A partir de 9 de Novembro, a RTP1 e a RTP Play apostam em “Leonor, Marquesa de Alorna” uma das mais ambiciosas produções históricas da televisão portuguesa. Sara Matos dá corpo a uma aristocrata que fez da literatura uma arma de resistência e da liberdade uma obsessão.
Entre o requinte de “Maria Antonieta”, de Sofia Coppola, e as intrigas sensuais de “Bridgerton”, a produtora Ukbar Filmes recupera em “Leonor, Marquesa de Alorna” uma mulher que afrontou reis, convenções e preconceitos. Com poesia, sexo, política e uma boa dose de escândalo, esta marquesa promete dar trabalho aos moralistas e aquecer as noites de outono. O século XVIII português era um lugar particularmente desagradável para uma mulher inteligente. Podia herdar um título, frequentar palácios, dominar vários idiomas e conhecer metade da aristocracia europeia. Pensar pela própria cabeça já em si constituía uma actividade de risco. Leonor de Almeida Portugal descobriu-o aos oito anos, quando foi encerrada num convento por um crime que não cometera. Passou dezoito anos privada da liberdade e saiu de lá determinada a viver tudo o que lhe tinham roubado. A sua biografia parece escrita por um argumentista particularmente inspirado, embora a realidade tenha sido bastante mais cruel e severa com esta mulher.
É esta mulher que a RTP1 recupera em “Leonor, Marquesa de Alorna”, série de seis episódios, realizada por Tiago Alvarez Marques e produzida pela Ukbar Filmes, com estreia a 9 de Novembro, às 22 horas. Trata-se de uma produção que ambiciona ultrapassar os limites habituais da ficção histórica nacional, tanto na escala visual como na liberdade com que aborda as relações amorosas, o poder, a sexualidade e a condição feminina.
A aristocracia também tinha hormonas
Esqueçam as reconstituições históricas onde os actores parecem condenados a passear pelos corredores dos palácios, recitando discursos solenes entre duas chávenas de chá. Esta série procura outro caminho. Aproxima-se de “Maria Antonieta” (2006), de Sofia Coppola, pela sensualidade visual, pelo guarda-roupa e pela maneira como observa a intimidade feminina por detrás do cerimonial aristocrático. E pisca descaradamente o olho a “Bridgerton”, da Netflix, com as suas conspirações sentimentais, encontros secretos, ciúmes, paixões contrariadas e corpos que nem sempre respeitam as conveniências sociais.
Aparentemente, os espartilhos apertavam bastante, mas não impediam ninguém de se entusiasmar. As cenas de maior intimidade, os equívocos amorosos e alguns momentos de humor prometem contrariar a ideia absurda de que os nossos antepassados passavam a existência inteira a rezar, governar e escrever cartas. Também se divertiam, traíam, mentiam e faziam sexo. Alguns, pelos vistos, com bastante aplicação e sem pudor.
Felizmente, Leonor tinha interesses que ultrapassavam o quarto de dormir. A série acompanha a sua emancipação intelectual, os conflitos familiares, o casamento com o conde austríaco Carlos Augusto de Oeynhausen e a descoberta de uma Europa onde o Iluminismo convivia alegremente com monarquias absolutas, privilégios hereditários e uma extraordinária hipocrisia moral.
A verdadeira Leonor nasceu em Lisboa, em 1750, e era neta dos marqueses de Távora, executados na sequência do atentado contra D. José I. Enquanto o pai permanecia encarcerado, a jovem cresceu no convento de Chelas, onde encontrou na leitura e na poesia uma forma de resistência. Conhecida literariamente como Alcipe, tornou-se uma das mulheres mais cultas do seu tempo. Casou, teve oito filhos, viveu em Viena e França, conheceu figuras importantes da intelectualidade europeia, sofreu um segundo exílio e regressou a Portugal para se afirmar como uma personalidade central da vida literária lisboeta. Morreu em 1839, aos 88 anos.
Chamarmos-lhe feminista, na acepção contemporânea, exige alguma prudência histórica. Mas foi seguramente uma mulher que contestou os limites impostos ao seu sexo, defendeu a educação feminina e fez da independência intelectual uma forma de intervenção. A sua alegada ligação à Sociedade da Rosa, envolta em interrogações históricas, acrescenta uma dimensão conspirativa que qualquer argumentista agradeceria.
Sara Matos troca o presente por dois séculos de preconceitos

Sara Matos assume o protagonismo de uma personagem exigente, dividida entre a razão e o desejo, o amor e a obediência, a tradição familiar e a vontade de decidir o próprio destino. Ao seu lado, Cristóvão Campos interpreta Carlos Augusto de Oeynhausen, Joana Solnado surge como Madame T, Soraia Chaves representa a mãe de Leonor, Miguel Borges dá vida ao pai e Sandra Faleiro assume o papel de D. Maria I. Paula Lobo Antunes, Cucha Carvalheiro, João Arrais, Helena Caldeira, Inês Herédia, Albano Jerónimo e Luís Esparteiro reforçam um elenco com experiência suficiente para impedir que esta aristocracia se transforme numa exposição de figuras de cera.
