14º IndieLisboa | I Am Not a Serial Killer, em análise

I Am Not a Serial Killer conta a história de um adolescente desajustado que julga ser um sociopata e se vê envolvido numa trama sobrenatural com aliens à mistura. O filme integra a secção Boca do Inferno do 14º IndieLisboa.

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Adolescentes ostracizados pelos seus colegas, jovens solitários que se sentem isolados e diferentes de todos os que os rodeiam são, neste momento, uma figura bastante comum no panorama do cinema contemporâneo, especialmente no cinema americano. Quer seja em filmes independentes, ou grandes produções feitas a pensar no público juvenil, tais personagens tornaram-se quase um cliché, por muito genuínas que sejam as situações e personalidades representadas. Um usual problema deste tipo de personagens, especialmente quando são os protagonistas dos filmes em que se inserem, é o modo como, na sua defesa da diferença, tantos cineastas acabam por mostrar uma estrondosa hipocrisia, usando atores bem-parecidos e carismáticos ao mesmo tempo que limam as arestas das personalidades em questão para que o público possa facilmente simpatizar com os “heróis” da narrativa.

I Am Not a Serial Killer, adaptado do romance homónimo de Dan Wells, é outra entrada no cânone dos filmes de adolescentes com protagonistas ostracizados, diferentes e isolados. Uma grande diferença entre este projeto e outros tantos que tais é, no entanto, o modo como os cineastas estão completamente dispostos a distanciar o público do seu protagonista. John Wayne Cleaver, interpretado por Max Records, chega mesmo a identificar-se a si mesmo como um sociopata com o potencial de se tornar um serial killer. Essa ideia é várias vezes corroborada pelas palavras do seu psicólogo, que reconhece no rapaz os sinais clássicos de um potencial assassino em série como, por exemplo, uma propensão para a violência contra animais.

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Para atiçar ainda mais as chamas da potencial monstruosidade de John, ele é retratado como um jovem obcecado com as mórbidas histórias de psicopatas e serial killers do passado americano como Jeffrey Dahmer. A sua presença no trabalho da mãe e da tia numa morgue não ajuda a reabilitar a sua imagem, mas uma coisa é certa, John não quer tornar-se num dos assassinos que tanto o fascinam. Para evitar esse mesmo destino ele construiu mecanismos para encarar situações de stress. Uma das suas técnicas habituais é mesmo o esboçar de um sorriso e a oferta de um amistoso elogio às pessoas que mais nele despertam a intenção homicida, como é o caso dos bullys da sua escola.

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De modo a manter-se a si mesmo preso a uma ideia de “normalidade”, John chega mesmo a manter proximidade com Max, um rapaz a quem ele chama de melhor amigo. Num dos momentos mais interessantes de I Am Not a Serial Killer, o nosso protagonista chega mesmo a admitir ao seu “amigo” como a sua amizade é uma ficção, um meio pelo qual ele se sente “normal”. Quando recordamos outras passagens anteriores, nomeadamente um confronto entre John e o seu reitor, começamos a entender como, para John, as noções suburbanas de “normalidade” acabam por ser um jogo performativo, um exercício de faz-de-conta em que o intérprete tenta tornar a ficção da sua personagem social numa realidade.

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Alguns leitores poderão estar a refletir sobre tais ideias e a pensar para consigo mesmos: “mas isto é o comportamento de um sociopata ou de um adolescente “comum”?. De facto, essa ideia, que o filme deixa frustrantemente inexplorada, é a parte mais interessante de todo este projeto. Existe a leve sugestão que a sociopatia pressuposta de John é somente uma maneira do jovem aceitar e categorizar os seus complicados impulsos antissociais. Por exemplo, num acesso de fúria, ele grita com a mãe e explica-lhe que, sendo ele um sociopata, ela e os outros humanos à sua volta são pouco mais que objetos para ele, mas isso é completamente desaprovado pelas suas reações aos acontecimentos do ato final da história. Records, que ganhou alguma fama entre cinéfilos pela sua participação em O Sítio das Coisas Selvagens, dá o seu melhor na concretização desta complicada e contraditória personagem, mas muitas vezes ficamos com a impressão que é o próprio realizador a impedir o ator de levar o seu estudo de personagem até lugares interessantes pois, para John, não é só a “normalidade” que se torna um rótulo performativo mas também a sua mesma autoidentificação como “sociopata”.

