© San Sebastián

O segundo dia do Festival pertence a Naomi Watts: Prémio Donostia esta noite no Kursaal e uma interpretação extraordinária em “The Housewife — A Esposa Perfeita”, do canadiano Ben Shirinian (fora da competição), onde o mal vive nos subúrbios, cozinha bolachas e sabe receber visitas.

Confesso que deve haver maneiras mais desagradáveis de descobrir uma criminosa nazi. Pode ser através de arquivos, fotografias de campos de concentração, testemunhos de sobreviventes ou documentos amarelecidos dentro de uma gaveta. Em The Housewife — A Esposa Perfeita, porém, começa-se por uma casa impecável no Queens, bolachas acabadas de fazer, limonada, vestidos cuidadosamente escolhidos e Naomi Watts a sorrir como se tivesse acabado de sair de um anúncio americano dos anos 60. O problema é precisamente esse: às vezes o inferno não chega com botas militares. Abre-nos a porta de casa e pergunta se queremos mais café, bolinhos ou limonada.

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É também por isso que o segundo dia do Festival de San Sebastián tem um nome escrito em letras suficientemente grandes para ocupar o Kursaal inteiro: Naomi Watts. Depois de Werner Herzog ter recebido ontem o primeiro Prémio Donostia desta 74.ª edição, a atriz sobe esta noite ao palco, às 22h15, para receber a sua homenagem das mãos de J. A. Bayona, o realizado de O Impossível. Depois, será novamente exibido The Housewife, primeira longa-metragem do canadiano Ben Shirinian, que já vimos ontem na sessão de imprensa e que, diga-se desde já, é uma das primeiras grandes surpresas do Festival.

Watts e Bayona reencontram-se catorze anos depois de O Impossível, aquele pequeno filme familiar onde uma família decidia passar férias na Tailândia precisamente quando chegou um tsunami. A interpretação valeu-lhe a segunda nomeação ao Óscar, depois de 21 Gramas, de Alejandro González Iñárritu. Mas resumir Naomi Watts a duas nomeações seria mais ou menos como resumir San Sebastián aos pintxos: não está errado, mas fica muita coisa de fora. Foi David Lynch quem a lançou verdadeiramente para outro campeonato com Mulholland Drive; vieram depois King Kong, de Peter Jackson, Promessas Perigosas, de David Cronenberg, Funny Games, de Michael Haneke, Enquanto Somos Jovens, de Noah Baumbach, e Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), novamente com Iñárritu. Cinema de autor, Hollywood, televisão, produções pequenas, monstros gigantes e famílias destruídas. Watts fez praticamente tudo sem nunca parecer que estava a mudar de profissão.

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A perfeita americana que não era americana coisa nenhuma

The Housewife — A Esposa Perfeita passa-se em 1964 e inspira-se na história real de Hermine Braunsteiner Ryan, antiga guarda de campos de concentração nazis que conseguiu instalar-se nos Estados Unidos, casar com um americano, obter a cidadania e fabricar no Queens uma respeitabilíssima existência suburbana. O jornalista Joseph Lelyveld, do The New York Times, chega-lhe à porta seguindo uma pista de Simon Wiesenthal e inicialmente acredita que procura o marido. Péssima pontaria. O passado que interessa está sentado diante dele, oferece-lhe comida e cose-lhe um botão do casaco.

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É nesta perversão da normalidade que Ben Shirinian encontra o melhor do filme. O realizador sabe que o terror é bastante mais eficaz quando não precisa de sangue nas paredes. Basta-lhe uma cozinha limpa. Tye Sheridan interpreta Lelyveld, Luke Evans é Russell Ryan, Michael Imperioli surge como o agente de imigração Anthony DeVito e Lena Olin, num belíssimo regresso como secundária, aparece numa curta mas poderosa participação como sobrevivente chamada a testemunhar contra Hermine.

O filme não é perfeito, há aliás momentos em que o argumento de Alyssa Hill insiste em explicar aquilo que já percebemos perfeitamente, como se temesse que metade da sala estivesse a consultar o Instagram durante a projeção. O último terço aproxima-se por vezes do drama judicial convencional e há sublinhados dramáticos onde uma simples vírgula teria chegado. Mas existe inteligência suficiente na forma como Shirinian filma a casa, os objetos, os vestidos, os rituais domésticos e aquela América de catálogo para que o filme nunca perca completamente o controlo. E sobretudo existe Naomi Watts.

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Uma interpretação construída com sorrisos, botões e veneno

Watts faz aqui uma das suas melhores interpretações dos últimos anos e, sim, pode muito bem ser aquela que volta a colocá-la seriamente dentro da conversa da temporada de prémios. Não porque grite muito, envelheça quarenta anos com maquilhagem ou aprenda violino de propósito para ganhar um Óscar. Precisamente pelo contrário. O seu trabalho está nos detalhes.

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Primeiro, Hermine sorri. Depois limpa. Arruma. Cozinha. Serve. Endireita uma peça de roupa. Observa. O corpo parece permanentemente ocupado a conservar aquela casa porque, afinal, conservar a casa significa conservar a mentira. Watts vai deixando pequenas fissuras aparecerem naquela superfície perfeita até percebermos que não estamos a assistir à transformação de uma mulher simpática num monstro: o monstro esteve sempre ali. Nós é que demorámos a vê-lo. O guarda-roupa de Anette Cseri ajuda a contar essa história, dos tons frios até ao magnífico vestido vermelho usado quando Hermine celebra a cidadania americana. Não comprou apenas um vestido. Comprou a personagem que quer representar. E talvez seja essa uma das melhores ideias de The Housewife: a América prometia então que qualquer pessoa podia tornar-se aquilo que quisesse. Hermine levou a promessa demasiado a sério.

A interpretação de Watts torna-se ainda mais perturbadora quando a personagem deixa finalmente cair o verniz. Aquilo que estava reprimido vem ao de cima e percebe-se que todos os pequenos gestos anteriores eram preparação. Não é exatamente um regresso porque Naomi Watts nunca foi embora. Mas é seguramente daqueles papéis que lembram por que razão continuamos a falar dela mais de vinte anos depois de Mulholland Drive.

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San Sebastián percebeu-o. Zurique também já anunciou que lhe entregará o Golden Eye. Quanto aos Óscares, setembro continua a ser cedo para preencher boletins de voto imaginários. Hollywood adora lançar candidaturas antes de lançar os filmes e enterrar favoritas antes do Natal. Mas Watts tem material suficiente para entrar na conversa e isso, nesta altura, já é bastante.

À volta dela, o Festival continua: 5 minutos más, de Javier Ruiz Caldera, entra na competição; regressa Os Miseráveis, de Fred Cavayé, com Vincent Lindon e Tahar Rahim em quase três horas de Victor Hugo, porque Victor Hugo também nunca foi homem para resolver rapidamente uma questão; e na Perlak aparecem Tangles, Fatherland, de Paweł Pawlikowski, e The Invite — O Convite, de Olivia Wilde. Mas este sábado tem dona.

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Às 22h15, J. A. Bayona entregará o Prémio Donostia a Naomi Watts. Em O Impossível colocou-a no meio de um tsunami. Ben Shirinian prefere uma cozinha suburbana, umas bolachas, uma limonada e um segredo nazi escondido atrás das cortinas. Depois de vermos The Housewife, talvez o tsunami pareça o cenário mais tranquilizador.

JVM

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