A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares, em análise

 A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares traz de volta os traços distintos típicos dos melhores filmes de Tim Burton, perdendo pela incapacidade de manter o ambiente sombrio e fantasioso até ao final.

Parecia que viria a ser um dos melhores filmes de Tim Burton, ao nível de grandes títulos como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” e “Sweeney Todd“. O estilo do diretor mantém-se estável e reconhecível mesmo após 18 trabalhos, e desde a altura dos filmes supra-mencionados que não havia material que encaixasse tão perfeitamente com o mestre do macabro de Hollywood; até agora. Tim Burton está em sincronia total com o best-seller de Ransom Riggs no qual se baseia esta história, particularmente as fotografias vintage que faziam parte da coleção pessoal do autor e que podiam ter sido relíquias retiradas do sotão de Tim Burton, assim como todas as particularidades dos meninos peculiares, e os cenários tipicamente ingleses, tudo a idealizá-lo para o papel atrás da câmara.

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Asa Butterfield, agora mais crescido, é Jake, um adolescente da Florida que cresceu a ouvir as histórias do seu avô acerca de um misterioso orfanato numa ilha onde cresceu e que albergava curiosos meninos. Mas é quando o avô morre de forma suspeita que Jake faz as malas e decide ir ver o lugar por si mesmo, partindo para a ilha na Escócia onde verifica, de um modo fantasioso e secreto que, não fosse tão sinistro, daria um paralelismo com a ida para Nárnia, que não só as crianças chamadas “peculiares” (para dizer o mínimo, tendo cada um deles um poder que aprendeu a controlar e que nos remota a uma certa junção entre os X-Men e tempos circenses da série American Horror Story) e a sua cuidadora, Miss Peregrine, são mesmo reais, como também ainda estão vivos e presos num loop temporal onde é eternamente 1943.

A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares análise

Esse loop foi criado pela “ymbrine” Miss Peregrine – personificada pela que aparenta ser a nova aposta de Tim Burton, Eva Green -, que consegue transformar-se em pássaro e também controlar o tempo, criando uma bolha de 24 horas à volta do orfanato Vitoriano onde vivem as crianças e assim, escondendo-o quase tão bem como Hogwarts e fazendo-os reviver aquele mesmo dia para sempre; este mecanismo é demonstrado no filme de forma belíssima fazendo o espectador sentir a preocupação de ver uma bomba da Segunda Guerra Mundial a cair em cima da casa, e o alívio de ver a bomba retroceder juntamente com a chuva e os segundos no relógio, com uns toques de stop-motion tão característicos de outros trabalhos de Burton.

Enquanto na casa de Miss Peregrine, Jake descobre que a causa de morte do seu avô foi na verdade um ataque do que chamam um “hollowgast”, criaturas lideradas por Barron (adequadamentre interpretado por Samuel L. Jackson), que se assemelham a um Slenderman grande com tentáculos – diga-se, a melhor caracterização do filme -, e que se alimentam de olhos de peculiares com o desejo de voltarem a ter a forma humana, um toque que Tim Burton teve todo o gosto em incluir na longa-metragem. O jovem herda a capacidade do avô de ver esses hollows, e torna-se por isso a esperança de todos os peculiares enquanto simultaneamente vemos momentos de romance com a linda quase-albina Emma (Ella Purnell), leve como uma pluma o que a leva a usar botas de chumbo para a manter no chão, e para quem a escritora Jane Goldman teve o prazer de escrever algumas belas cenas de romance com Jake e deixar o seu lado Disney ter também o seu papel no projeto.

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E o que se preparava para ser um dos melhores filmes de fantasia dos recentes tempos, podia ter acabado numa melhor nota; o guião de Jane Goldman deixou-se levar pela vontade de agradar às massas e, juntamente com as maravilhas do CGI, tornou-se um filme de ação levado ao clímax por uma cena de batalha entre o vilão Barron e alguns Hollows versus as crianças peculiares e alguns esqueletos revividos que, apesar de ter o seu quê de invulgar, ao invés de ser épica, caiu no cómico e parece retirada de outro filme completamente diferente, faltando-lhe a sensibilidade e identidade sombria que havíamos visto até então (talvez tivesse sido mais adequada se fosse numa cenografia de parque abandonado, mas fica só como ideia).

A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares tem todas as características visuais de um filme clássico de Tim Burton, retratando com distinção a transformação de Miss Peregrine para falcão, a descida de Emma e Jake para o fundo do oceano e consequente libertação de um navio afundado de volta para a superfície, as crianças com poderes quase sobrenaturais dentes na parte de trás da cabeça, ou gémeos-medusa que transformam pessoas em pedra) assim como os cenários e vestuário típico dos anos 40, em que a enorme qualidade cinematográfica está em destaque – não são todos os créditos apenas para o diretor. Mas no final vimos o seu foco alterado para os efeitos especiais, dando ênfase ao quanto os poderes das crianças eram fenomenais e deitando fora a preocupação em dar-lhes substância como personagens em si.

A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares análise

A trilogia de livros que serve de base para A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares, levada ao grande ecrã, pode facilmente chegar à lista de melhores de Tim Burton – apesar de que este filme teve um final fechado, podendo assim também ficar filho único -, com mais dos heróis mutantes, mais sobriedade nos vilões, mais de Miss Peregrine (muito bem representada por Eva Green, que encaixa bem num papel que podia ter sido escrito para Helena Bonham Carter), e menos lutas com esqueletos saltitantes em parques de diversões. #staypeculiar

O MELHOR – A junção da fantasia com o macabro, lindamente caracterizados tanto na cenografia como na história. Argumento conciso e emocionante, capaz de prender o espectador.

O PIOR – A transição para a cena de batalha no cais de Blackpool – se a intenção é tentar agradar tanto a jovens como adultos, pode acabar por não agradar de forma plena a nenhum.


Título Original: Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children
Realizador:  Tim Burton
Elenco: Eva Green, Samuel L. Jackson, Kim Dickens, Asa Butterfield, Judi Dench
Big Picture | EUA | 2016 | 127 min | Fantasia, Ficção Científica

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AR


 

Ana Rodrigues

Seriófila, e amante das artes cinematográficas.

One thought on “A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares, em análise

  • A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares: 4*

    Este é um filme bastante bom e recomendo, pois está repleto de magia ao estilo de Tim Burton.
    PS, eu por acaso adorei a batalha, a mistura entre música eletrónica e ação ficou brilhante
    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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