"À Solta na Internet" © Zero em Comportamento

À Solta na Internet | Entrevista aos realizadores e protagonistas

À Solta na Internet é o novo filme da Zero em Comportamento. Partilhamos a entrevista com os realizadores e as 3 atrizes deste documentário.

Estreia no próximo dia 28 de outubro um dos documentários europeus mais comentados do último ano. “À Solta na Internet” é o novo filme da distribuidora independente Zero em Comportamento a chegar às salas de cinema e que trata de uma intensa caça a predadores sexuais de crianças. Com argumento e realização de Barbora Chalupová e Vít Klusák, neste filme somos convidados a assistir a sequências chocantes, para tentar decifrar o comportamento destes predadores que, por sua vez, acabam por tornar-se presas nesta poderosa história.

Para a concretização deste documentário, foram contratadas três jovens maiores de idade – Anežka Pithartová, Sabina Dlouhá e Tereza Težká -, com uma aparência bastante juvenil e que acabaram por passar por miúdas de 12 anos, com a criação de perfis falsos nas redes sociais, entre as quais Facebook e Skype. Seguimos cada uma das suas experiências no contacto direto com os predadores que regularmente lhes pedem para enviar fotos explícitas do seu corpo. Não foi uma tarefa fácil, nem para os realizadores nem para as atrizes, que muitas vezes acabam por ser afetadas pelas emoções, mas também por algumas boas surpresas, num mundo online cada vez mais corrompido e que poucas vezes tem em consideração os direitos de menores. Saímos da sala de projeção com o som das chamadas de Skype na cabeça, para evidenciar essa ferramenta repetitiva utilizada por homens que têm pouca consciência do seu gravíssimo erro.

Desta forma, para captar a tua atenção para este documentário que estreia nas principais salas de cinema de Portugal, partilhamos a entrevista da Zero em Comportamento com os nomes deste filme, precisamente a dupla de realizadores e as suas atrizes. Barbora Chalupová, Vít Klusák, Anežka Pithartová, Sabina Dlouhá e Tereza Težká falaram-nos de uma experiência intensa, que os fez questionar uma série de coisas, mas que no fim acabou por ser feita para o bem comum, para compreender “o problema de uma maneira mais minuciosa. Aliás, “À Solta na Internet” não só questiona estes predadores sexuais, como também a questão da privacidade e até de condenação destes atos pelas próprias redes sociais, que pouco ou nada fazem para responder a este problema.

Trailer do documentário “À Solta na Internet”

Quando é que decidiu seguir em frente com a ideia do filme “À Solta na Internet”?

Barbora Chalupová: Aconteceu quando eu vi pela primeira vez as estatísticas relativas à segurança das crianças na internet. Tive muita dificuldade em conseguir visualizar esses números e fiquei ainda mais em choque, quando criámos um perfil falso de uma inocente jovem de 12 anos de idade, e rapidamente recebemos várias mensagens de 83 homens, com idades entre os 23 e 63 anos, e que referiam inclusive masturbação mútua pelo Skype.

Foi então que o Vít contou-me uma história que foi a minha porta de entrada para o documentário. Ele disse-me que a sua filha mantinha uma conversa muito íntima – incluindo fotografias nuas dela própria – com um homem com a idade dele. Quando a filha voltou a casa, ele e a sua mulher estiveram à conversa com a filha, que confessou o sucedido e ainda disse que não era a única. Estávamos perante uma situação complexa e que precisava de ser combatida de uma determinada maneira.

À Solta na Internet
Vít Klusák e Barbora Chalupová em “À Solta na Internet” © Zero em Comportamento

É por isso que o filme torna-se uma espécie de perseguição aos predadores? 

