13º IndieLisboa | A Lagosta, em análise

Com A Lagosta, Yorgos Lanthimos marca a sua estreia em cinema de língua inglesa, concebendo uma história surrealista sobre um mundo em que ser-se solteiro é um sinal de inaceitável rebeldia social.

a lagosta

Depois de uma abertura em que, inicialmente sem explicação minimamente racional, uma mulher mata um burro a tiro, deparamo-nos com um momento que poderia ter saído de uma infinidade de outros filmes. Um homem de meia-idade, chamado David, é deixado pela sua mulher que o trocou por um outro homem. É claro que A Lagosta não é um filme qualquer, sendo a estreia na língua inglesa do realizador grego Yorgos Lanthimos, que ganhou fama internacional com Canino em 2009. Tal como nesse filme, depressa nos encontramos enclausurados num edifício que contém no seu interior uma espécie de ecossistema social criado pela força e pelo medo. Aqui, no entanto, não temos forçada infantilização e pressuposta inocência, mas sim uma comunidade para onde todos os solteiros são enviados de modo a, num prazo limitado de dias, encontrarem um parceiro amoroso.

O título de A Lagosta devém precisamente da bizarra consequência que se abate sobre quem fracassa nesta procura por um relacionamento amoroso, pois estes casos de insucesso “romântico” são prontamente eutanizados sob a forma de uma transmutação inter espécies. Cada solteiro tem, no entanto, a liberdade de escolher a forma final do seu castigo, podendo decidir que animal será a sua identidade até ao fim dos seus dias. O nosso protagonista, o homem rejeitado nos primeiros minutos do filme, escolhe ser uma lagosta. Para tal decisão ele oferece uma coleção de razões tão absurdas como estranhamente racionais. Nenhuma dessas justificações é que o animal é um incontornável símbolo do surrealismo plástico, mas tal referência não terá passado ao lado de Lanthimos que neste filme leva o seu estilo de surrealismo e absurdo social encarado de expressão severa e completamente séria a novos exageros, tão grotescos como fascinantes.

a lagosta

A criação de códigos sociais de gritante artifício e perversa desumanidade tem-se demonstrado como o alicerce temático da filmografia de Lanthimos e A Lagosta não é uma exceção. No hotel, ou resort dos solteiros, um casal cheio de falsos sorrisos e ameaçadora amabilidade rege a vida das massas de solteiros, impondo um estrito regime de interações ritualísticas como bailaricos sistematizados e outras atividades semelhantes. As primeiras chamas do “romance”, neste mundo, são despoletadas pela correspondência de idiossincrasias pessoais como uma propensão alarmante para espontâneas hemorragias nasais ou uma doentia falta de emoções, e assim qualquer união parece mais o preenchimento de um formulário burocrático que qualquer real ligação sentimental. Afinal, estas relações são uma necessidade para a sobrevivência e nada se põe no seu caminho, certamente não ideias contemporâneas de decência e integridade humana. Quando um casal já estabelecido apresenta dificuldades, por exemplo, a organização desta instituição irá acrescentar crianças à unidade familiar como remédio, um reflexo de humor negro de valores familiares quase dogmáticos que são mais comuns na sociedade atual do que muitos estarão confortáveis em aceitar.

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Essa padronização sistemática e quase mecanizada das interações humanas estendem-se a todos os aspetos do filme, especialmente nesta estadia no hotel dos solteiros. As paredes cor de Cerelac, por exemplo, são tão calmas e inofensivas na sua intencionalidade cromática que quase se tornam demoniacamente ameaçadoras. A fotografia exata e de enquadramentos milimetricamente cuidados não ajuda à dissolução de tais sentidos de sufocante construção de humanidade falsificada. No entanto, não é nem a fotografia ou a cenografia, a realmente telegrafar os extremos das codificações sociais e humanas inerentes a este mundo futuro imaginado por Lanthimos. Os figurinos de A Lagosta são um perfeito esplendor de perverso convencionalismo, especialmente nas suas ideias de géneros e papéis familiares na sociedade. Por exemplo, nas cenas de festa todos os homens se vestem com iguais fatos pretos sem adornos, enquanto as mulheres envergam vestidos com primaveris padrões florais, exibindo uma insana rigidez das ideias sobre o que compõe um casal e o que define a imagem de um homem e de uma mulher.

