"The Education of Jane Cumming" | © Queer Porto
google news

Na Escócia do início do século XIX, duas mulheres solteiras que haviam dedicado as vidas à pedagogia, Jane Pirie e Marianne Woods, fundaram uma escola para raparigas. Abriram as portas no outono de 1809, mas um escândalo depressa lhes destruiu os planos, a reputação, toda a sua existência numa sociedade conservadora. Os problemas começaram com a inscrição das netas da Senhora Helen Cumming Gordon no seu refinado estabelecimento. Uma das meninas era Jane Cumming, a filha orfã, ilegítima e mestiça de George Cumming que, como quase todos os homens da família, trabalhava para a Companhia Britânica das Índias Orientais.

Até então, a menina tinha sido criada em Calcutá, aos cuidados da família materna e com o apoio financeiro do clã paterno, e educada em escolas cristãs. Eventualmente, e muito por causa da morte do pai, Jane foi enviada para a Escócia, para viver sob a custódia da avó que, num gesto chocantemente progressivo para a época, a decidiu legitimar. Inicialmente, os planos eram que a jovem treinasse para o ofício de chapeleira, mas os planos de Lady Helen envolviam uma educação equiparável à das suas outras netas, preparadas para a vida enquanto senhoras da alta sociedade britânica.

Pub
Lê Também:
Série de Stephen King com Ben Barnes (Shadow and Bone), prestes a estrear na HBO Max Portugal

Para esse efeito, inscreveu-a e às primas na escola de Pirie e Woods, onde Jane terá testemunhado a intimidade das duas professoras. Segundo as acusações da moça, as mulheres mais velhas partilhariam a cama e praticariam atos sexuais nos mesmos quartos em que Jane supostamente dormia – uma consequência de demasiadas pupilas numa escola demasiado pequena. Lady Helen não só retirou as netas desse antro de perversões sáficas, como também espalhou o rumor que levou à ruína das duas professoras. Elas processaram os Cummings e, depois de nove anos em tribunal, ganharam o caso.

Contudo, nada serviu para lhes limpar a reputação e nenhuma delas conseguiu reconstruir a vida para que tanto tinham trabalhado enquanto mulheres solteiras, independentes de qualquer homem. Jane, por seu lado, foi humilhada publicamente, seu testemunho atribuído à devassa natureza da identidade racial. O caso destas almas perdidas serviu de inspiração a Lillian Hellman quando, em 1934, escreveu “The Children’s Hour” e a estreou nos palcos nova-iorquinos. A peça foi um sucesso imediato, adaptada duas vezes ao cinema por William Wyler. Primeiro, em 1936 numa versão altamente censurada. Depois, em 1961, Audrey Hepburn e Shirley Maclaine puderam explorar a sexualidade das personagens de forma mais declarada.

Pub

Transcendido o clássico do teatro e do cinema, busca-se o facto histórico.

the education of jane cumming critica queer porto
© Queer Porto

Por muito que se inspire no caso de Pirie, Woods e Cumming, “The Children’s Hour” transpõe a ação para a contemporaneidade americana de quando foi escrito, apaga os elementos raciais da história verídica e provém, principalmente, de um resumo que William Roughead escreveu sobre o escândalo numa antologia sua de 1930. Hellman escreveu essa peça, que haveria de se tornar um clássico, como exercício literário, jamais pensando que iria, para sempre, ofuscar a realidade de uma história real e, quiçá, mais complexa do que a sua ficção. Em certa medida, “The Education of Jane Cumming” surge como uma correção desse legado.

Em vez de se inspirar na peça de Hellmann ou nos sumários escabrosos de Roughead, a Sophie Heldman escreveu “The Education of Jane Cumming” com a colaboração de Flora Nicholson e com base no “Scotch Verdict” da historiadora Lillian Faderman. O trabalho parte de uma pesquisa académica voltada à análise de histórias queer, perdidas nos arquivos e sob censura. Mas não é, por isso, um ataque contra a sua personagem principal. De facto, o elemento mais interessante neste drama de época será a complexidade que Heldman e a atriz Mia Tharia encontram em Jane, propondo uma ideia de exclusão e isolamento fomentada, não só, pelo preconceito racial, mas também pela possibilidade do desejo ilícito.

Pub

E se a génese da acusação tivesse surgido da identificação, porventura esperançosa, com duas mulheres mais velhas numa intimidade que ela invejava? Ou desejava? Terá a acusação sido inocente ou partido de uma vontade de vingança, face à rejeição de Woods e Pirie enquanto ídolos pessoais e das suas primas racistas e trocistas enquanto colegas? E se a indiscrição fosse uma mentira influenciada pelas histórias que adolescentes contam umas às outras naquela idade parva, naqueles tempos de autodescoberta e curiosidade sexual? E se a acusação tiver sido um impulso imaturo, uma faísca sobre a qual Lady Cumming despejou um balde de querosene?