Atenção que a possibilidade de John ser somente um banal adolescente desajustado não invalida que, ao longo da narrativa, as suas escolhas sejam quase sempre motivadas por puro egoísmo e imaturidade. Afinal, quando confrontado com uma série de assassinatos na comunidade local, a reação de John não é terror ou empatia para com as vítimas, mas sim um fascínio clínico com os seus corpos dilacerados. Quando ele finalmente descobre o autor dos homicídios e percebe que há uma componente sobrenatural no imbróglio, tenta criar um cenário em que a polícia se depare com o culpado, mas só consegue que os agentes sejam vitimados, decidindo depois entrar num jogo de gato e rato com o monstro à solta na vizinhança. Uma das suas jogadas chega mesmo a incluir a possível agressão de uma idosa inocente como modo de atormentar o verdadeiro assassino.

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Ao longo de tudo isto, os cineastas de I Am Not a Serial Killer não se poupam em grotescos efeitos práticos e enchem o filme com muito sangue e vísceras. No entanto, aquando do clímax, quando CGI entra em cena, a qualidade plástica começa a deteriorar-se consideravelmente. Esse é somente um problema técnico, sendo muito mais graves outras fragilidades como a natureza seca, quase entediante, de toda esta aventura. Uma abordagem apática face à história seria justificável se entendêssemos que o filme está a tentar retratar a perspetiva do seu protagonista mas a verdade é que o realizador Billy O’Brien mantém-se sempre à distância do seu protagonista, preferindo uma análise superficial das suas atitudes que qualquer tipo de estudo de personagem imersivo.

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Essa falta de emoção, essa distância alienante, engloba mesmo todas as figuras humanas em cena, reduzindo mesmo as vítimas dos homicídios a pouco mais que marionetas de carne e osso prontas a serem sacrificadas em nome de uns bons planos de órgãos vitais dispostos numa mesa de autópsias. Tal foco nas qualidades mais viscerais e epicúrias da experiência cinematográfica não seria necessariamente negativo, não fosse toda a construção do filme como uma narrativa baseada em personagens e em narrativas tradicionais. Imaginem Stranger Things sem personagens decentes, muito niilismo à mistura, e um argumento pejado de contradições ideológicas e terão mais ou menos a ideia da qualidade de I Am Not a Serial Killer.  Para além do mais, O’Brien parece confundir a criação de tensão e suspense com a edificação de uma experiência de entediante inação e pausas injustificáveis.

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Tudo isto acaba por ser particularmente trágico pois I Am Not a Serial Killer não é um filme desprovido de valor. Já falamos de Records, mas todos os atores em cena tentam superar os limites do guião com admirável brio. Laura Fraser como a mãe do protagonista e o lendário Christopher Lloyd no papel do vizinho misterioso de John são particularmente exemplares, dando maturidade emocional a um filme carente de tais sofisticações. Para além do mais, o trabalho em 16mm do diretor de fotografia Robbie Ryan é exemplar, trazendo um visual granulado, meio anacrónico, mas profundamente belo e texturado à banalidade de uma localidade gelada no Midwest americano. Enfim, no final não há suficientes imagens de plumas de fumo industrial a pintarem um céu de inverno para salvar I Am Not a Serial Killer, mas Ryan bem tenta.

 

I Am Not a Serial Killer, em análise
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Movie title: I Am Not a Serial Killer

Date published: 2017-05-07

Director(s): Billy O'Brien

Actor(s): Max Records, Christopher Lloyd Laura Fraser, Christina Baldwin, Raymond Brandstrom

Genre: Drama, Comédia, Terror, Thriller, 2016, 104 min

  • Cláudio Alves - 55
55

CONCLUSÃO

I Am Not a Serial Killer é uma amálgama de oportunidades perdidas e ideias ora confusas, subdesenvolvidas ou contraditórias que, mesmo assim, exibe suficientes aspetos de valor que seria injusto chamarmos-lhe um total fracasso.

O MELHOR: A modesta beleza da fotografia de Robbie Ryan que, depois deste filme, American Honey, A Caminho do Oeste, Monte dos Vendavais e Aquário, se pode bem considerar como um dos melhores diretores de fotografia do cinema atual.

O PIOR: O ritmo e modulação tonal são abjetas aberrações, mas, a um nível mais formal, a sonoplastia do filme é muito pueril, contaminando ainda mais uma experiência que já não era nada de especial para começar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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