2026 é o ano em que a indústria das televisões se apaixonou pela retroiluminação RGB — a ideia de trocar os LED brancos de sempre por LED vermelhos, verdes e azuis controlados individualmente, para cores mais puras e mais brilhantes. O problema é que quase tudo o que traz esta tecnologia é caríssimo. É por isso que a LG 65MRGB88B me interessou: é uma das primeiras LG a democratizar o RGB mini-LED, a trazer esta novidade para a casa dos mil euros em 50 e 65 polegadas. Não é um topo de gama, e já lá vamos a isso, mas é das propostas mais inteligentes deste escalão.
Mini RGB não é Micro RGB
Tenho de começar por aqui, porque é a maior fonte de confusão de 2026. A LG tem duas famílias com nomes quase gémeos mas níveis, e preços, bem diferentes. O topo absoluto é o Micro RGB (a série MRGB96), com controlo mais fino da luz e os processadores mais avançados, a custar facilmente o dobro. Esta 65MRGB88B é Mini RGB (a série MRGB88), a gama intermédia-alta. Dentro da linha Mini RGB da LG, a MRGB88 é a melhor das três — mas continua a ser um degrau abaixo do Micro RGB. Muito do que se lê sobre “controlo ao nível do pixel” é da outra gama, não desta. Fica o aviso, porque é fácil comprar à espera de uma coisa e receber outra.
Ficha técnica
- Ecrã: 65″ 4K UHD (3840 × 2160) · LCD com retroiluminação Mini RGB (Tandem LED)
- Cor: RGB Primary Color Pro · certificação Double 100% Color (DCI-P3 + Adobe RGB), validada pela Intertek · painel 10 bits
- Processador: α8 AI Processor 4K Gen3 (NPU até 5× mais rápido) · Precision Dimming · Dynamic Tone Mapping Pro
- HDR: Dolby Vision (IQ), HDR10, HLG · Filmmaker Mode
- Atualização: 120 Hz nativos · VRR até 144 Hz · Motion Booster até 288 Hz (em resolução otimizada)
- Gaming: 4 portas HDMI 2.1, AMD FreeSync Premium, compatível G-Sync, ALLM, GeForce Now (nuvem 4K)
- Som: 2.0 canais, 20 W, Dolby Atmos, Clear Voice Pro
- Software: webOS 26 · AI Magic Remote · Google Gemini · LG Shield · Wi-Fi/Bluetooth/AirPlay 2
- Consumo: ~61 W em uso
- Preço: cerca de 1000-1200 € (65″) · a versão de 50″ arranca mais abaixo, na casa dos 880 €
A tecnologia: porque é que o Mini RGB muda o jogo
O coração desta televisão é a nova retroiluminação Mini RGB (que a LG apoia na sua tecnologia Tandem LED, uma estrutura por camadas). Em vez de LED brancos filtrados, há díodos vermelhos, verdes e azuis a produzir apenas a luz necessária para cada parte da imagem. Na prática, isto traduz-se em três coisas: um leque de cores mais amplo e puro, mais brilho, e menos blooming (aquele halo de luz à volta de objetos claros sobre fundo escuro) do que num mini-LED tradicional.
E há números a sustentá-lo: a certificação Double 100% Color, validada pela Intertek, confirma cobertura total dos espaços DCI-P3 e Adobe RGB. Para cinema em HDR e para quem edita foto ou vídeo, isto significa cores fiéis ao original — não as cores sobressaturadas de montra que impressionam na loja mas mentem na sala de casa. Com o Filmmaker Mode ligado, vês o conteúdo como o realizador o aprovou. Este é, para mim, o verdadeiro trunfo da MRGB88: precisão de cor que normalmente se paga muito mais caro.
Imagem: brilhante onde interessa, com um ou dois senões honestos
A grande força de um mini-LED é o brilho, e aqui ela é muito boa. É uma televisão que vive bem nas salas cheias de luz e de janelões, precisamente os ambientes onde um OLED sofre, reflete e perde impacto. Se o teu espaço tem muita luz natural, esta tecnologia bate com folga um OLED barato.
Agora a honestidade que uma boa review exige, e que vai além do folheto. Primeiro: por mais que o RGB reduza o blooming, esta é a gama de entrada do RGB da LG, e os testes independentes notam que os modelos RGB mini-LED mais acessíveis ainda deixam ver algum halo à volta de detalhes claros e de legendas sobre fundo preto, e que os brilhos pequenos não são tão intensos como nos modelos de topo, o que pode fazer algumas cenas parecerem ligeiramente mais “chatas”. No entanto, a qualidade de imagem para este preço abafa essa imperfeição. Segundo, e inevitável: por melhor que seja o atenuamento local, um mini-LED não entrega os pretos perfeitos e o contraste infinito de um OLED. É física e é preço. Para a maioria dos conteúdos e numa sala normal, nada disto estraga a experiência — mas um cinéfilo obcecado com o preto absoluto vai notar. A questão é que terá de pagar muito mais, e aqui estamos a olhar para uma TV que, com 65 polegadas custa no máximo: 1500€.
