Já passou por muitas jurisdições e nomes a condizer, tendo começado no Estoril antes de se expandir a Lisboa e depois trocar a primeira casa por Sintra. Agora só decorre na capital portuguesa. O LEFFEST (Lisboa Film Festival) celebra a sua vigésima edição, embora seja apenas a 16ª a trazer o melhor cinema do mundo a esta cidade. Regressado de uma muito honrosa retrospectiva na Mostra de Cinema de São Paulo, o produtor de cinema e diretor do LEFFEST, Paulo Branco, teve muito a dizer sobre esta edição marcante. Ou, pelo menos, será marcante, quando efetivamente acontecer, entre os dias 6 e 15 de novembro.
Como sempre, Branco tem muito orgulho da qualidade dos convidados que consegue trazer a Lisboa, para grande deleite dos cinéfilos locais. Este ano, David Cronenberg, um convidado habitual do LEFFEST, será o Presidente do Júri que escolherá os palmarés da secção competitiva. A esse pai do “body horror” moderno e vetusto mestre do cinema, junta-se uma série de outros nomes já bem conhecidos das andanças deste festival. São eles o realizador Charles Burnett, a jornalista Andrea Camprincoli, o violinista Gidon Kremer, a dramaturga e encenadora Angélica Liddell, e a realizadora Milagros Mumenthaler que, este ano, tanto nos impressionou com “As Correntes.”
Mas convém dizer que, ao longo destes seus anos de constante desenvolvimento, o LEFFEST inaugurou outra competição, paralela à sua principal, mas dedicada a autores menos conhecidos, muitos deles estreantes. Barbara Sukowa, grande atriz alemã que já ganhou os prémios principais de atuação em Berlim e Cannes, será a Presidente do Júri aqui. Os restantes membros são o crítico, programador e diretor do BAFICI, Javier Porta Fouz, o diretor de fotografia Yoshio Kitagawa, cujo trabalho em “O Mal Não Está Aqui” merece canonização, e a atriz portuguesa, Ana Vilaça. Juntos, serão o júri da Competição Descobertas e do Prémio Revelação.
Enquanto Cronenberg e seus jurados estiverem a discutir os méritos de artistas como Steven Soderbergh, Radu Jude e Christophe Honoré, Sukowa andará à procura da Revelação do festival. Escolherá Abinash Bikram Shah, que ganhou a Camera d’Or para Melhor Primeira Longa-Metragem em Cannes com o seu “Elephants in the Fog,” ou o grande ator Diego Luna, experimentando o ofício de realizador no drama “Ceniza em la boca”? Verdade seja dita, a secção Descobertas é tão rica como qualquer outra do festival, apesar de alguns títulos serem mais obscuros do que outros. Por exemplo, se houvesse justiça no mundo, a Tailândia estaria entre os finalistas dos futuros Óscares com “9 Temples to Heaven,” com que Sompot Chidagsirnpongse compete no LEFFEST.
Escolheu-se um quarteto de filmes de abertura bem forte e sonante.

Dito isso, antes de qualquer fita passar em competição, há que celebrar a abertura da festa. Este ano, ocorrerá em quatro espaços diferentes, com quatro filmes a fazer as honras. A principal cerimónia acontece no Cinema São Jorge, com o “Paper Tiger”, de James Gray, passado na Nova Iorque dos anos 80, como muita da filmografia deste cineasta, que considera o passado da sua cidade e do seu cinema nacional com muito amor, nostalgia até, mas também com uma boa dose de antissentimentalismo. Mesmo nas antípodas do solipsismo autobiográfico de “Armageddon Time,” ele mantém uma sobriedade impressionante.
Como sempre, Gray estreou a sua obra em Cannes, na competição pela Palma de Ouro. E, como sempre, perdeu essa honra máxima do festival. Foi “Fjord”, de Cristian Mungiu, que teve direito ao prémio este ano, marcando a segunda vitória do realizador romeno. Adaptando um caso real de xenofobia sofrido por uma família imigrante na Noruega, ele conta, pela primeira vez, com estrelas de cinema no elenco, como Sebastian Stan e Renate Reinsve, ambos indicados aos Oscars em anos recentes. Confesso que não fiquei muito impressionado com este drama, mas muitos discordam e amam a sua suposta neutralidade moral. Esse é outro filme de abertura.
De Cannes, saltamos para Veneza, onde John Malkovich ganhou a Taça Volpi de Melhor Ator por “Cavalo Selvagem Nove”, de Martin McDonagh. Um convidado habitual do LEFFEST, a sua presença não surpreende ninguém, mas não deixa de ser um deleite nos ecrãs lisboetas. A sua prestação é, de facto, notável e bem merecedora da aclamação que tem recebido e ainda irá receber nos meses até aos Óscares. Infelizmente, Malkovich não foi confirmado como convidado nesta edição do LEFFEST. Contudo, a lista de convidados ainda pode mudar. António M. Costa vai fazer a apresentação da fita que dá início às festividades na Culturgest.
Por fim, temos outro título que passou na competição às margens do Lido. É ele o nosso grande vencedor do Leão de Prata e o primeiro filme que Lee Chang-dong assina desde “Em Chamas,” há oito longos anos. “Amor Possível” trata-se de uma coprodução com a Netflix que vê o coreano em modo de reinterpretação, dando a sua perspetiva singular sobre o décimo mandamento das religiões abraâmicas. Sim, trata-se de outra obra no projeto de reinvenção do “Dekalog.” Lee fugiu à herança do original e torceu a narrativa numa tragicomédia sobre direitos laborais e o vampirismo do cinema documental que vale a pena ver. Será o filme de abertura no Cinema Nimas.
O LEFFEST chega a novos espaços e novas audiências.

