Sérgio Graciano em “Memórias do Cárcere” mete Camilo Castelo Branco atrás das grades e encontra ali um dos seus filmes mais livres. Albano Jerónimo e Maria João Bastos trocam o retrato de época pela carne, pelo desejo e pelo medo, enquanto a prisão se transforma numa extraordinária fábrica de histórias. O problema é que, durante 167 minutos, nem todas mereciam ficar tanto tempo na cela.
Camilo Castelo Branco passou mais de um ano preso por adultério e, convenhamos, soube aproveitar bastante melhor o tempo do que muita gente em liberdade. Observou os vizinhos de cela, ouviu criminosos, falsários, assassinos e desgraçados de toda a espécie, apaixonou-se ainda mais por Ana Plácido, escreveu e transformou aquela temporada involuntária na Cadeia da Relação do Porto em literatura: “Memórias do Cárcere”. Se tivesse vivido hoje, talvez lhe tivessem retirado o telemóvel à entrada. Felizmente, deixaram-lhe papel. É deste Camilo que Sérgio Graciano parte em “Memórias do Cárcere”, não do monumento nacional da nossa literatura, não do escritor obrigatório nos programas escolares, não do homem transformado em nome de rua, mas de alguém temporariamente privado daquilo que mais apreciava: o controlo da própria vida. E é precisamente quando perde esse controlo que o filme começa a interessar.
Camilo desce finalmente do pedestal
Albano Jerónimo constrói um Camilo que pensa demasiado, ama demasiado, desconfia demasiado e, sobretudo, fala como alguém que já percebeu que a inteligência não serve para evitar a desgraça. Serve, quando muito, para a comentar melhor. É orgulhoso, ciumento, divertido, desagradável quando lhe apetece e suficientemente vaidoso para continuar a observar o mundo mesmo quando deveria estar preocupado apenas consigo.
Esta humanidade é uma das maiores virtudes do filme. Sérgio Graciano não procura desculpá-lo nem canonizá-lo. Deixa-o ser contraditório. Afinal, os grandes escritores também podem ser criaturas pequenas, e talvez seja precisamente essa mistura que os torna interessantes.
Ao seu lado, Maria João Bastos recusa que Ana Plácido seja reduzida ao papel ingrato de «mulher por quem Camilo foi preso». A sua Ana possui vontade própria, consciência do escândalo e uma lucidez que frequentemente falta ao homem apaixonado que a rodeia. Também escreve, também observa e, sobretudo, paga socialmente um preço diferente. O adultério podia ser praticado por dois, mas a vergonha nunca foi distribuída com igual generosidade.
O filme ganha bastante quando percebe isso. Estamos perante uma história de amor, certamente, mas igualmente perante uma história sobre a moral portuguesa, essa velha instituição nacional especializada em condenar publicamente aquilo que pratica discretamente.
Uma prisão cheia de portas

A verdadeira surpresa de “Memórias do Cárcere” está, porém, no modo como a cadeia deixa de ser apenas o lugar onde decorre a acção. Torna-se mecanismo narrativo. Cada cela parece guardar outra história; cada preso traz consigo um romance possível; cada corredor conduz a uma nova personagem.
Zé do Telhado é apenas a figura mais famosa de uma população onde cabem falsários, infanticidas, parricidas, miseráveis e oportunistas. Até D. Pedro V atravessa aquele universo. O rei pode visitar a prisão e regressar ao palácio. Os restantes ficam para contar a história.
Camilo faz exactamente isso. Escuta. Observa. Apropria-se. Reescreve. O cárcere converte-se numa redacção involuntária e o escritor numa espécie de jornalista do submundo oitocentista, só que com frases bastante melhores.
A fotografia de João Ribeiro compreende muito bem este movimento: vidros, espelhos, reflexos, portas e sombras recusam o postal histórico. O Porto do século XIX não aparece embalsamado para turista ver. Existe antes uma sensação de clausura física contrariada permanentemente pela imaginação. A personagem está presa; o olhar não.
Paulo Branco abriu a cela

É difícil não sentir aqui a influência do encontro de Sérgio Graciano com Paulo Branco. Depois de “Os Papéis do Inglês”, o realizador parece ter ganho uma liberdade que não é apenas financeira ou produtiva, mas cinematográfica. Há mais tempo dentro dos planos, maior atenção à composição e uma confiança pouco comum na capacidade dos actores sustentarem uma cena sem que a banda sonora lhes diga — e nos diga — o que devemos sentir. Foi uma boa decisão dispensar a habitual música dramática pronta a entrar sempre que alguém sofre. Camilo já sofre suficientemente bem sozinho.
O argumento de Carlos Saboga, falecido entretanto, partindo da obra de Castelo Branco, preserva também o prazer da palavra. E é inevitável pensar por momentos em Manoel de Oliveira ou em Raúl Ruiz, especialmente em “Mistérios de Lisboa”. Não porque Graciano os copie, mas porque Camilo transporta consigo essa espécie de vírus cinematográfico: histórias dentro de histórias, personagens que contam outras personagens, tragédia misturada com ironia e melodrama permanentemente ameaçado pelo ridículo.
167 minutos também podem ser uma pena
Mas não convém transformar entusiasmo em absolvição: “Memórias do Cárcere” dura 167 minutos e sente-se um bocadinho. Há sequências onde o tempo trabalha a favor das personagens e outras onde parece simplesmente ter esquecido de sair de cena.
Nem todos os episódios secundários possuem a mesma força, algumas digressões quebram a tensão e há momentos em que o filme confunde deliberadamente duração com densidade. Uma coisa é permitir que um plano respire; outra é deixá-lo instalar-se em casa. Ainda assim, seria injusto reduzir essa duração a defeito. O filme precisa de espaço para construir aquela população carcerária e sobretudo para mostrar como Camilo transforma lentamente os homens que encontra em matéria literária. Cortar demasiado seria talvez libertá-lo cedo demais.
JVM/ 7/10
Memórias do Cárcere
Conclusão
- Preso por amor, libertado pela escrita resume “Memórias do Cárcere” que podia ter sido apenas mais uma respeitável adaptação literária portuguesa, destinada às escolas, comemorações e sessões onde alguém começa invariavelmente por dizer «é muito importante preservar a nossa memória». Felizmente, não é. Sérgio Graciano faz um filme sobre Camilo Castelo Branco, mas também sobre o acto quase indecente de transformar a vida dos outros em literatura. Sobre um homem fechado numa cela que continua a roubar histórias ao mundo. Sobre Ana Plácido, que percebe melhor do que ninguém que a liberdade masculina e feminina nunca tiveram exactamente o mesmo preço. Camilo entrou na Cadeia da Relação acusado de adultério. A justiça acabou por absolvê-lo. A literatura fez pior: condenou-o à posteridade. E dessa prisão, até hoje, ainda ninguém conseguiu libertá-lo.
Overall
7/10User Review
( votes)Pros
O melhor: Albano Jerónimo e Maria João Bastos, a fotografia de João Ribeiro e a maneira como a prisão se transforma numa inesgotável máquina de histórias.
Cons
O pior: 167 minutos também constituem uma forma de reclusão e nem todas as personagens secundárias justificam uma pena tão prolongada.


