé arrisca novo encontro com Victor Hugo em Les Misérables e o cinema espanhol entra na corrida à Concha de Ouro com Roberto Bueso, Mikel Gurrea e Javier Ruiz Caldera. Não é propriamente uma competição montada para deixar espaço livre na agenda.
O encerramento, fora de concurso, será Le Faux Soir, de Michaël R. Roskam, sobre a célebre falsificação do jornal belga Le Soir pela Resistência durante a ocupação nazi. Quando a realidade contemporânea parece diariamente uma notícia inventada, terminar um festival com uma história sobre desinformação talvez nem seja uma escolha assim tão histórica.
Perlak ou o “melhor dos outros festivais”

Perlak continua a ser uma das grandes forças de San Sebastián: pega em Cannes, Veneza, Berlim ou Sundance, escolhe parte do melhor e serve de segunda oportunidade a quem não passou o ano inteiro dentro de aviões e salas de imprensa.
Estão lá Fjord, Palma de Ouro de Cristian Mungiu; Minotaur, de Andrey Zvyagintsev; Fatherland, de Paweł Pawlikowski; La bola negra, dos Javis; Coward, de Lukas Dhont; Soudain, de Ryusuke Hamaguchi; Hope, de Na Hong-jin; The Man I Love, de Ira Sachs; Wild Horse Nine, de Martin McDonagh; e Succederà questa notte, de Nanni Moretti.
A grande entrada de última hora é, porém, NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, que chega directamente da Competição de Veneza. Rodado sobretudo durante a noite nos telhados de Telavive, o documentário investiga os sistemas tecnológicos e militares utilizados para calcular antecipadamente o número esperado de vítimas civis palestinianas nos bombardeamentos israelitas sobre Gaza. Produzido por The Guardian e JW Films, com Jonathan Glazer entre os produtores executivos, é provavelmente um dos filmes politicamente mais incómodos de toda a programação.
Sorogoyen entra, Almodóvar já lá estava

Made in Spain fecha agora a programação com 25 títulos e acrescentou El ser querido, de Rodrigo Sorogoyen, com Javier Bardem e Victoria Luengo, depois da passagem pela Competição de Cannes. Bardem interpreta um realizador célebre e controverso que tenta recuperar a relação com a filha, actriz, oferecendo-lhe um papel no novo filme. O que, tratando-se de Sorogoyen, dificilmente acabará num saudável almoço familiar.
A secção inclui ainda Natal Amargo, de Pedro Almodóvar, além de filmes de Albert Serra, Isabel Coixet, Víctor García León e Julia de Paz. Serra abre Made in Spain com Seize moments de ma vie e 200 vidas, Paco Rabal, de Vanesa Benítez, encerra-a.
Noutras frentes, New Directors mantém a aposta nos primeiros e segundos filmes, Horizontes Latinos reúne novas obras de nomes como Diego Luna, Manuela Martelli, Dominga Sotomayor e Fernando Eimbcke, enquanto Zabaltegi-Tabakalera continua a funcionar como a maravilhosa gaveta onde San Sebastián guarda aquilo que não gosta de gavetas. Lá estarão Lee Chang-dong, Radu Jude, Tsai Ming-Liang, Jane Schoenbrun, Bruno Dumont, Federico Luis e Tizza Covi e Rainer Frimmel.
Portugal não entra pela passadeira vermelha

A presença portuguesa é discreta mas bastante mais sólida do que parece. A Professora de Francês, de Ricardo Alves Jr., é uma co-produção luso-brasileira em Horizontes Latinos; Narciso, de Marcelo Martinessi, também em competição nessa secção, tem co-produção portuguesa da Oublaum Filmes; Pioneras. Solo querían jugar chega a Made in Spain com participação da Bando à Parte.
Mónica Lima apresenta ainda Sentimentos Familiares no WIP Europa. A primeira longa-metragem da realizadora portuguesa, ainda em pós-produção, conta com Beatriz Brás, Margarida Marinho, Bárbara Branco, Romeu Costa e Crista Alfaiate. Portugal talvez não tenha Brad Pitt a chegar de limousine, mas continua a arranjar maneira de aparecer onde os filmes começam a ganhar futuro.
E depois há os pintxos e a boa comida basca
Porque estamos em San Sebastián, até uma secção gastronómica consegue ser levada muito a sério. Culinary Zinema apresenta cinco filmes, entre os quais Noor: Cocinar pasados posibles, Burgundy, MITANI – The Mariage of Sushi e Subijana, más allá de un bigote, acompanhados pelas inevitáveis — e bastante recomendáveis — experiências gastronómicas. Há ainda Velódromo, Zinemira, Nest, Klasikoak, retrospectivas, programas sobre memória democrática, debates, indústria, WIP, encontros profissionais e provavelmente mais filmes do que aqueles que uma pessoa fisicamente saudável consegue ver em nove dias.
San Sebastián não tenta ser Cannes, Veneza ou Berlim. A sua força está precisamente em conseguir ser um pouco das três coisas sem deixar de ser profundamente basco: cinema de autor pela manhã, estrelas ao fim da tarde, indústria pelo meio e pintxos quando finalmente se consegue sair de uma sala.
Rebordinos despede-se deixando o festival cheio até ao tecto. Maialen Beloki recebe a chave em Janeiro. Antes disso, ainda há nove dias para descobrir filmes, discutir outros, perder alguns e jurar que no ano seguinte vamos organizar melhor a agenda. Nunca acontece.
JVM


