Edoardo Leo, Edoardo Brandi, Jasmine Trinca, Sara Ciocca e Stefano Accorsi em "La dea fortuna" (2019) © R&C Produzioni

13ª Festa do Cinema Italiano | La Dea Fortuna, em análise

Ferzan Özpetek está de regresso com uma história sobre um casal em crise protagonizado por Stefano Accorsi, Edoardo Leo e Jasmine Trinca.

Uma fábula? Um romance? Um mito? “La Dea Fortuna” (“A Deusa da Fortuna”, na tradução literal em português) apresenta-se, provavelmente, como um dos títulos mais enigmáticos do cinema italiano dos últimos anos. Não se trata do nome de um livro, nem sequer de um mito, mas um aparente ritual que faz a protagonista Annamaria (Jasmine Trinca) a fim de manter bem perto de si as pessoas que mais ama.

Segundo a própria: “La Dea Fortuna é um segredo, um truque de magia. Como poderás ter contigo alguém de quem gostes muito? Deverás manter o teu olhar fixo, capturar a sua imagem e fechar bem os olhos. A imagem alcançará o teu coração e a partir desse momento essa pessoa estará contigo para sempre”. Não é assim que a obra começa, mas é essa a melhor forma para compreendê-la.

Festa do Cinema Italiano
Da esquerda para a direita: Stefano Accorsi, Edoardo Brandi, Jasmine Trinca, Sara Ciocca e Edoardo Leo em “La dea fortuna” (2019) © R&C Produzioni

Este drama, estreia inédita em Portugal através da 13ª Festa do Cinema Italiano, é uma análise delicada sobre as relações humanas, sobre os laços e encruzilhadas vividas por parceiros de longa data e ainda sobre a relação dos pais com os filhos. “La Dea Fortuna” é um filme sobre a redefinição da fortuna ou sorte que cada um alcança após uma série de mágoas, e um dos melhores filmes de um autor que a cada novo projeto estimula a espontaneidade das suas personagens.

Depois de filmar Istambul com “Istanbul Kirmizisi” (2017) e em Nápoles com “Napoli Velata” (2016), Ferzan Özpetek propõe um regresso às origens, muito embora não se tratem de um regresso à sua terra natal – a Turquia -, o autor que chegou à Itália em 1976, e onde se naturalizou, propõe reavivar a memória do espectador para as suas tramas decorrentes na capital italiana. Volta assim à cidade de “Le fate ignoranti” (2001), “Saturno contro” (2007) e do mais recente “Uma Família Moderna” (2010), aproveitando-se inclusive de alguns dos seus habituais atores – Stefano Accorsi, Serra Yilmaz, Filippo Nigro – para mostrar uma casa, os sentimentos mais conturbados e as diferenças entre seres humanos.

Na verdade, “La Dea Fortuna” está assente em jogos de dualidades permanentes entre passado e presente, entre os valores tradicionais e conservadores e os valores pós-modernos livres e, de certo modo, normalizados. O filme começa de maneira misteriosa com a imagem lenta da morte, com várias caveiras gravadas em pinturas de uma parede e segue, em forma plano-sequência, pelo interior de uma mansão obscura repleta de imagens cristãs e medievais. Irrompem depois os gritos de uma criança que pede auxílio, pois está fechada por detrás de uma porta. Não sabemos quem é essa criança, nem o que lhe aconteceu a criança, pois a câmara sofre um lapso espaço-temporal e transporta-nos a um local completamente distinto.

Passamos para uma agitada festa de um casamento gay, cujos convidados comportam-se de uma maneira espontânea e movimentada, sem serem alvo de qualquer tipo de repressão ou temor, que estavam evidentes na situação anterior. Rir, beber e dizer tudo aquilo que vem à cabeça faz parte deste feliz cenário. Após a apresentação de um conjunto de indivíduos eufóricos e bem dispostos conhecemos Alessandro (Edoardo Leo) e Arturo (Stefano Accorsi), um casal que vive junto há mais de quinze anos e que não escondem de ninguém o momento de crise que atravessam. Alessandro, mais jovem é um canalizador que vive uma vida aparentemente tranquila interessado em oferecer ao seu companheiro de longa data Arturo, um tradutor aspirante fracassado a escritor, uma vida tranquila e confortável. Nem sempre, os dois protagonistas masculinos parecem satisfeitos, mas percebemos que há uma química psicológica difícil de romper de um dia para o outro.