Processador e IA: útil, sem o exagero do costume
O cérebro é o α8 AI Processor de terceira geração, com uma NPU que a LG diz ser cinco vezes mais rápida. Sejamos realistas: a IA nas televisões é terreno fértil para marketing. O que ela faz mesmo bem é ajustar contraste, nitidez e cor em tempo real e, sobretudo, fazer upscaling a um nível muito alto para este preço, que é pegar em conteúdo de 480p ou 720p e torná-lo apresentável num ecrã de 65 polegadas, em vez de um festival de pixéis em que vemos os quadrados na imagem. Não faz milagres (não transforma lixo em ouro), mas, como motor de upscaling e de otimização cena a cena, está entre os melhores deste preço. Junta-se o Precision Dimming e o Dynamic Tone Mapping Pro, que ajudam a espremer o melhor do HDR e o resultado é de aplaudir, principalmente quando estamos a ver algo do tempo das VHS.
Som: cumpre o dia a dia, não substitui uma barra
O conjunto de 2.0 canais e 20 W com Dolby Atmos e Clear Voice Pro faz o trabalho para o uso normal — diálogos nítidos, volume que chega para uma sala. Mas aqui repito o que digo de qualquer televisão fina: o som integrado é sempre o parente pobre, e nenhuma TV deste preço resolve isso de verdade. Se o objetivo é uma experiência de cinema a sério, mais cedo ou mais tarde vais querer uma barra de som. Para o quotidiano, porém, não vais sentir falta. Só realmente quem quiser uma grande experiência é que valerá a pena adquirir um sistema de som.
Gaming: aqui é dos melhores do escalão
Este é um capítulo fácil de recomendar. Tem 120 Hz nativos que sobem a 144 Hz em modo de jogo (e um Motion Booster que chega aos 288 Hz em resolução reduzida), VRR, AMD FreeSync Premium, compatibilidade com G-Sync e ALLM, com tempos de resposta na ordem dos 0,1 ms. O detalhe que marca a diferença: traz quatro portas HDMI 2.1, quando muitas rivais já cortaram para duas ou três — ou seja, podes ter PS5, Xbox e barra de som sem fazer malabarismo. E há ainda GeForce Now integrado, para jogar na nuvem em 4K sem consola nem PC. Para um jogador de PS5, é uma máquina espetacular pelo dinheiro. Aqui, neste aspeto, acho que nenhuma outra TV a consegue vencer.
Software e privacidade
O webOS 26 é fluido, completo e sem engasgos, com o Magic Remote a funcionar como apontador e o Google Gemini integrado para comandos por voz, perfis por utilizador e recomendações. A LG acrescenta o LG Shield, uma camada de segurança já premiada — um ponto a favor. Dois reparos de bom senso: como qualquer smart TV moderna, esta recolhe dados, por isso vale a pena perder cinco minutos nas definições de privacidade logo na primeira ligação; e o webOS, tal como as plataformas rivais, tende a ter no ecrã inicial algumas recomendações e promoções, algo a que te habituas, mas que convém saber.
Preço e concorrência
Na casa dos 1000-1200 € para a versão de 65″ (a de 50″ arranca mais abaixo, à volta dos 880 €), a MRGB88B entra numa zona ferozmente disputada. Dentro da própria LG, fica no topo da linha Mini RGB mas abaixo do Micro RGB (MRGB96), que custa quase o dobro. Fora de portas, compete com OLED de entrada de gama — que lhe ganham nos pretos mas costumam perder no brilho, no som e no número de HDMI. A decisão, no fim, é sobre a tua sala, principalmente se tiver muita luz ou se tiveres uma Playstation 5. Aí, dificilmente arranjas melhor para este preço.
Veredito: para quem é
A LG 65MRGB88B é uma das compras mais equilibradas que podes fazer por pouco mais de mil euros. Dá-te o brilho e a versatilidade de um bom mini-LED, junta-lhe a cor mais pura e fiel da nova retroiluminação RGB, e embrulha tudo num pacote de gaming de primeira e num software maduro. É uma verdadeira “faz-tudo” — vês televisão, desporto, filmes, séries e jogas, tudo com qualidade, mesmo com conteúdo de origem mais fraca.
Recomendo-a sem hesitar a quem tem uma sala com luz, vê conteúdo variado ao longo do dia, joga em consola moderna e valoriza cores realistas acima de efeitos saturados. Pensa duas vezes se és um cinéfilo de sala escura à procura do preto perfeito — aí, um OLED de entrada neste preço pode servir-te melhor (abdicando de som, HDMI e 144 Hz) — ou se queres mesmo o topo do RGB, caso em que terás de subir para o Micro RGB e pagar por isso. Para todos os outros, que querem o máximo de “televisão” pelo dinheiro e uma imagem fiel à realidade, esta é das escolhas mais acertadas do seu escalão e claramente uma das melhores TVs deste ano em termos de qualidade/preço



