Já se passou quase um mês desde que o Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF) teve início, mas a nossa cobertura continua, mesmo que com muito atraso. É o que acontece quando outros eventos nos surgem pelo meio, inclusive festivais lisboetas e as nossas estreias locais. Dito isso, há assuntos que têm que ser falados e exclusivos a partilhar com o fiel leitor. Neste caso, uma conversa ocorrida na festa que se seguiu à estreia canadense de “The Debut,” mais recente projeto com realização de Jesse Eisenberg, com Julianne Moore num papel que muitos especulam ir valer-lhe um segundo Óscar. A atriz venceu o prémio há doze anos por “O Meu Nome é Alice.”
Segundo Eisenberg, um só galardão da Academia de Hollywood não é suficiente. Para ele, Moore é a maior atriz da atualidade, quiçá de sempre e seu filme reflete bem isso, construindo-se em jeito de carta de amor à musa. Também funciona como uma espécie de coletânea dos maiores êxitos da atriz, levando Moore a invocar os fantasmas das muitas donas de casa desesperadas a quem já deu vida, de seu trabalho em melodrama e em teatro filmado, de insinuações de musical, de sátira e de grotesco. “The Debut” é um filme feito pelo maior fã de Julianne Moore e deve ser visto e apreciado nesse contexto. Idealmente, com uma audiência de outros fãs ferrenhos.
E, de facto, foi essa a audiência que acolheu o filme em Toronto. Entendam que ovações de pé podem ser habituais nos maiores festivais europeus, mas a coisa é rara no Canadá. Isso não impediu os espectadores de interromper o filme com aplausos ensurdecedores, muitas vezes roubando a chance de Paul Giamatti rematar uma cena com uma “punchline”, tão dedicados estavam a fazer a festa a Moore. Aconteceu quatro ou cinco vezes, coincidindo com monólogos intensos, uma rendição milagrosa da canção principal da sua ficção dentro da ficção e por aí a fora. No papel de uma mulher suburbana, sem nada que lhe dê razão para viver até que o teatro comunitário a revitaliza, Moore é eletrizante.
Tanto ela quanto Giamatti fizeram aquelas honrarias do costume quando, após o filme, fizeram o elogio a Jesse Eisenberg. Mas isso é conversa ensaiada para confrontar os espetadores de festival. Mais tarde, numa festa mais exclusiva, houve maior candor. Foi nesse cenário que o ator tornado realizador se fez ouvir em relação à falta de Óscares da sua diva de eleição. Até se desconversou sobre a infelicidade de 2002, quando ela foi nomeada em duas categorias diferentes e as perdeu a ambas, ou como Moore é uma das únicas duas atrizes a ganhar os prémios de atuação principais de Berlim, Cannes e Veneza. A outra é Juliette Binoche.
Um serão bem passado com Jesse Eisenberg e a divina Julianne Moore.

Quando Moore se juntou à conversa, aquele azar de 2002 ainda lhe trouxe alguma amargura à expressão, mas depressa passaram a falar de temas mais positivos. Nomeadamente, quanto ela ama o argumento do filme e como, em alguns momentos, o seu feedback alterou o modo como inteiras sequências foram filmadas. Por exemplo, uma visita ao cabeleireiro era muito mais paródica, fazendo referência ao “Safe”, de Todd Haynes, com uma cenografia antiquada que não fazia sentido nenhum para a atriz. Também se discutiu a peça musical dentro da narrativa de “The Debut” e quanto Eisenberg se divertiu a escrevê-la.
Segundo o cineasta, aquilo parece uma grande piada, mas é, na verdade, o melhor que ele conseguia compor enquanto estudioso casual do género. Ele não é nenhum Sondheim, diga-se de passagem. E por falar em Sondheim, não é que ele é o autor dos musicais preferidos de Jesse Eisenberg e Julianne Moore? Para o realizador, o melhor de todos é meio obscuro, “Pacific Overtures”, enquanto a atriz prefere “Assassins” sobre os muitos sujeitos que, ao longo da História, atentaram contra a vida de presidentes dos EUA. No meio disto tudo, não pude deixar de partilhar que o meu favorito de Sondheim seria “Follies” e a conversa lá fez outra curva.
