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A 24.ª edição do Doclisboa continua a decorrer na capital portuguesa com um programa de quase 200 filmes. Hoje, deixamos a crítica a mais um filme da secção “Da Terra à Lua”: “Amílcar” (2026, Miguel Eek).

Construída a partir de cartas escritas por Amílcar Cabral, a longa-metragem traz-nos um olhar bastante mais pessoal desta grande figura de Cabo Verde e Guiné, para lá da sua importância política.

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De referir que o documentário “Amílcar” já tem estreia comercial assegurada em Portugal através da Risi Film em janeiro de 2027.

Amílcar Cabral (quase) na primeira pessoa

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Após já ter assistido a alguns filmes desta edição do Doclisboa, posso concluir – ainda que tal não possa ser uma verdade absoluta em várias dezenas de filmes em exibição – que, este ano, o festival tem a voz como protagonista. Assim, depois de ter analisado “A Voz de Todos – Jornal do Fundão” (2026, Manuel Mozos) e “The Land That Wouldn’t Die” (2025, Andreas Goldstein), também “Amílcar” têm na voz uma importância bastante grande. É a voz que nos conduz pela narrativa do filme e com ela que sentimos todas as imagens e preocupações.

A saber, segundo o enquadramento inicial do filme, Amílcar Cabral terá escrito cerca de 50 cartas a cada uma das suas duas esposas. E é precisamente a partir destas cartas que o realizador espanhol Miguel Eek constrói o seu documentário. Para além disso, são também lidos/interpretados alguns textos de teor mais político e utilizadas, claro, várias documentações de arquivo, desde registos da PIDE, a filmagens de propaganda e de denúncia, entre outros.

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O resultado é um filme que pretende, a certa medida, dar-nos o olhar pessoal e íntimo do líder do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) complementado através de imagens representativas, embora nem sempre totalmente relacionadas com o discurso.

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Entre arquivos de propaganda, de denúncia e a poesia visual

Amílcar
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Amílcar Cabral foi um homem perigoso… E, tal como qualquer homem perigoso para o regime do Estado Novo, a sua vida esteve em risco várias vezes. Por fim, acabou por falecer com apenas 48 anos na Guiné-Conacri, assassinado a sangue frio.

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Amílcar Cabral foi um dos mais importantes nomes na luta pela independência das ex-colónias portuguesas. Infelizmente, acabou por falecer em 1973 sem ver a independência total provocada pelo 25 de Abril de 1974. Ainda assim, nunca desistiu da luta, dentro e fora do seu país (Guiné-Bissau). Alguns anos antes do 25 de Abril, várias das colónias portuguesas assumiram a sua independência. No entanto, o estado português nunca reconheceu tal facto. Amílcar Cabral foi um dos grandes nomes a defender a justiça destes povos, inclusive na Organização das Nações Unidas que surge igualmente de forma preponderante nos momentos finais deste filme.

Face à importância internacional do líder do PAIGC, Miguel Eek conseguiu a proeza de não só mostrar-nos imagens de arquivo propagandísticas – partes do arquivo da Cinemateca Portuguesa e RTP – , como também incluiu no seu filme imagens do INA (arquivo francês), da SVT (televisão sueca) ou das próprias Nações Unidas, entre outros. O resultado é que este é um filme que não só demonstra a construção do regime do Estado Novo como também o denuncia de forma bastante clara. A denúncia torna-se ainda mais forte sobretudo com a inclusão de imagens de vários mutilados de guerra, incluindo crianças. Esta é, por isso, uma obra mais ‘limpa’ que não se limita a um único olhar subjetivo mas também nos mostra imagens que seriam claramente censuradas pelo regime português.

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Imagens contemporâneas que são a subjetividade de Amílcar Cabral

Por fim, no meio destes arquivos, surgem também algumas imagens mais contextuais, sem um significado direto mas que pontuam o filme de forma suave. Estas imagens, apesar de simularem a característica de arquivo, foram, na verdade, filmadas recentemente pelo realizador. Refere Miguel Eek em declarações à imprensa: “Precisava de filmar para expressar a visão poética de Cabral, as partes que faltavam nos arquivos. Para mim, a chave era como transmitir a intimidade e a subjetividade da personagem.” Ou seja, face à inexistência de arquivos para complementar certos escritos de Amílcar Cabral, o realizador tomou a decisão criativa de filmar e dar, assim, a subjetividade do seu discurso. Algo que, diga-se de passagem, resulta bem e dá-nos um olhar mais próximo de Cabo Verde e de Guiné.

Um documentário de relevância histórica que deixa um pouco de lado a política

Amílcar
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É inegável a importância que o documentário “Amílcar” tem para nos dar uma melhor compreensão desta grande figura de Cabo Verde e Guiné. No entanto, também se sente alguma falta do contexto político desta grande figura. É verdade que a escolha de Miguel Eek é bastante interessante e faz-nos entrar num ponto de vista algo mais interior e poético de Amílcar Cabral. Contudo, sentimos alguma falta do seu lado público, sob a preponderância do privado Ou seja, por exemplo, dos seus discursos ou dos seus pensamentos políticos. Nesse aspeto, este lado mais público de Amílcar Cabral acaba por surgir apenas mais perto do final do filme.

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Ainda assim, o documentário tem uma construção visual bastante interessante que nos introduz de forma criativa a Cabo Verde e Guiné. Além disso, dá-nos o lado mais pessoal deste homem, nomeadamente o seu laço familiar, ao falar das suas relações com as suas esposas e dos nascimentos das suas duas filhas. Sentimo-nos, por isso, bastante próximos desta pessoa.

Aquilo que também ajuda a que o documentário não perca o foco é o enquadramento das sequências em termos temporais. A saber, além do documentário seguir a vida de Amílcar Cabral de forma cronológica, sabemos igualmente onde estamos e quando estamos.

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Os momentos-chave de Amílcar e o que falha

Alguns momentos importantes do filme e que o engrandecem são sobretudo as referências à Casa dos Estudantes do Império, à presença de Amílcar Cabral na ONU – intercalada com as pornográficas mas poderosas imagens de amputados de guerra – ou à independência clamada mas não confirmada de Catió ou Conacri, ambas na Guiné.

A mistura dos arquivos a preto e branco com os arquivos a cores acaba por também funcionar de uma forma bastante curiosa no filme. Esta mistura torna-o num ensaio visual mais poderoso. Sobretudo pelo facto de, maioritariamente, as imagens a preto e branco serem imagens do próprio contexto da Guerra Colonial e as imagens a cores serem, em geral, imagens mais ‘contextuais’, se assim se pode dizer.

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Por fim, uma nota relativa às entradas dos processos da PIDE… Apesar de serem registos extremamente importantes e históricos e a sua apresentação em fundo negro dar uma maior presença aos mesmos, os registos acabam por não resultar graficamente no filme, face à quantidade de informação gráfica que os torna em meras manchas textuais. Nesse aspeto, poderia ter sido muito mais interessante mostrar apenas partes destes registos. Ou, então, eventualmente através de outro narrador ouvirmos a leitura de parte destes registos.

Amílcar

Conclusão

  • “Amílcar” é um documentário que funciona igualmente como um ensaio visual e poético sobre a vida de Amílcar Cabral.
  • A partir de escritos do próprio, são lidos/interpretados os textos e sentimo-nos mais próximos desta grande figura histórica de Cabo Verde e Guiné.
  • Um documentário essencial para perceber um pouco mais sobre Amílcar Cabral e sobre o colonialismo português na época do Estado Novo que falha apenas na apresentação visual dos registos da PIDE e que poderia mostrar um pouco mais do lado político de Cabral.
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7/10
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