Barbora Chalupová: Nós queríamos mostrar de forma bastante pormenorizada, as manipulações utilizadas pelos predadores sexuais no seu contacto com as crianças. Obviamente, já tínhamos consciência da fragilidade ética do processo e, como tal, estivemos reunidos com especialistas, tanto psicólogos, como uma sexóloga, um advogado e até polícia. O objetivo era passarmos uma certa verdade destes casos e enfrentarmo-las sem subterfúgios. Se tivéssemos feito uma reportagem aprofundada somente com os especialistas tenho a certeza que não teríamos o mesmo resultado, nem o público entenderia o que se passa.

Como foi selecionar as três atrizes que interpretaram as meninas de 12 anos?

Vít Klusák: Nós queríamos atrizes com aparência autêntica, e não estávamos interessados numa questão de representação. Obviamente, acabámos por ter a Tereza no filme, que é uma verdadeira atriz vida da Faculdade de Teatro DAMU. Já a Sabina Dlouhá e a Anezká Pithartová nunca tinham estado à frente de uma câmara! Eu e a Barbora queríamos que o público vive as três como crianças.

Como é que o Vít e a Barbora ajudaram as três protagonistas de “À Solta na Internet”? 

À Solta na Internet
Vít Klusák e Barbora Chalupová e equipa técnica em “À Solta na Internet” © Zero em Comportamento

Vít Klusák: Fizemos com que as atrizes tivessem encontros reais com crianças das idades das suas personagens, de forma a que conseguissem adoptar os mesmos comportamentos, ou seja, o seu modo de falar, de escrever. Pedimos a cada uma delas que redigisse um relatório, para que nada fosse esquecido. Lembro-me da Tereza ter falado com uma prima mais nova e de ter criado um grupo do Messenger com as suas amigas para perceber certas atitudes e também os GIFs, emojis e abreviações utilizados. Além disso, também prestámos um certo cuidado aos erros de escrita feitos pelas crianças, para que as mensagens enviadas aos homens que as procuram mantivesse a autenticidade.

No documentário vemos que foram criados quartos e roupas num estúdio para que as atrizes conseguissem habituar-se a esta ideia de ter 12 anos. O que mais foi feito? 

Vít Klusák: Além dos espaços, tivemos a ajuda da maquilhadora Barbora Potuznikova, que referia o quanto as maçãs dos rostos das crianças pré-adolescentes são diferentes de jovens de 18 anos. Tivemos esse cuidado. Depois tivemos inclusive um cuidado especial com a meteorologia. O diretor de fotografia Adam Krulis recriou a luz do dia de acordo com as supostas moradas que as personagens das atrizes davam a quem as contactada. Quando estava nublado, por exemplo, em Pilsen, ele desligava as luzes junto à janela do quarto da nossa Niky Komárkóva de 12 anos.

Porque razão a Anežka, a Sabina e a Tereza decidiram entrar no filme?

Tereza Težká: Antes do documentário, eu não fazia ideia do problema do abuso de menores na internet. Eu quando tinha 12 anos nunca fui abordada e, pensava que a internet era mais segura nos dias de hoje, quando na realidade é o contrário. Quis fazer parte do projeto por ser uma questão que precisa de ser discutida e até corrigida.

a solta na internet
©Zero em Comportamento

Anezká Pithartová: Eu concorri ao casting porque queria ter uma experiência em cinema. A única coisa que pediam era a aparência jovem e portanto, tendo em conta o meu ar, eu decidi seguir em frente. Lembro-me na puberdade perguntarem-me porque é que eu era tão pequena e eu nunca soube responder. Acho incrível poder utilizar esta minha característica para um filme tão útil.

Sabina Dlouhá: Eu decidi entrar no filme porque acho importante às crianças de 12 anos aperceberem-se da intemporalidade da internet. Penso que o assunto deve ser repetidamente abordado.

Qual foi o momento mais complexo na rodagem de “À Solta na Internet”? 

Sabina Dlouhá: Acho que nada se pode comparar com a minha primeira chamada Skype. Eu não tinha ideia nenhuma de como é que estas coisas poderiam acontecer e fiquei perplexa.