La Dea Fortuna
Edoardo Leo e Stefano Accorsi em “La Dea Fortuna” (2019) © R&C Produzioni

De maneira inesperada, chega à festa Annamaria, ex-namorada de Alessandro, com os seus dois filhos Sandro e Martina. Infelizmente, Annamaria veio à capital por motivos de saúde, para averiguar a sua situação clínica que poderá ser de risco e que conduz à sua hospitalização para a realização de uma série de testes. Com toda a confiança, pretende deixar temporariamente as crianças aos cuidados do casal homossexual, sem imaginar os imprevistos decorrentes dessa sua escolha. Sem revelar demasiado, a decisão de Annamaria terá um impacto singelo sobre aqueles seres humanos que precisam urgentemente de se reencontrar.

Neste sentido, “La Dea Fortuna” poderá ser visto como uma revisitação às experiências da paternidade vistas e revistas tantas vezes no cinema italiano como em “Un giorno perfetto” (2008), do próprio Ferzan Ozpetek ou até no cinema americano em “Kramer Contra Kramer“, embora adaptado à diversidade dos quadros familiares dos dias de hoje. Porém, ao contrário de algumas obras cinematográficas recentes onde a sexualidade vem imediatamente acompanhada pela descoberta mais íntima da personalidade, o cinema italiano de Ferzan Özpetek, muito próximo aos exageros do cinema almodovariano em Espanha, aborda essas questões com toda a normalidade, por serem sinónimo da heterogeneidade social que existe.

Não se fala do ser ou não gay, mas das formas necessárias para encontrar a felicidade, e qual o seu significado. Os sujeitos são sensíveis aos condicionamentos do mundo exterior, necessários para que aprendam a viver em equilíbrio. Desta forma, a questão prende-se ao facto das personagens de Özpetek, intensas e hiperbólicas, serem desafiadas a aceitarem as novas realidades com que se deparam. Mais do que uma interrogação às orientações sexuais, a questão de “La Dea Fortuna” está em termo da comunicação com a família, e às maneiras como os relacionamentos (não apenas homossexuais) procuram sobreviver, sem medos, aos obstáculos e eventuais infortúnios da vida, ou mesmo quando egoísmo é trocado pela solidariedade para com os demais. Daí que estas duas pessoas, Alessandro e Arturo não se interroguem sobre quem são, mas quem é o outro, a pessoa que amam…

Stefano Accorsi, Edoardo Leo, Filippo Nigro, Jasmine Trinca, Serra Yilmaz, Sara Ciocca, Osasere Imafidon, Pia Lanciotti em “La dea fortuna” (2019) © R&C Produzioni

La Dea Fortuna” examina ainda outros confrontos, alguns dos quais também comuns às obras de Özpetek, como por exemplo, o clássico duelo entre classes sociais, fortemente relacionados a uma certa tradição do cinema italiano. Por um lado temos uma mansão de amplas dimensões, cujo interior é adornado por móveis antiquados e o exterior bastante solitário e espaçoso, e por outro lado temos os ambientes mais quotidiano de um apartamento numa grande metrópole, com um certo toque de erotismo e inserido num bairro onde se vivencia um certo magnetismo e cumplicidade entre os seus vizinhos. O magnetismo que a vida cosmopolita desperta em comparação com os locais italianos burgueses mais isolados, é uma parte essencial desta obra. Para Özpetek, somos são mais felizes no meio urbano, que num local aparentemente num paradisíaco e sumptuoso.

A acompanhar esta dualidade, o cineasta tenta inserir críticas pejorativas ao relacionamento entre os dois protagonistas, mas tal acaba por cair um pouco por terra. No seu cinema, como a Antonia de “Le fate ignoranti”, há sempre uma personagem que faz vários juízos de valor à homossexualidade, e “La Dea Fortuna” não é diferente. Só que a certo ponto, entendemos que para a obra em questão não valeria tanto a pena explorá-lo, sobretudo quando o faz perto do final. Outras disparidades, como a memória e a falta dela irrompem de forma bastante concisa e até são deixados em aberto, por muito que percebamos que seja uma proximidade à história disposta em “A Janela em Frente” (Özpetek, 2003). A inserção de uma personagem que sofre de Alzheimer em “La Dea Fortuna” quer mostrar um homem oposto aos protagonistas, que embora suscetível a esquecimentos momentâneos mantém uma grande cumplicidade com a pessoa que ama. Isto de entender o outro vai mesmo além da memória…

La Dea Fortuna
Jasmine Trinca, Sara Ciocca e Edoardo Brandi em “La Dea Fortuna” (2019) © R&C Produzioni

Em termos de forma, “La Dea Fortuna” é um drama familiar com toques de comédia de costumes. A burguesia já não está apenas em luta contra o proletariado e os seus servos, mas com os estranhos a esses espaços, com a cultura queer marginalizada. Apesar dos protagonistas masculinos oferecerem performances ajustadas à longa-metragem, é Jasmine Trinca quem mais brilha em “La Dea Fortuna”, em todos os momentos que surge no ecrã. Apesar da condição clínica, nunca a vemos demasiado frágil, sendo exatamente graças ao seu caráter perseverante que se tornará capaz de decidir o que é melhor para os seus filhos. O futuro das novas gerações ainda depende da possibilidade das suas mães e dos seus pais quebrarem com as convenções do passado e, a partir daí, consigam seguir em frente.

