"A Lenda de Miragaia" | © Cinemateca Portuguesa

Neste Dia Mundial do Património Audiovisual, celebrado a 27 de outubro, a Cinemateca Portuguesa tem um presente muito especial para oferecer ao seu público mais fiel. Em colaboração e celebração dos 30 anos da ANIM – Arquivo Nacional das Imagens em Movimento – será exibida uma série de curtas, seis exemplos de animação lusitana que vão desde os primórdios do mudo até trabalhos feitos no virar do século, em 1999. O filme mais antigo em exibição é, de facto, um desses exemplos de cinema sem diálogo nem som, pelo que será apresentado com acompanhamento musical de Filipe Raposo, ao piano. É também o filme com a História mais curiosa deste sexteto.

“A Lenda de Miragaia” nasceu da colaboração entre Raul Faria da Fonseca e António Cunhal. O primeiro foi um técnico com algum trabalho documental no cartório, tendo ainda trabalhado como argumentista em filmes como “Três Dias Sem Deus”, que levaram Bárbara Virgínia a Cannes como a primeira mulher a alguma vez concorrer à Palma de Ouro. Em 1950, durante as filmagens daquela que seria a sua primeira longa-metragem, Epopeia da Selva, Faria da Fonseca morreu. O acidente de aviação sobre a paisagem angolana pôs fim a uma carreira e a uma vida que, porventura, poderiam ter vindo a redefinir o que pensamos do cinema português durante o Estado Novo. Quem sabe o que faria num pós-revolução que nunca viu.

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António Cunhal era irmão de Álvaro Cunhal, figura importantíssima na história do comunismo em Portugal, e focou-se principalmente na pintura como seu ofício. “A Lenda de Miragaia” representa uma rara incursão no mundo do cinema e focou-se na qualidade plástica da obra. Produzida pela Ulyssea Filme, esta preciosidade animada segue os mesmos traços do cinema de silhueta com que Lotte Reiniger ganhou tanta fama durante os tempos da República de Weimar, sendo feita com recortes de papel filmados numa câmara escura. É um jogo de sombras de um enorme requinte, quiçá não tão sofisticado quanto o cinema de Reiniger, mas não tão distante do seu esplendor como se poderia supor.

Uma animação Portuguesa de inspiração Oriental e Alemã?

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© Cinemateca Portuguesa

Esta é uma das animações mais antigas do cinema português e, durante quase um século, julgava-se perdido. Em 1931, terá sido exibido muito poucas vezes, somente por três dias, provavelmente como parte do programa atrelado a alguma longa-metragem. O Cinema Paris, em Lisboa, foi sua casa na altura e jamais de lá saiu, nunca tendo “A Lenda de Miragaia” sido exibido noutro fórum público, muito menos fora do nosso país. Quiçá haverá alguma censura imposta pelo meio, ou alguma repressão política. Afinal, através dos véus e camadas de Orientalismo típico do Império Português, nota-se uma certa semelhança no perfil do vilão da peça e um certo António de Oliveira Salazar.

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Mas, afinal, de que trata esta “Lenda de Miragaia”? Será um conto de amores trocados e apaixonadas raptadas pelo pérfido vilão, de cavalgadas militaristas em salvamento da donzela, e até de algum traço erótico nos devaneios do herói com outra senhora dos seus desejos. É uma estória simples, resolvida em vinte minutos, que vale principalmente pela qualidade gráfica com que é apresentada, especialmente no que se refere às figuras articuladas, aos cenários em sombra e a algumas experimentações óticas. Os cavaleiros rasgam linhas diagonais pelo ecrã, o erotismo de uma intimidade palaciana induz a transformação do enquadramento numa série de molduras distintas, e até há um prólogo alegórico com proporções estilizadas a sumarizar a narrativa seguinte.

Teria sido uma enorme tragédia perder este marco na História do cinema português, mesmo que as audiências modernas possam ficar um pouco ofendidas pelo exotismo retrógrado dos seus desenhos. Enfim, a tragédia foi uma realidade durante 95 anos, até que, do nada, apareceu um negativo da fita à venda na Feira da Ladra. Terá sido Duarte Veloso, um cinéfilo e amigo da Cinemateca, a reconhecer a possibilidade contida em duas latas de película, simplesmente catalogadas como “Miragaia”, com poucas informações na parte interna da tampa. E não é que aquilo que Veloso comprou não era sequer uma cópia? Pelo contrário, nas suas mãos, ele tinha um negativo de nitrato.

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A descoberta do filme e seu restauro são autênticos milagres.

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© Cinemateca Portuguesa

Quiçá alguns cinéfilos teriam guardado tais tesouros para si ou vendido o achado por muito mais do que haviam pago por ele. Mas Duarte Veloso levou o negativo à Cinemateca em maio deste ano, possibilitando o trabalho da ANIM sobre o filme neste período em que o magnífico PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) chega ao fim, após a restauração e digitalização de mais de mil obras, abrangendo mais de um século da História do nosso cinema nacional. Por agora, “A Lenda de Miragaia” ainda não será digitalizada, existindo ainda só a cópia em película feita com base no negativo doado à Cinemateca Portuguesa.

Falta um plano cuja ausência vinha assinalada com o negativo, mas os apontamentos e fontes da época, bem como o recurso ao “Romanceiro” de Almeida Garrett, onde o conto teve origem, ajudaram na assemblage da curta. O processo de restauro fotoquímico resultou em imagens verdadeiramente deslumbrantes, dignas de serem vistas no grande ecrã e apreciadas pela sua maravilha técnica e esplendor plástico. Fala-se muito na comparação com Reininger, mas as tentativas de explorar o dinamismo de cenas de ação em silhueta quase recorda os jogos mais insanos que Richard Williams tentou no seu perpetuamente inacabado “Cavaleiro das Arábias,” estreado em forma imperfeita e contra os desejos do cineasta em 1993.

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Por outras palavras, apesar de antiquíssimo e com sinais da sua vetusta idade, há uma espetacularidade em “A Lenda de Miragaia” que chega a insinuar o futuro deste cinema desenhado e, neste caso, recortado à mão. Num contexto atual em que as inteligências artificiais generativas ameaçam destruir a santidade e o valor deste tipo de cinema artesanal, a maravilha da imaginação humana e a perfeita imperfeição do nosso engenho, a obra ganha redobrada importância. Esta chance de ver o filme e seus cinco companheiros na sessão especial da Cinemateca é imperdível. Dito isso, a digitalização futura tornará “A Lenda de Miragaia” acessível ao público em geral. Nunca mais será este um filme perdido!


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