Porque é um sonho de Julianne Moore interpretar essa peça no grande ecrã. Infelizmente, há décadas que se fala de um filme de “Follies” sem que ele se concretize. De facto, o realizador Terence Davies, morreu sem nunca ter concretizado a sua ambição de assinar tal adaptação, em parte por falta de fundos. Parece que ninguém em Hollywood quer investir nesse texto sobre as memórias dolorosas de coristas na meia-idade. Lá pela indústria cinematográfica do Reino Unido, há rumores de uma adaptação futura e talvez lá Moore concretize o seu sonho. Ela não quis dizer qual dos papéis preferiria, mas fez uma confissão importante.
Amava cantar “Losing My Mind,” uma das melhores canções do musical, sobre essa showgirl envelhecida que, sentada em frente ao espelho, reflete sobre o matrimónio infeliz e como se sente a enlouquecer na falta de afeto, no desejo por mais, na nostalgia por aquilo que, afinal, se calhar nunca existiu. Dorothy Collins fez do número um clássico, enquanto Liza Minnelli lhe deu nova vida numa versão disco e Imelda Staunton recentemente arrecadou um Prémio Olivier pelo papel. Quiçá, em anos vindouros, associaremos a canção a Julianne Moore. Se “The Debut” lhe ganhar um segundo Óscar, talvez essa façanha venha a valer um terceiro.
Além de Julianne Moore, Toronto esteve cheio de grandes atrizes.

Com tanto elogio feito a Julianne Moore, poder-se-ia pensar que ela era a única atriz a abençoar as audiências do TIFF com uma tour de force. Mas não! Muitas foram as intérpretes que me impressionaram, numa panóplia de registos distintos, de diferentes nacionalidades e de heranças cinematográficas. Como, por aqui, se fala e escreve em português, façamos a justa homenagem ao melhor que se viu de atuações na língua lusitana. Foi no filme “Vicentina Pede Desculpas,” a mais recente obra de Gabriel Martins que, há uns anos, nos maravilhou com seu “Marte Um” e até foi selecionado para representar o Brasil nos Óscares. “Vicentina Pede Desculpas” não recebeu a mesma honra, mas, num mundo justo, certamente estaria na conversa para o galardão de Melhor Atriz.
Digo isto, pois Rejane Faria é monumental no papel titular, entregando-se a um estudo de luto e culpa multifacetado, por vezes tortuoso, por vezes transcendental. Ela é Vicentina, senhora idosa cujo filho conduzia um autocarro que, na primeira cena da fita, vemos cair de uma ponte, matando quase todos os que estavam a bordo. Quando suspeitas de suicídio por parte do condutor surgem na imprensa, a perda de Vicentina ganha outras dimensões e o filme inicia um processo repetitivo de súplicas e lamentações. Numa estrutura de deliberada forma cíclica, Martins faz o retrato de Belo Horizonte através de classes e sexualidades, religiosidades e afins.
Ao mesmo tempo, Faria delineia as diferentes formas que este luto maternal pode tomar, desde noções de culpabilização à responsabilidade que temos pelas ações daqueles que trazemos ao mundo, que criamos, aqueles em quem mais confiamos. Desde a sua fisicalidade exausta até ao grande plano que se manifesta como ícone digno do altar de uma igreja, ela e a câmara concebem um estudo de personagem com a grandiosidade de um poema épico e a minúcia intimista de segredos partilhados num confessionário. A Netflix fará a distribuição da fita na maior parte do mundo. De fato, no Brasil, “Vicentina Pede Desculpas” chegará aos cinemas no dia 5 de novembro e à plataforma de streaming da Netflix duas semanas depois.