Tudo é especulação, proveniente de teorias académicas e das interpretações dramatúrgicas de Heldman, aqui transformadas num triplo estudo de personagem, uma canção para três vozes que raramente se elevam acima do sussurro. As imagens são um pouco mais vocíferas, com a fotografia de Kate Reid a gelar o mundo, com uma exposição elevada que rouba a vida à pele, branca ou castanha, e a todos, pintando-os em tons de palidez cadavérica. A mise-en-scène é, quiçá, simplista, mas tira bom partido desta paleta cromática de perpétuo inverno, da materialidade meio teatralizada do cinema de época e de uma banda sonora que suscita ansiedade através do classicismo nervoso das cordas.

Pub

Drama de época retorcido em autorreflexão, um estudo de personagem frio.

the education of jane cumming critica queer porto
© Queer Porto

Em suma, os preceitos do drama de época são levemente pervertidos, feitos frios e inóspitos, de modo a que qualquer deviação dos mesmos se sinta como uma chapada. Penso nos vestidos amarelados de Jane, na luz âmbar dos dormitórios à noite, no júbilo com que as pedagogas celebram as maravilhas da paisagem costeira num verão passado com a menina que tanto se quer distanciar da própria família. O afeto é a disrupção num universo cinematográfico onde a ordem do dia será a repressão social que nos torna o coração numa pedra de gelo e diz que o calor humano é crime contra a decência.

Há ainda um jogo interessante com os códigos de género, logo desde a primeira sequência, em que a câmara acompanha o coche que transporta Pirie e os Cummings à escola, atravessando estradas enlameadas pela chuva escocesa e árvores partidas pelo mau tempo. Pirie ajudar o cocheiro com o trabalho físico de mover as ramagens que lhes travam o caminho sente-se como transgressão da ordem social. Entre as alunas, há claras projeções de masculinidade sobre Jane devido à sua etnia, e o pouco que se sabe sobre Woods é um mistério que sugere “indecências” passadas. Em “The Education of Jane Cumming”, elas são realmente lésbicas, mas não reagem da mesma forma ao desejo e certamente não se expõem às alunas.

Pub
Lê Também:
As 4 melhores séries para ver este fim de semana estão na Netflix e HBO Max em Portugal (6 novembro)

Flora Nicholson é de uma rigidez absoluta ao interpretar Pirie, tão severa que parece estar em constante perigo de se partir em mil cacos pela violência de uma torção interna. Seu único alívio, a singular variação nesta atitude severa, surge em resposta à gentileza mais expressiva da professora, sua colega. Clare Dunne é muito mais calorosa, até um pouco excêntrica, no modo como faz de Woods uma aparente inocente cujo olhar revela sagacidade secreta. Talvez o momento que melhor demonstre as suas prestações complementares seja o momento em que as acusadas ouvem os detalhes da acusação. Nicholson explode, chora com raiva, os músculos tensos e espasmados como que eletrocutados. Dunne implode, suave, mas resoluta.

Só a Lady Helen de Fiona Shaw tem direito a expressar-se sem estribeiras, sem autocensura ou as recriminações que agrilhoam o verdadeiro caráter das personagens principais. Na sua expressividade, em modos excessivos, “The Education of Jane Cumming” revela o quanto o privilégio se manifesta na liberdade de agir consoante diretivas e verdades pessoais, sem necessitar de uma máscara entre si e o julgamento de olhares alheios. Não é uma conclusão especialmente elucidante, nada inédito no drama de época britânico, nem mesmo no contexto de estudos sobre o passado através de um prisma queer. Não deixa, por isso, de ser um projeto meritoso e uma necessária revisão dos factos que o texto de Hellmann ofuscou durante décadas.

Pub
The Education of Jane Cumming

Conclusão:

  • “The Children’s Hour” é uma das peças mais famosas do cânone teatral americano, ainda mais celebrada pelas adaptações que Hollywood fez. No entanto, o texto de Lillian Hellman tem servido de ofuscação, talvez um véu tecido de ficções que escondem o facto. Porque a história de duas professoras cujas vidas foram destruídas quando acusadas de lesbianismo por uma aluna não nasceu nos palcos de Nova York. Na verdade, surge de um episódio real da História britânica e é bastante mais complexo do que as suas dramatizações americanas podem sugerir.
  • “The Education of Jane Cumming” recupera essa complexidade, em parte, ao considerar a personagem titular como algo mais do que uma destruidora de vidas e fofoqueira maldosa. A componente colonial do caso, que tanto terá influenciado o desprezo sofrido pela rapariga, incitado o seu descontentamento e a humilhou no tribunal, é aqui examinado. Também a questão de classes, como o privilégio monetário de alguns lhes permite viver na plenitude do seu ser enquanto os mais desafortunados fazem concessões constantes, desde o berço ao túmulo.
  • Com a negação da catarse total, o argumento de Flora Nicholson e Sophie Heldman vai deixar muito público insatisfeito, mas as boas intenções são inegáveis. Também se louva o trabalho de Heldman na visualização do passado histórico em tons gélidos, entre o mármore e o cadavérico, assim como a sua direção de atores. Tanto assim é que Flora Nicholson, Clare Dunne e Mia Tharia estão todas nomeadas nos British Independent Film Awards. O filme também tem passado por muitos festivais desde a sua estreia na Berlinale. Nesse momento, integra a programação do Queer Porto.
Overall
7.5/10
7.5/10
Sending
User Review
0 (0 votes)

google news

Sobre o Autor


Leave a Reply