A Lagosta

De uma comunidade de vestidos femininos e fatos sóbrios, acabamos por passar a uma outra sub sociedade, quando o nosso protagonista foge do hotel e acaba por integrar um grupo de solteiros fugitivos. Esses indivíduos, chamados “The Loners” já haviam sido previamente mostrados no filme, como objetos de caça para os hóspedes do hotel que os perseguiam com o vácuo intuito de ganharem mais alguns dias para encontrarem a sua ilusória segunda metade. No entanto, longe de representarem liberdade, estes solitários não são menos presos a desumanas doutrinas e artificialismos sociais que os seus opositores. Pelo contrário, são o seu radical extremo, vivendo sob o dogma do total individualismo, onde o toque é proibido e a única música que se pode ouvir é eletrónica, com auscultadores e apreciada individualmente, o que resulta numa bizarra imagem de uma multidão silenciosa a dançar cada um para seu lado, como que num absurdo transe.

Parte da missão destes renegados da sociedade respeitável é uma estranha forma de terrorismo em que os solteiros invadem o mundo dos casais, infetando a sua mente com dúvidas e inseguranças corrosivas, e revelando a abjeta hipocrisia da sua ideologia e a futilidade dos seus conceitos amorosos. Tal como as suas vítimas e opressores, as suas regras depressa são quebradas por David, quando este inicia uma ilícita relação amorosa com outra solitária. Neste mundo em que todos parecem ter esquecido os mais básicos aspetos da interação humana, os dois enamorados vão concebendo a sua própria linguagem de comunicação romântica e a delicada luz da humanidade e sua imperfeita maravilha começa a brilhar por entre a negrura desta sátira.

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Paralelamente a tal viagem emocional e conceptual, o filme vai sendo estruturado como uma impressionante sinfonia de irreverentes ritmos cómicos, cheia de violentos e repetidos staccatos, Seguindo tais construções estruturais e rítmicas, A Lagosta é povoada por um elenco de luxo que faz o impossível ao pegar na rígida e severa verbosidade do guião desta fantasia humorística e lhe injetar preciosa imperfeição e especificidade humana sem nunca trair o âmago estilístico do filme. Colin Farrell é de óbvio destaque, convertendo David numa perfeita construção de triste incompetência social antes de, com a ajuda de Rachel Weisz, telegrafar o delicado desabrochar de um tenro e inesperado romance. Num registo infinitamente mais estoico e agressivo estão outros dos atores que mais brilham neste elenco, como Olivia Colman que usa as suas aptidões cómicas para espetacular efeito, e Bem Wishaw que raramente foi mais desconcertante que nas suas abortadas tentativas de romance e estabilidade familiar nesta narrativa.

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Sem revelar mais detalhes do enredo há que apontar quão A Lagosta se acaba por afirmar como uma primorosa sinfonia de alienantes ritmos cómicos, tão ricos em estranheza perturbadora como em detalhes de complexa idiossincrasia humana. Convém, no entanto, voltar a recordar que este é um filme de Yorgos Lanthimos, e uma visão cáustica dos mecanismos desumanos pelos quais estabelecemos relações interpessoais nos dias de hoje a partir de redes sociais e outras facetas do mundo moderno. Como tal, este romance de Farrell com Weisz está longe de sair incólume da narrativa e seus pequenos píncaros de lancinante violência. Independentemente de suas finais conclusões ou suas dúbias críticas hiperbólicas á sociedade moderna, A Lagosta prova-se como uma obra imperdível daquele que é um dos mais curiosos e fascinantes autores do contemporâneo cinema europeu.

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O MELHOR: A completa recusa do naturalismo na representação das reações humanas face aos absurdos mais incredíveis deste mundo fantasioso.

O PIOR: A estruturação fortemente bipartida da narrativa é tão rígida como o estilo dos atores ou os enquadramentos fotográficos o que consegue ser bastante forçado e imensamente inorgânico mesmo dentro da realidade peculiar de A Lagosta.


 

Título Original: The Lobster
Realizador:  Yorgos Lanthimos
Elenco: Colin Farrell, Rachel Weisz, Olivia Colman, Léa Seydoux, John C. Rilley
NOS | Drama, Comédia, Romance, Ficção-Científica | 2015 | 118 min

A Lagosta

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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