Outro destaque desse catálogo de streaming foi “Possible Love” de Lee Chang-dong, inspirado no “Dekalog” de Kieslowski e no décimo dos Dez Mandamentos – “Não cobiçarás a mulher do próximo.” Sem se deixar prender ao cineasta polaco ou a leituras conservadoras da doutrina abraâmica, Lee criou um estudo sobre direitos laborais e o potencial vampírico do cinema documental. Como uma realizadora endinheirada, Cho Yeo-jeong repete muita da mesma energia manienta que já havia explorado em “Parasitas,” mas dá-lhe uma aspereza mais lacerante. Por seu lado, enquanto sujeito documental da classe operária e mulher presa entre desejos recentes e ressentimentos antigos, Jeon Do-yeon é um milagre tragicómico. Na transição do riso para o choro para uma fúria sem limites, ela faz do ecrã uma janela aberta à alma humana em sua máxima complexidade.
Os silêncios ensurdecedores de Seydoux, Okonedo, Radeva…

Nem sempre uma grande prestação se faz com esses excessos de expressividade acima descritos. Por vezes, o génio está na contenção, nos significados implícitos em grandes planos sem diálogo e num sorriso que não chega aos olhos do ator. Léa Seydoux demonstrou esses talentos em dois filmes no festival. Falarei mais sobre a grandeza do seu trabalho em “A Desconhecida” para a cobertura da Festa do Cinema Francês, mas fica a dica de que é provavelmente o melhor trabalho da atriz até hoje. Ela também mostra mestria noutro título representado internacionalmente pela Netflix – “Gentle Monster” da realizadora Marie Kreutzer.
Inspirada nas revelações acerca de um ator com quem havia trabalhado antes, a cineasta compôs a história de uma mulher confrontada com a realidade de um marido acusado de predileções pedófilas. Para dizer a verdade, o filme parece um esboço inacabado, mais terapia para o artista do que um trabalho pronto a apresentar nos maiores festivais do mundo. Contudo, Seydoux é excelente, capturando a complexidade da situação. Se possível, Catherine Deneuve impressiona ainda mais num papel secundário, sendo a mãe meio cínica e brutalmente honesta da protagonista, capaz de cortar a tensão como se fosse manteiga e ela uma faca quente.
Em certa medida, vemos aqui um passar do testemunho de uma deusa do cinema francês de outros tempos para uma nova estrela na plenitude dos seus poderes. Poder-se-ia fazer ligação entre Seydoux e Virginie Efira, também. Ela esteve no TIFF a apresentar “Soudain” de Ryusuke Hamaguchi, o melhor filme do ano e um milagre capaz de fazer brotar a flor da esperança no mais infértil terreno. Em Cannes, ela e Tao Okamoto partilharam o prémio de Melhor Atriz pelo filme e ambas merecem uma salva de palmas apesar de nunca subirem a voz, nunca caírem naquela hiper-emocionalidade que se costuma associar a prestações dignas de palmarés. Não que Efira e Okamoto nos entreguem os melhores desempenhos a fazer a viagem de Cannes a Toronto.
Essas honras recaem sobre outras mulheres. Por um lado, temos Yana Radeva, uma estreante cuja mestria parece contradizer seu estatuto enquanto novata destas andanças. Ela ancora “The Dreamed Adventure”, de Valeska Grisebach, cujos jogos estruturais significam que passamos cerca de três horas em deambulações sem um objetivo claro. Até que, do nada, a expressão amigável de Radeva se fecha em severidade surpresa, e o confronto entre ela e um gangster local traça a tese da fita. De maneira semelhante, Sophie Okonedo é a Sra. Dalloway nigeriana de “Clarissa” e consegue conter uma galáxia de histórias e vivências dolorosas num momento de reconhecimento existencial, numa dança desesperada, no esquiço daquilo que poderá ser alegria desenhada por alguém que já não se recorda desse sentimento.
Hoje, falei de grandes atrizes. Para a próxima crónica (atrasada) do TIFF, irei além de Julianne Moore e suas companheiras em génio interpretativo. Pelo contrário, irei considerar alguns mestres mais velhos que se ficam por trás das câmaras. Será altura de nos despedirmos de Mike Leigh, de dar as boas-vindas de volta a Wayne Wang, e reconhecer a luta sem fim de Barbara Kopple, entre outros.


