© Andrea Pirrello

“Primavera: As Quatro Estações” (2025) marca a estreia no cinema do aclamado encenador de ópera italiano Damiano Michieletto. Com distribuição pela Pris Audiovisuais, a produção ítalo-francesa estreou nas salas de cinema portuguesas a 8 de outubro.

Apresentado mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em setembro de 2025, o filme transporta o espectador para a Veneza do início do século XVIII, em concreto para a “Ospedale della Pietà”, na qual mulheres órfãs compunham uma orquestra.

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O título engana-nos ao início, mas os primeiros minutos do filme despem-nos de quaisquer suposições pré-concebidas. À primeira vista, é um filme baseado na história do compositor veneziano Antonio Vivaldi (Michele Riondino) – autor de “As Quatro Estações” e cujas composições influenciaram de forma significativa a música barroca – no período em que ensinou em “Ospedale della Pietà”.

Embora aclamada como um dos centros musicais mais prestigiados na Europa, a instituição funcionava também como um rígido espaço de confinamento e exploração de jovens órfãs. Torna-se óbvio que o verdadeiro interesse de Michieletto é a história daquele local e daquelas mulheres que permaneceram à margem da História. Recordar-nos, ainda, como nasce um bela obra-de-arte, ao questionar quem permaneceu silenciada para que esta pudesse ser ouvida.

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Se Vivaldi é um personagem secundário, quem é a protagonista?

Primavera: As Quatro Estações
© Kimberley Ross

Michieletto escolheu adaptar o romance “Stabat Mater”, de Tiziano Scarpa, e centra-se na história de Cecilia, interpretada por Tecla Insolia (que participou em “The Art of Joy”, em 2025), inspirada na figura histórica de Anna Maria de la Pietà, a quem Vivaldi dedicou 28 concertos. Cecilia é a voz e o rosto de uma geração de mulheres cujo talento extraordinário nunca era celebrado, mas sim escondido e mantido atrás de grades e máscaras, para o proveito de uma sociedade patriarcal.

Assim, o filme não retrata a vida de Vivaldi de forma exaustiva, mas explora o poder transformador dos vínculos que nascem entre aqueles que se reconhecem através de qualquer arte.

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A ilusão da arte e o aprisionamento feminino

Primavera: As Quatro Estações
© Kimberley Ross

A realidade que circula nos muros de “Pietà” é muito mais sombria do que aparenta. Apesar de lhes oferecer uma formação artística, “Pietà” é uma instituição de controlo: as mulheres aprendem a tocar para a nobreza e burguesia europeias, escondidas atrás de máscaras. Por sua vez, o dinheiro vinha daqueles dispostos a pagar em troca destas raparigas serem as suas futuras esposas.

Permanecem úteis e alcançam um falso sentimento de reconhecimento até ao dia do seu destino se tornar inevitável e o casamento encerrar as suas carreiras artísticas. Caterina (Rebecca Antonaci) é um dos exemplos retratados no filme, cuja voz é silenciada, pois a sociedade não acredita que haja espaço para a arte na vida de uma mulher casada.  Cecilia, por sua vez, já está prometida a um soldado que combate na guerra, Sanfermo (Stefano Accorsi).

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Com a chegada de um novo professor de violino, Vivaldi, temos a esperança de que a sua situação mude. O músico que conhecemos no filme já demonstra uma genialidade, mas também uma inquietação, como se ainda procurasse uma linguagem capaz de comunicar aquilo que sente, diante da realidade da instituição e do sentimento que Cecilia provoca em si. Transforma-a, em certo sentido, na sua musa, enquanto desperta nela a coragem para se libertar das amarras que até então a aprisionavam.

Contudo, Michieletto não romantiza esta relação e, embora a música os aproxima, não elimina a distância que os separa dentro da hierarquia da sociedade. A ilusão de que a arte possa ser uma promessa de emancipação é desmascarada e torna-se claro que se a Vivaldi cabe transformar os paradigmas musicais do seu tempo, Cecilia só tem uma opção para proteger a sua liberdade.

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Michieletto transporta-nos para uma Veneza claustrofóbica e revela o verdadeiro significado de Primavera

A fotografia do filme espelha a opressão vivida no interior da instituição. Os ambientes são escuros, pontuados por velas ou luz filtrada por janelas, contrastando com vislumbres ocasionais de Veneza, cujos canais delimitam um mundo do qual aquelas mulheres pouco ou nada conhecem.

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Nos créditos finais, ouvimos parte da primeira secção de “As Quatro Estações”, que tem o nome de “Primavera” e que Vivaldi compôs nessa época. “Primavera” parece um título estranho, mas talvez o seu propósito tenha sido dar início a um novo ciclo: a fuga de Cecilia, um final em aberto para uma mulher que lutou pela sua liberdade, para seguir a sua grande paixão, contra o confinamento de uma instituição e sociedade opressoras.

Primavera: As Quatro Estações

Conclusão

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  • “Primavera: As Quatro Estações” recusa-se a ser apenas um filme biográfico sobre o génio de Antonio Vivaldi, optando por um caminho corajoso e relevante. Ao retirar o compositor do centro do palco e ao contar a história de Cecilia e das mulheres da “Ospedale della Pietà”, Damiano Michieletto assina uma obra reflexiva sobre as consequências do patriarcado no século XVIII. Relembra-nos que entre grandes obras de arte podem existir muitas vozes igualmente grandes, mas silenciadas. A verdadeira liberdade pode muito bem tratar-se, ainda, da mais bela ilusão.
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8/10
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