"A Mão de Deus" | © Netflix

A Mão de Deus, em análise

Em 2014, Paolo Sorrentino conquistou o Óscar para Melhor Filme Internacional com “A Grande Beleza.” Este ano, o realizador italiano volta a competir pelo troféu mais cobiçado de Hollywood, desta vez com “A Mão de Deus” da Netflix.

Para alguns artistas, o ato de criar é como uma confissão ou, quiçá, uma terapia. Em entrevistas, Paolo Sorrentino brincou com o facto de que, em certa medida, o seu cinema funciona como uma espécie de substituto para a conversa terapêutica, para introspeção. Se “A Grande Beleza” e sua folia à la Fellini era o filme que Sorrentino sempre tinha querido fazer, “A Mão de Deus” revelou-se aquele que ele mais precisava de realizar. É certo que o cinema do mestre Federico continua a ser referência na obra deste cineasta contemporâneo. Contudo, o cinismo desse autor passado foi aqui substituído por uma veia mais sincera.

Neste trabalho para a Netflix, Sorrentino faz referência direta a Fellini, a Capuano e, mais obliquamente, a Rossellini e seu “Stromboli.” Contudo, se há realizador que este novo projeto evoca, ele é Ettore Scola, o grande campeão de um cinema italiano feito em torno do sentimento. Também faríamos ligações a Tornatore, mas há uma costela amarga no corpo do filme que nos deixa duvidosos. Não, Scola é a comparação mais acertada. Pensamos no burlesco de “Feios, Porcos e Maus,” no melodrama histórico de “Um Dia Especial,” na crónica nostálgica de “A Família.” Com isso dito, temos que admitir algo triste – “A Mão de Deus” nunca chega aos calcanhares de Scola.

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Regressando ao passado, Sorrentino regressa também a Nápoles, terra que o viu nascer e crescer. Lá encontramos o jovem Fabietto, versão ficcionada do realizador, e sua vasta família, a começar pela tia formosa. Ela aparece-nos num dos quadros mais assombrosos da fita, quando o realizador dá vida ao folclore seu conhecido através do prisma salaz do seu gosto cinematográfico. A tia Patrizia vive uma fantasia Napolitana aqui encenada como facto casual. Certa noite, ela cruza-se com Santo Gennaro, o padroeiro da cidade aqui materializado em forma de mafioso. Ele leva-a ao pequeno monge, figura obscura da tradição napolitana, que a abençoa com fecundidade.

Mas o sonho e a realidade são de difícil matrimónio e, quando regressa a casa, Patrizia é maltratada por um marido que a acusa de traição. O desentendimento leva à separação, ao refúgio da mulher na casa de familiares, no lar de Fabietto. Num paradigma meio freudiano, Sorrentino assim nos delineia o acordar sexual da sua adolescência, quando os seios da tia despertam desejos profundos. No entanto, esse é somente o ponto de partida. Daí, o filme expande os horizontes e retrata a vastidão do clã Sorrentino, aqui rebatizado Schisa. Familiarizamo-nos com as suas excentricidades, com os detalhes preservados no âmbar da memória de quem ainda vive.

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A mãe de Fabietto, Maria, é mulher com sentido de humor perigoso. Numa partida cruel, ela convence a vizinha que Zeffirelli a quer para o papel de Maria Callas, e depois parte-lhe o coração com a verdade revelada. Saverio, o patriarca, é menos predisposto a óperas bufas, perdendo-se de amores pelo futebol, especialmente a estrela do momento – Maradona. O amor pelo futebolista acabou por salvar Sorrentino num acaso do destino e, desde então, já muitas referências ele lhe fez nos seus filmes. “A Mão de Deus” é o apogeu dessa homenagem, indo até buscar o título àquele jogador que liderou os Napoli à vitória na Liga Italiana.

Esse episódio em que o ídolo indiretamente salva a vida ao adolescente divide a histórias em duas partes tonalmente distintas. Se o início da fita é uma odisseia picaresca pelas loucuras dos Schisa e a imaginação adolescente de Fabietto, o segundo capítulo é mais sombrio. Também é mais abertamente sentimental nas suas intenções, afirmando-se enquanto homenagem de um homem para com as pessoas que perdeu e que lhe marcaram a vida. É uma carta de amor a um tempo perdido, a uma família, a um lugar e cultura que Sorrentino tem renegado ao longo da sua carreira. Se forçados a escolher, prefere-se esta melancolia tardia ao circo anterior.

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Enfim, por tudo isto queremos poder amar o filme, tão ligado está à alma do seu criador. Só que, nem bons propósitos nem honestidade artística resultam necessariamente em bom cinema. Em “A Mão de Deus,” esses elementos também não são suficientes para desculpar o mau cinema. Sorrentino trabalha melhor na esfera satírica do que num registo mais sincero, algo que se evidencia nas inconsistências tonais que a estrutura deste filme sublinha. O design, a fotografia e a música são sublimes, como é regra na filmografia deste cineasta, mas há falta de profundidade. Todas as personagens são desenhos rudes sem multidimensionalidade.

Fabietto não tanto, mas a caracterização é superficial, reduzindo o ator Fiippo Scotti a uma presença passiva, quase inerte. Restante elenco é coleção de caricaturas, um pormenor único explodido em personalidade pobre. Há um rasgo de desumanidade no modo como a câmara faz objetos dos atores, querendo, ao mesmo tempo, celebrar uma suposta carnalidade e natureza visceral. A certa altura, dentro do texto deste filme, o avatar de Sorrentino pergunta-se se terá algo a dizer. Fala-se de um artista aspirante que não tem qualquer perspetiva a explorar no seu trabalho.

Por muita beleza formal que “A Mão de Deus” evidencie, por muito fortes que sejam as emoções no seu âmago, temos dúvidas se, no final, Paolo Sorrentino não terá feito um filme que funciona unicamente como exercício purgador da alma. Cinema como terapia tem seu valor individual, mas não é assim tão esplendoroso quando visto fora do seu contexto preciso, quando encarado como uma obra para o público. A nomeação para o Óscar mostra que o apelo do trabalho transcende Sorrentino, mas continuamos a questionar se tal honra é mostra de real valor. Nem tudo o que brilha é ouro, nem toda a fita que nos faz chorar merece as lágrimas.

A Mão de Deus, em análise
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Movie title: È stata la mano di Dio

Date published: 18 de March de 2022

Director(s): Paolo Sorrentino

Actor(s): Filippo Scoti, Toni Servillo, Teresa Saponangelo, Marlon Joubert, Luisa Ranieri, Renato Carpentieri, Massimiliano Gallo, Betty Pedrazzi

Genre: Drama, 2021, 130 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

“A Mão de Deus” mostra-nos Paolo Sorrentino num registo mais sentimental que o costume. Dramatizando a sua adolescência napolitana, o realizador concebeu uma autobiografia cinematográfica com primor formal, mas alguns problemas ao nível de consistência tonal.

O MELHOR: A especificidade geográfica deste filme, sua paixão ardente por Nápoles, quer seja enquanto cenário como enquanto cultura, identidade.

O PIOR: A estrutura bifurcada tem tantas vantagens como desvantagens, pronunciando as máculas textuais no guião de Sorrentino.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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