Terão reparado que eu não especifiquei em qual espaço “Fjord” seria projetado. Acontece que esta é uma das grandes novidades do vigésimo LEFFEST, com o festival a expandir-se para a zona oriental de Lisboa, onde nunca antes tinha marcado presença. Durante todos os dias desta festa, haverá uma sala reservada para seleções do LEFFEST no Cinema NOS do centro comercial Vasco da Gama, bem junto à estação do Oriente. A competição principal será exibida lá na íntegra, por exemplo. Muitos dos filmes não têm distribuição assegurada em Portugal e dificilmente passariam numa sala tão comercial como esta.
Isto é um reflexo de uma tentativa de alargar o festival a outras audiências, mas também do apoio reforçado da NOS que, agora, se torna o principal patrocinador do LEFFEST. De facto, levam treze dos seus filmes ao festival. Quem sabe? Podem ainda comprar os direitos de distribuição a mais alguns, consoante a sua receção no festival, a resposta das audiências e, é claro, seu percurso na corrida para os Óscares. Pode parecer indelicado dizer, mas os prémios influenciam muito estas coisas, e muita da programação do festival destaca-se pela forma como os peritos a avaliam nas suas previsões para a temporada dos prémios.
Tanto assim é que, para o filme de encerramento, Paulo Branco e companhia optaram pelo grande favorito a ganhar o Óscar de Melhor Atriz. Será “The Debut,” com Julianne Moore no papel principal, dando tudo o que tem numa comédia com traços de surrealismo teatral e um grande amor pelos absurdismos da tradição musical, assim como as manias de atores na sua procura por autenticidade, por realidade em cena. Como é costume, a sessão de encerramento terá lugar no penúltimo dia do festival, com a entrega de prémios e outros gestos cerimoniais. A exibição de filmes, em si, só termina no dia 15 de novembro.
Esse está longe de ser o único candidato de peso em exibição no LEFFEST. Se a vitória de John Malkovich em Veneza lhe deu um passo à frente na corrida ao Óscar de Melhor Ator, não lhe garantiu a vitória. “Elsinore”, com Andrew Scott no papel de Ian Charleson, ator famoso pela sua participação em “Momentos de Glória.” Aqui, ele interpreta-o no fim da vida, quando definhava com as complicações do HIV-SIDA e resistia aos conselhos dos médicos para poder cumprir o sonho de ser Hamlet nos palcos do West End. O filme integra a secção Fora de Competição deste vigésimo LEFFEST, juntamente com outras obras tão extraordinárias como “Resurrection” de Bi Gan, “Soudain” de Ryusuke Hamaguchi e “Tender Loving Care” de Mike Leigh.
Retrospetivas e ciclos temáticos são sempre o orgulho do festival.

Convém dizer que essa secção Fora de Competição se justapõe a algumas das outras preciosidades do programa do festival, nomeadamente os ciclos temáticos e as retrospetivas de artistas de renome. Temos o caso de Lee Chang-dong, que terá a sua obra integral em exibição durante o festival, dando um belo enquadramento à antestreia de “Possible Love” no grande ecrã antes de, possivelmente, acabar acessível só pelos serviços de streaming da Netflix. Ou Tiago Guedes, cuja nova obra, “Aqui”, será exibida juntamente com grande parte do seu repertório, incluindo alguns projetos mais voltados ao foro televisivo.
Como está cá para presidir a um júri, Barbara Sukowa também terá direito a uma homenagem, ainda que pequena. Serão só três obras, mas são escolhas marcantes. Teremos a sua melhor prestação de sempre, no “Lola” de Fassbinder, o retrato de “Hannah Arendt” sob a direção de von Trotha e, por fim, a intersecção dos dois presidentes dos júris neste LEFFEST de 2026 – “M. Butterfly” com David Cronenberg na cadeira de realizador. O cinema imoral estará em voga nestes dias do festival, com um ciclo todo dedicado a essas questões, assim como outra retrospetiva dedicada ao enfant terrible do movimento Dogme 95 e realizador já muito selecionado desta festa, Lars von Trier.
Mas falemos desse ciclo intitulado “(i)moralidades,” com 26 filmes que vão desde clássicos antiquíssimos da transição do mudo para o sonoro até o documentário mais falado do momento, “You Can See Everything” de Nathan Fielder e Lance Oppenheim. Vai-se ver Rohmer e Buñuel e Kubrick e muito mais, até o famoso “Kapò” que levou Jacques Rivette a postular sobre a moralidade de um tracking shot. Ainda poderá haver polémica com o “Musk” de Alex Gibney, e certamente teremos discussões acesas com Catherine Breillat em Lisboa para apresentar projeções de “Anatomia do Inferno” e “No Verão Passado.”
Serão ainda exibidos alguns dos trabalhos de restauro mais discutidos deste ano, incluindo a restituição de “Os Diabos” de Ken Russell à sua forma original, sem os cortes censórios com que foi mutilado aquando da sua estreia comercial em 1971. Essa loucura faz parte de um ciclo com curadoria de Denis Ruzaev e Ines Branco López, chamado “A Morte do Diabo,” onde se escolhem filmes contra as resoluções maniqueístas que tanta arte faz, corrompendo-se binários e contrariando-se as mentiras dos bons costumes. Denis, Ferrara, Herzog, Martel e Ôshima são alguns dos autores representados neste provocante programa.
Visita o site do LEFFEST para veres a programação completa. Os bilhetes serão colocados à venda já esta segunda-feira, dia 26 de outubro.