Por último, para além de uma direção de fotografia esteticamente cativante de Gian Filippo Corticelli, destaque para a emocionante banda-sonora de Pasquale Catalano (que já colaborou várias vezes com Özpetek), onde se destaca a canção “Luna Diamante”, de Mina, cantora homenageada através de uma personagem com o mesmo nome. Além disso, não poderemos esquecer a música “Che Vita Meravigliosa”, de Antonio Diodato, o artista vencedor do último Festival de Sanremo e representante italiano no Festival Eurovisão da Canção 2020. Através da intempérie de sensações que transmite a canção, destaque essencialmente para as suas palavras sobre a vida, essa vida maravilhosa, dolorosa, sedutora e milagrosa que nos empurra para o meio do mar, onde as revelações e os recomeços ainda são possíveis.

Por último, não esqueçamos que “La Dea Fortuna” não se refere apenas ao ritual, mas é uma referência direta ao Santuario della Fortuna Primigenia de Palestrina, onde trabalha a protagonista Annamaria. Ou seja, a religião e a espiritualidade continuam a produzir efeitos sobre a vida, mas em vez de serem normas para seguir à letra, os sistemas de crenças são inclusive o início de novas possibilidades, centrada no livre-arbítrio. Enfim, sermos felizes é algo que depende única e exclusivamente de nós próprios.

La Dea Fortuna | Sessões em sala

A Festa do Cinema Italiano começa a 4 de novembro, em Lisboa, seguindo depois por outras cidades portuguesas. Com produção da Warner Bros. Entertainment Italia, R&C Produzioni e Faros Film, “La Dea Fortuna” contará com as seguintes exibições:

  • Cascais | 07 Nov | 18h30 | O Cinema da Villa
  • Lisboa | 07 Nov | 21h30 | Cinema UCI El Corte Inglés
  • Porto | 07 Nov | 21h30 | Cinema Trindade
  • Coimbra | 11 Nov | 21h30 | TAGV
  • Lisboa | 11 Nov | 18h45 | Cinema UCI El Corte Inglés

Caso queiras comprar os bilhetes para uma destas sessões, sabe o que fazer neste nosso artigo. O filme também faz parte da programação exclusiva e inédita da Festa do Cinema Italiano na plataforma de streaming Filmin Portugal. Assiste ao trailer deste filme abaixo:

Trailer de “La Dea Fortuna”

La Dea Fortuna não tem data de estreia nas salas comerciais, por isso não percas a oportunidade de assistir ao regresso de Ferzan Özpetek ao grande ecrã na 13ª Festa do Cinema Italiano. 

La Dea Fortuna
La Dea Fortuna em análise

Movie title: La Dea Fortuna

Movie description: Alessandro e Arturo estão juntos há mais de 15 anos e, apesar do sentimento que ainda têm um pelo outro, o seu relacionamento está em crise. Quando a melhor amiga de Alessandro, de repente pede que o casal cuide dos seus dois filhos por alguns dias, alterações acontecem na sua rotina diária e o amor leva-os a uma louca e inesperada mudança nas suas vidas. Ferzan Özpetek volta aos terraços de Roma para nos contar uma história que junta drama e comédia.

Country: Itália

Duration: 118'

Director(s): Ferzan Özpetek

Actor(s): Stefano Accorsi, Jasmine Trinca, Edoardo Leo, Sara Ciocca, Serra Yilmaz, Edoardo Brandi, Loredana Cannata, Barbara Alberti, Cristina Bugatty e Filippo Nigro

Genre: Drama

  • Virgílio Jesus - 80
80

Summary

“La Dea Fortuna” marca o regresso de Ferzan Özpetek a Roma e a uma história sensível com um grande elenco, onde são apresentadas as relações humanas de uma maneira pura e autêntica, de maneira a aproximar os espectadores das diferentes realidades amorosas.

Pros

Precisamos de mais autores como Özpetek. Este Almodóvar nacionalizado italiano é capaz de mostrar, de maneira genuína, as diferentes formas de amor e os novos contextos familiares.

Cons

Com menos sorte, algumas sequências parecem forçadas, essencialmente quando Özpetek deseja criar confrontos, e abordar as diferenças de classes e a clássica oposição entre os ideias conservadores e pós-modernos.

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