A Favorita, em análise

Com 10 nomeações para os Óscares, incluindo Melhor Filme, Realização e Atriz Principal, “A Favorita” é uma das obras cinematográficas mais aclamados do ano. Vendo a sua obscena magnificência no cinema, é fácil entender o porquê disso mesmo.

Algumas feridas nunca se fecham, nunca cicatrizam. Uma pessoa simplesmente se habitua a viver com elas e, de vez em quando, sente-as encherem-se de sangue. A Rainha Anne, primeira soberana da Grã-Bretanha, tem muitas feridas assim e não tem problema em admiti-lo. Suas pernas incham com a pestilência da gota, reverberando com dores por um corpo estilhaçado pelo horror de 17 gravidezes acabadas em tragédia. Quer esteja coberta de arminho com uma coroa na cabeça ou a rebolar no chão em camisas de noite manchadas por bolo e vomitado, esta rainha é um caco humano. No entanto, ela tem o poder concedido pelo trono, sendo, em simultâneo, vítima da sua condição e potencial tirana abençoada pelo direito divino.

No papel desta figura grotesca que tanto desperta asco como piedade no coração de quem a observa, Olivia Colman exibe-se em toda a sua glória de atriz consagrada. Trata-se do papel mais complicado da sua áurea carreira, mas esta veterana da TV inglesa nunca mostra sinais de esforço, atirando-se de cabeça aos extremos da personagem. O resultado é a mais estranha protagonista de um drama de época de prestígio, estreado no auge da temporada dos prémios, que se pode imaginar. Aliás, ancorado pela humanidade repugnante e maravilhosa de Colman, “A Favorita” assume-se como um ataque a esse mesmo tipo de cinema embalsamado em respeitabilidade. Que outra coisa poderíamos esperar do realizador de “Canino” e “A Lagosta”?

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Um filme que cospe na cara da convenção.

Partindo de um argumento de Deborah Davis e Tony McNamara, o cineasta grego Yorgos Lanthimos usa as intrigas da corte inglesa em inícios do século XVIII como mero pretexto para explorar alguns dos seus temas e estéticas preferidas. Assim, a história de como Lady Sarah Churchill, amiga e amante da rainha, é usurpada da sua posição de favorita real pelas manipulações e de Abigail, sua prima distante, toma a forma de uma dissecação do conceito do amor romântico, da submissão enquanto estrutura da sociedade e de como o ser humano está sempre disposto a tudo para fugir ao sofrimento a que está condenado desde o nascimento. Lanthimos tudo isso faz ao mesmo tempo que cospe na cara dos paradigmas usuais do filme de época inglês.

Sua predileção por estilos de atuação enfaticamente estilizados e antinaturalistas encontra-se aqui em evidência, se bem que de modo mais atenuado que em projetos anteriores. Como já dissemos, Colman é um espetáculo sem precedentes como a Rainha cujo poder todos cobiçam, mas Rachel Weisz e Emma Stone são igualmente magistrais como as outras pontas deste triângulo. Em Sarah Churchill, companheira de longa data da rainha e mulher patriótica capaz de ditar os afazeres do governo com um punho de ferro, Rachel Weisz encontrou o melhor papel que alguma vez teve. Certamente aqui tem os melhores diálogos, sendo que insultos tão venenosos como linguisticamente sofisticados são a especialidade de Sarah.

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Contudo, tal qualidade tóxica e cruel acaba por se revelar como fachada para a dolorosa devoção do amor genuíno. Pode ser algo difícil de entender, mas, no mundo visto pelos olhos de Lanthimos, a crueldade é uma componente do amor enquanto o elogio vácuo é a mais pérfida das armas. Por isso mesmo, Sarah e Abigail têm dois arcos narrativos opostos aos olhos do espectador, começando por assumir papeis arquetípicos que lentamente se vão complicando até termos o oposto daquilo com que começámos. Emma Stone começa a história como personagem bondosa e inocente, até que nos apercebemos que essa mesma faceta angelical não é mais que um bisturi com que Abigail dilacera as barreiras que a separam do topo da hierarquia social.

