A Rapariga Dinamarquesa, em análise

 

A Rapariga Dinamarquesa, apesar de fascinantes e importantes bases históricas, é mais um medíocre exercício em cinema de prestígio criado com o simples objetivo de arrecadar Óscares para a sua equipa e estúdio, nunca mostrando a ousadia e coragem que o seu conteúdo exige.

 

A Rapariga Dinamarquesa Título Original: The Danish Girl
Realizador: Tom Hooper
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Amber Heard 
Género: Drama, Biográfico
Leopardo Filmes | 2015 | 119 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’]

 

Em A Rapariga Dinamarquesa, Eddie Redmayne e Alicia Vikander interpretam Lili Elbe, originalmente Einar Wegener, e a sua mulher, Gerda. Lili é célebre pelo seu estatuto como a primeira mulher transsexual da história, tendo sido a primeira a submeter-se a uma cirurgia de mudança de sexo, que, infelizmente, resultou na sua trágica morte. Ambas estas figuras eram artistas dinamarquesas, boémias e com uma história de vida tão complexa como fascinante.

A Rapariga Dinamarquesa Eddie redmayne

Por muito que A Rapariga Dinamarquesa possa ser publicitado como uma corajosa narrativa transgénero, todo o filme é construído por Tom Hooper como um tépido exercício de cinema de prestígio, com os Óscares sempre presentes como derradeiro objetivo de todo o projeto. Nunca isso é mais aparente que no trabalho de Eddie Redmayne. O ator, muito provavelmente, irá arrecadar mais uma nomeação pela que é, possivelmente, a mais desastrosa interpretação na sua promissora carreira.

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Na primeira metade do filme, há uma cena em que Lili, ainda na persona de Einar, confessa que se apresentar como homem é sempre uma performance e que apenas é confortável como mulher, mas o trabalho de Redmayne nunca transmite tal coisa. Inicialmente, o carácter performativo da sua transformação em mulher parece ser justificado, mas, à medida que o filme avança, o desconforto e esforço nunca desaparecem do trabalho do ator, pejado de tiques nervosos e gestos forçosamente coquetes. Isto apenas piora nas cenas mais emocionais em que o ator vai demarcando os momentos mais dramáticos com um abandono momentâneo dos seus maneirismos, desastrosamente salientando como nas suas mãos, Lili nunca é mais que uma personagem a servir de exercício técnico para o ator. Lili nunca é credível como a verdadeira identidade da protagonista, o que subverte toda a mensagem que o texto tenta apresentar à audiência. Poucos atores em 2015 tanto trabalham contra a ideologia do seu próprio filme, por muito inadvertido que seja esse desajeitado esforço.

A Rapariga DInamarquesa

Infinitamente superior à manienta e desconfortável prestação de Redmayne é o trabalho de Vikander. Esta estrela em ascensão do cinema atual, é uma fonte de refrescante vitalidade num filme que é constantemente sufocado pelas suas aspirações a importância e respeitabilidade. A atriz parece ter escolhido interpretar a sua personagem com uma postura e leveza decididamente contemporâneas, fugindo aos pormenores de época que o seu coprotagonista tanto tenta exacerbar. Mesmo assim, Vikander não é, de todo, auxiliada pelo trabalho de Tom Hooper, que, com o seu constante uso de grandes planos, apenas salienta quão perdidos estão alguns dos atores sob a sua direção.

A Rapariga Dinamarquesa Alicia Vikander

Por muito que o título e o guião nos apontem para o filme como uma obra fortemente continental, com o seu foco na Dinamarca e em França, Hooper parece sempre olhar as localizações da sua narrativa com a mesma distância com que olha as suas personagens. O mundo de A Rapariga Dinamarquesa nunca parece vivido, reduzindo-se sempre a uma mera decoração sem grande relevância dramatúrgica. Mesmo os figurinos, essenciais na credível transformação de Lili, nunca são mais que belos, mas vácuos, adornos, pontuando o filme com cores e texturas interessantes, mas nunca ajudando a estabelecer a palpável realidade de uma era passada, ou iluminando algo sobre as figuras humanas que se passeiam pelo filme como afetadas modelos numa passerelle. Como tudo neste filme, os visuais são agradáveis e competentes, mas, tirando a triste palavra “bonito”, poucas expressões servirão para caracterizar a infeliz mediocridade superficial que é a concretização formal de A Rapariga Dinamarquesa.

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Apesar das boas intenções de toda a equipa por detrás deste filme, num panorama em que, na televisão, narrativas transgénero estão a ganhar cada vez mais complexidade e ousadia, a abordagem narrativa e estilística de A Rapariga Dinamarquesa transpira de uma respeitabilidade e segurança que nada fazem, se não limitar as possibilidades dramáticas e humanas de todo o edifício do filme. Talvez nas mãos de um realizador menos seguro ou tragicamente superficial, o material pudesse ter alcançado maiores glórias e fugido à tragédia entediante em que se acaba por converter.

A Rapariga DInamarquesa

Apesar de todas as suas fragilidades, A Rapariga Dinamarquesa é uma rara preciosidade ao mostrar uma narrativa transgénera num contexto de época, revelando que tais questões não são um fenómeno exclusivo da atualidade. Para quem se interessar por este tipo de narrativas históricas ou por cinema de cariz biográfico o filme poderá conter consideráveis prazeres, sendo que a história verídica que o inspirou é inegavelmente fascinante. Pelo menos, esta é uma obra essencial para quem desejar manter-se dentro das conversas sobre a presente Awards Season.

Em janeiro saber-se-á se os esforços de Hooper e da sua equipa lhes valeram de algo e capturaram a atenção da Academia de Hollywood, por muito que A Rapariga Dinamarquesa se perca devido aos seus respeitáveis esforços.

CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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