À Solta na Internet
Anežka Pithartová, Sabina Dlouhá e Tereza Težká

Tereza Težká: Não é uma questão muito fácil de responder, porque para mim todos os momentos foram difíceis, por uma razão específica. Lembro-me quando um dos predadores colocou as minhas fotografias online e começou a fazer chantagem. Eu aí esqueci-me que as fotografias eram montagens e não exatamente o meu corpo. Ou por exemplo, quando eu saía das chamadas do Skype, pelo meu nervosismo e risos perante as coisas absurdas que um predador me dizia.

Anezká Pithartová: Eu não consigo referir uma experiência péssima, mas entrei praticamente em pânico por dar conta que o abuso de menores decorre um pouco por todos os lados. Lembro-me que a minha perspetiva mudou quando vi um documentário sobre os abusos sexuais das crianças na igreja. Parece estranho, mas tive a sensação de que todos os homens são predadores e de que todas as crianças são abusadas.

À Solta na Internet
Os quartos criados em estúdio para “À Solta na Internet” © Zero em Comportamento

Barbora Chalupová: Como realizadora, digo que o processo mais complexo foi a montagem. Tive que rever tudo de novo, ao detalhe, tanto do que se passou nos estúdios como nos encontros pessoais decorridos entre as atrizes e aqueles homens. Tive que observar as sequências com uma certa distância e decidi que esta é uma das coisas que não quero voltar a ver para o resto da vida. Foi preciso encontrar um equilíbrio entre o nível de “nojo” para que o filme mostrasse a realidade da situação, mas ao mesmo tempo fosse algo que as pessoas conseguissem ver.

Têm alguma recomendação para as crianças ou pais que viram o filme?

Tereza Težká: É muito importante que as crianças percebam que têm o apoio completo dos pais. Que podem confiar nos pais a 100%. Como viram no filme, e como eu experienciei com a minha própria pele, é muito fácil ficar preso nisto. Nós não contactámos um único predador. Quando estávamos a falar com os predadores, seguimos todas as regras com muito cuidado do que poderíamos escrever ou dizer. Mesmo assim deparamo-nos com situações inacreditáveis. Também é muito importante para um pai que esteja em constante alerta sobre o que os filhos vêm nas redes sociais. Não de forma rígida, utilizando a comunicação. Tentar perceber o que a criança gosta nas redes sociais.

Anezká Pithartová: Exato, a comunicação é o mais importante, assim como a confiança. Nessa idade as crianças interrogam-se sobre o seu corpo e sobre a sua sexualidade e os pais deveriam falar com elas para que o assunto nunca chegue a ser um tabu. A internet não é única e exclusivamente um local de eleição destes predadores e nela existem outras tantas coisas. Acho que é preciso ter uma atenção redobrada.

À Solta na Internet
O backstage do documentário “À Solta na Internet” © Zero em Comportamento

Sabina Dlouhá: Na minha opinião, acho imprescindível os pais verem “À Solta na Internet” com os seus filhos. Acho uma oportunidade única para que o assunto possa ser discutido tranquilamente. Não é preciso os pais proibirem os seus filhos de navegarem pela internet, mas há que apontar o dedo quando existem falhas, quando se deparam com estes perigos. A internet é também um espaço de inspiração, onde poderemos encontrar coisas maravilhosas e até conhecer pessoas maravilhosas.

Vít Klusák: Nós realizamos o filme com o propósito muito especial. Queremos que “À Solta na Internet” desperte uma discussão social, de forma a serem encontradas ideias que se convertam em legislação europeia para proteger as crianças destas circunstâncias tão alarmantes. Quem está envolvido deveria sofrer as consequências e devemos gastar todas as nossas energias para preveni-lo. Depois é importante darmos às crianças outras ferramentas, outras brincadeiras para que percebam que a internet não é a única coisa deste mundo. A vida pode ter outro sentido sem que estejamos todo o dia em frente de um computador, de um telemóvel ou de um tablet.

“À Solta na Internet” tinha estreia marcada nos cinemas para 21 de outubro, mas foi adiado para 28 de outubro. 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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