Testemunhar este tríptico de atrizes em ação é ser abençoado pela maior orgia de virtuosismo de ator que o cinema contemporâneo tem para oferecer. O melhor de tudo é que Lanthimos está perfeitamente ciente das joias interpretativas que tem nas mãos e constrói cenas inteiras em volta da alquimia das três performances em comunhão. Algumas das passagens mais deliciosas do filme resumem-se a cenas em que Rachel Weisz desfere insultos com a acidez dramática de uma diva do cinema dos anos 40, Olivia Colman esboça um sorriso fraco por entre seus epítetos de petulância e dor, sendo tudo rematado por um grande plano de Emma Stone com expressão mortífera e os olhos a brilhar com o calculismo de uma discípula de Maquiavel.

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O amor fere, é cruel e doloroso.

Não que todo o filme se resuma às três atrizes e ao modo como Lanthimos maneja seus estilos antagónicos de atuação. “A Favorita” é como um engenho requintado em que todas as peças funcionam na perfeição e nenhuma roldana é supérflua ou ineficaz. A montagem, por exemplo, está constantemente a negociar os tons de humor negro e tragédia barroca pelas quais o filme se transfigura. Ao mesmo tempo, os cenários severos de Fionna Crombie, os figurinos monocromáticos de Sandy Powell e a fotografia distorcida de Robbie Ryan estão sempre a promover o distanciamento entre o espectador e a ação, como que pedindo à audiência que se mantenha crítica e alienada deste tríptico de sociopatas.

“A Favorita” é um filme desconfortável em todos os seus aspetos e é nesse desconforto, feito de verdades humanas feias a marinar em estilização alienante, que germina seu génio. Por entre risos de escárnio e danças mirabolantes, esta história vai traçando um jogo em que não há vencedor possível, mostrando a fragilidade do coração humano e sua capacidade para a crueldade egoísta. Quem procurava amor, acaba por se encontrar separada da única pessoa que realmente a amou. Quem procurava poder, acaba exilada da mulher a quem dedicou a alma e do país a quem dedicou a vida. Quem queria fugir à humilhação da subserviência, acaba por se condenar à posição de escrava sexual de uma gárgula moribunda. No fim, a miséria é a única certeza e constante. Miséria sob a forma de infinitos coelhos batizados com o nome de crianças que nunca chegaram a ver a luz do Sol.

A Favorita, em análise
A Favorita

Movie title: The Favourite

Date published: 2019-02-07

Director(s): Yorgos Lanthimos

Actor(s): Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Hoult, Joe Alwyn, Mark Gatiss, James Smith, LillyRose Stevens

Genre: Comédia, Drama, Biografia, História, 2018, 119 min

  • Cláudio Alves - 95
  • Maria João Bilro - 78
  • Inês Serra - 90
  • Ângela Costa - 80
  • Rui Ribeiro - 90
  • João Fernandes - 80
  • Catarina d'Oliveira - 90
  • Daniel Rodrigues - 85
  • José Vieira Mendes - 80
  • Miguel Pontares - 89
  • Virgílio Jesus - 95
  • Luís Telles do Amaral - 88
87

CONCLUSÃO

À luz trémula de velas ou sob a ofuscante incandescência de um dia cinzento à boa moda britânica, “A Favorita” é um filme propositadamente desagradável sobre pessoas horríveis a destruírem a vida umas das outras. Trata-se também de uma das mais acutilantes representações de amor romântico nos anais do cinema inglês, dissecando as verdades mais venenosas que se encontram subjacentes a tal maravilha do coração humano. Tanto os atores como toda a equipa criativa estão em topo de forma e aqui mostram tudo o que valem. No fim, este é um espetáculo assombroso do mais alto gabarito.

O MELHOR: Colman, Weisz e Stone em estado de graça.

O PIOR: A divisão do filme em capítulos ajuda a fazer com que as suas duas horas pareçam muito mais fugazes do que são, mas representa também uma afetação desnecessária e não pouco pretensiosa.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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