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No quinto dia, San Sebastián trocou o ruído pelo essencial. Mike Leigh olha para duas assistentes sociais, um casal envelhecido e um Estado que já não sabe cuidar; Hans Petter Moland sobe às montanhas norueguesas para ver um homem e uma mulher arrancarem uma casa, uma família e um futuro à terra gelada. Um filme ampara pessoas, o outro tenta domesticar o mundo. Ambos acabam no mesmo sítio: sobreviver dá um trabalho dos diabos.

Tender Loving Care, do britânico Mike Leigh, e Growth of the Soil (Markens grøde), do norueguês Hans Petter Moland, não podiam ser mais diferentes no tom ou no cenário, mas perguntam o mesmo: o que fazemos uns pelos outros quando a vida deixa de colaborar? Leigh fecha-se em salas, cozinhas e pequenos silêncios; Moland abre a janela, atira-nos para uma paisagem norueguesa batida pelo vento e quase nos obriga a levar um casaco para dentro da sala de cinema. Um trabalha o afecto ao centímetro, o outro a sobrevivência ao hectare.

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Mike Leigh ainda cuida de nós

Aos 83 anos, Mike Leigh chega a Tender Loving Care com a possibilidade real de este ser o seu último filme, embora a palavra «testamento» lhe fique mal. Leigh nunca foi homem de mausoléus. Prefere uma chávena de chá, uma frase interrompida, um olhar que dura dois segundos a mais. Amy, Kate O’Flynn, depois de uma separação vai viver com Rosie, Alice Bailey Johnson, amiga de infância e também assistente social, enquanto envelhecem Birdie e Geoff, os pais de Amy, interpretados por Marion Bailey e Paul Jesson. É pouco? Só para quem ainda acredita que é preciso um cadáver no primeiro acto para haver cinema.

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Leigh filma aquilo que grande parte do cinema evita porque parece pequeno: pessoas que trabalham, cuidam, envelhecem e nem sempre sabem pedir ajuda. E aí o filme torna-se político sem levantar a voz. As protagonistas tentam remendar vidas num sistema social britânico progressivamente esvaziado, mas o realizador recusa transformar os serviços sociais num relatório ilustrado. Interessa-lhe a matéria humana do cuidado: quem cuida de quem, quem fica sozinho, quem ainda consegue manter o humor quando tudo começa a falhar. O’Flynn e Bailey Johnson trabalham numa intimidade quase invisível; Marion Bailey e Paul Jesson dão ao casal mais velho uma espessura que dispensa sublinhados. Há ternura sem açúcar, humor sem obrigação de aliviar, melancolia sem chantagem emocional.

E há sobretudo Mike Leigh em estado puro: esse extraordinário talento para fazer entrar a política pela porta da cozinha sem que ela venha acompanhada de cartaz, megafone ou música a explicar-nos o que devemos sentir. O filme tem apenas 107 minutos, concorre na Selecção Oficial e talvez seja a despedida de um cineasta que passou mais de meio século a observar as pessoas quando aparentemente nada acontece, precisamente o momento em que costuma acontecer tudo. Se for mesmo o último, existe qualquer coisa de magnificamente teimosa no gesto: Leigh despede-se não falando de si, mas dos outros.

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Moland, Hamsun e o vento no elenco

Em Growth of the Soil, Hans Petter Moland muda radicalmente a escala. Adaptado do romance de 1917 de Knut Hamsun, acompanha Isak, (Herbert Nordrum), um homem sem passado que atravessa a montanha à procura de um pedaço de terra onde começar do zero. Encontra frio, pedra, lama e depois Inger, (Asta Kamma August). Juntos constroem uma casa, uma quinta e uma família. É o velho sonho de fundar um mundo com as próprias mãos, só que aqui ninguém recebeu o folheto turístico. A co-produção entre Noruega, Dinamarca e Alemanha tem 155 minutos, chega a San Sebastián para a sua estreia europeia e foi escolhida pela Noruega para representar o país na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional.

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Moland filma isto com um classicismo deliberadamente fora de moda e talvez ainda bem. O vento quase merece lugar no elenco: ouve-se, sente-se, parece entrar pela sala. A fotografia de Oskar Dahlsbakken resiste à tentação de transformar a Noruega apenas em paisagem, porque aquela paisagem é bela porque é hostil e, acima de tudo, porque não quer saber das personagens. Isak e Inger chegam quase sem história, juntam-se por necessidade, desejo e reconhecimento mútuo e, durante algum tempo, a terra parece bastar-lhes. Depois chegam as fronteiras, os contratos, os impostos, a propriedade, a lei, o capitalismo e aquilo a que chamamos civilização. É aí que Growth of the Soil deixa de ser apenas um épico rural para se transformar numa história sobre o preço de entrar no mundo. A quinta cresce, os filhos nascem, a comunidade aproxima-se e o paraíso artesanal começa a ganhar burocracia, culpa, violência, adultério e consequências. Nordrum e August dão ao casal uma fisicalidade rara: trabalham, suam, calam-se, desejam e acumulam silêncios como quem empilha lenha para o Inverno. Moland não tem pressa — por vezes podia ter um bocadinho mais, porque o filme estende-se bastante —, mas o seu fôlego clássico permite-lhe mostrar o tempo a modificar simultaneamente a paisagem e as pessoas.

No fim deste quinto dia, a coincidência permanece. Leigh filma duas mulheres que tentam impedir que pessoas caiam pelas fissuras de uma sociedade moderna; Moland filma um casal que tenta construir uma sociedade onde antes só havia terra. Um pergunta como continuamos humanos depois de criarmos instituições; o outro como começámos a criá-las. Entre uma sala de estar em Londres e uma montanha no norte da Noruega, a pergunta é afinal a mesma: quem cuida de quê, e durante quanto tempo? San Sebastián respondeu hoje com dois filmes que não confundem grandeza com barulho. Às vezes basta uma chávena de chá. Outras vezes é preciso uma enxada.

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