A escolha dos actores, habituados a registos tão diferentes no cinema e na televisão, constitui uma das apostas mais interessantes. Soraia Chaves, que ganhou notoriedade cinematográfica com “O Crime do Padre Amaro” e “Call Girl”, conhece bem personagens onde a sensualidade convive com o conflito psicológico. Albano Jerónimo demonstrou em “A Herdade” uma impressionante capacidade para representar o poder e as suas contradições. E Sara Matos tem aqui uma oportunidade para se afastar dos códigos mais previsíveis da ficção televisiva.
A produção assinala outra ambição: a de construir um espectáculo histórico capaz de circular internacionalmente. A Ukbar Filmes, fundada por Pandora da Cunha Telles e Pablo Iraola, tem acumulado experiência em filmes como “Florbela”, “Amadeo” e “A Mãe É Que Sabe”, e em séries como “A Espia”, “Crónica dos Bons Malandros”, “Operação Maré Negra” e “Rabo de Peixe”, o fenómeno português da Netflix. Conhece, portanto, as exigências da ficção de época e os mecanismos narrativos capazes de conquistar públicos mais vastos.
A fotografia de Hugo Azevedo, os figurinos, as localizações históricas e a reconstituição dos ambientes aristocráticos contribuem para essa dimensão. As filmagens passaram pela Quinta da Alorna e por outros espaços do Ribatejo. Os efeitos digitais permitem ampliar cenários e recuperar paisagens desaparecidas, numa época em que a inteligência artificial oferece também novas possibilidades à produção audiovisual, embora a sua utilização concreta nesta série careça de confirmação técnica. A tecnologia ajuda, mas nenhum algoritmo substitui um argumento inteligente ou uma personagem convincente. Nem convém que comece a escrever poesia pela marquesa.
Setecentas páginas, seis episódios e uma mulher impossível de domesticar

A origem literária da série é o best-seller “Marquesa de Alorna — Do Cativeiro de Chelas à Corte de Viena”, publicado em 2011 por Maria João Lopo de Carvalho. Com cerca de setecentas páginas, o romance nasceu de uma investigação extensa, apoiada em documentação histórica e correspondência familiar, permitindo conhecer a mulher para lá do retrato oficial e dos títulos nobiliárquicos.
A adaptação concentra-se em aproximadamente 25 anos da sua vida, privilegiando os acontecimentos com maior potencial dramático. Uma escolha compreensível, mas arriscada. Reduzir uma existência extraordinária a seis episódios implica sacrificar episódios históricos, simplificar conflitos e inventar ligações narrativas. O perigo está em transformar uma intelectual complexa numa protagonista romântica demasiado conveniente, distribuindo paixões, intrigas e escândalos segundo a receita das plataformas.
Mas também seria um erro fazer desta série uma biografia televisiva respeitável e mortalmente enfadonha. O desafio consiste precisamente em conciliar entretenimento popular com inteligência histórica, sensualidade com pensamento, espectáculo com conteúdo. A História portuguesa dispõe de personagens suficientemente extraordinárias para dispensar a habitual reverência cerimoniosa. Leonor é uma delas.
A série apresenta-se, assim, como uma oportunidade para a RTP demonstrar que a ficção nacional pode disputar espectadores com as grandes produções internacionais sem abdicar da identidade cultural. E para recordar que as mulheres portuguesas tiveram uma participação intelectual e política muito mais importante do que aquela que os manuais escolares costumam conceder-lhes.
JVM 8/10
Leonor, Marquesa de Alorna
Conclusão
“Leonor, Marquesa de Alorna” tem os ingredientes para se tornar uma das séries portuguesas mais interessantes da temporada: uma protagonista fascinante, um elenco sólido, investimento técnico, conflitos políticos, paixões inconvenientes e uma história real que dispensa grandes exageros. A ambição visual é evidente e a vontade de aproximar a ficção histórica dos espectadores contemporâneos merece aplauso. Falta confirmar se a realização e o argumento conseguem escapar à tentação de reproduzir as fórmulas internacionais, preservando a singularidade de Leonor. Porque a verdadeira marquesa merece mais do que uma versão portuguesa de “Bridgerton”, mesmo que tenha melhores diálogos e os lençóis igualmente amarrotados.
Overall
8/10User Review
( votes)Pros
O melhor: A escolha de Sara Matos, a qualidade do elenco, a dimensão da produção, a reconstituição histórica e, sobretudo, a recuperação de uma mulher extraordinária que continua demasiado desconhecida do grande público.
Cons
O pior: O risco de sacrificar a complexidade política e intelectual de Leonor ao melodrama romântico e ao erotismo decorativo. Seis episódios podem ser poucos para tanta vida. E seria imperdoável transformar uma das mulheres mais livres do seu tempo numa aristocrata de catálogo, com figurinos magníficos e ideias reduzidas ao mínimo indispensável.



