14º IndieLisboa | El mar la mar, em análise

El mar la mar é um poema cinematográfico onde impressões fugazes e aterrorizantes assombrações pintam uma visão apocalíptica do deserto de Sonora.

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Seria fácil assumir que, mediante a presente conjetura política, um filme documental sobre o Deserto de Sonora e as experiências de travessia de mexicanos sem documentação rumo aos EUA seria uma obra de incomensurável cariz político, talvez até panfletário. El mar la mar, uma colaboração entre os cineastas Joshua Bonnetta e J.P. Sniadecki, não é despido de teor político, mas a sua abordagem a este tema e localização poderá vir a chocar muitos espetadores em busca de um filme mais claro na sua argumentação, mais furioso, ativista e concreto. Esta última faceta é especialmente importante, pois o filme em questão está infinitamente mais perto da abstração audiovisual que da investigação jornalística.

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Desenvolvido no Laboratório de Etnografia Sensorial organizado pela Universidade de Harvard, El mar la mar nasceu precisamente de uma tentativa de testar os limites da representação do real no documentário. Isto foi feito através de experimentações focadas na experiência sensorial que mecanismos cinematográficos podem proporcionar ao espetador. Pela sua parte, os cineastas não podiam ser mais claros no que diz respeito a intencionalidade formal e abordagem estética. Logo na primeira secção do filme, intitulada “Rio”, Bonnetta e Sniadecki oferecem-nos um só plano, cujo zoom extremo e agressivo movimento horizontal tornam praticamente impossível a perceção do que efetivamente está a ser filmado. É só quando a imagem se distância do objeto, que o espetador pode começar a perscrutar pelo meio das manchas de luz e cor, uma cerca a rasgar o deserto.

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Estes minutos iniciais servem como uma espécie de teste para o público do filme. Se apreciaram este momento, fiquem nos vossos lugares, se não tiverem paciência para tais abstrações cuja natureza política é mais tangencial que direta, então não vale a pena torturarem-se a vós mesmos. Tal análise pode ser um pouco injusta para com a misteriosa beleza e ominosa qualidade desta introdução, mas é fácil assumir, pela estrutura do filme, que o corpo principal da obra é a sua segunda parte, “Costas”, ao qual se segue um poderoso epílogo que dá pelo nome de “Tormenta”.

Em “Costas”, os cineastas apresentam-nos uma visão bem particular deste deserto, pintando a sua vastidão como um terreno venenoso que parece ter sido concebido com o singular intuito de aniquilar qualquer vida humana que por ele ousasse passar. Grutas cavernosas enchem-se com o movimento de morcegos, plantas desdobram-se em lâminas verdes e espinhos aguçados que rasgam a imagem em sequências noturnas elevadas pela sonoplastia ao patamar de pesadelo cinematográfico e, sob a luz imperdoável do sol, fragmentos de existência humana são consumidos na topografia da paisagem. São essas imagens, de garrafões de água espalhados pela terra, de calças abandonadas entre rochas, de papéis e cartões SIM a serem progressivamente tapados pelos ventos arenosos, que mais impacto têm no espetador. Isolados, esses planos teriam pouco valor ou significado.

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É na sua conjugação com o impressionista retrato paisagístico, com a sonoplastia assombrosa e com a informação que nos vai sendo relatada que se ganha o seu poder. Ao longo de “Costas”, os cineastas vão introduzindo entrevistas áudio feitas a várias pessoas dos dois lados da questão da imigração ilegal, sobreviventes da travessia, rangers cujo trabalho é impedir a entrada dos indivíduos nos EUA e ainda vários americanos que vivem na zona do Arizona que engloba a orla do deserto. Os seus testemunhos vão do místico, como a história de um monstro ancestral descrito pelos povos indígenas, ao lacerante, como é o caso das muitas palavras sobre o estado de cadáveres encontrados pelo território ou as chorosas confissões de homens que deixaram para trás irmãos incapacitados no meio do mortífero deserto. Como que para fugirem a acusações de estetização indevida, Bonnetta e Sniadecki deixam que El mar la mar pare a sua torrente de estímulos audiovisuais para ouvir essas vozes, ora em ecrãs negros ou planos gerais do horizonte enevoado.

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Já falamos acima de como o filme faz mais parte de uma tradição de cinema abstrato do que de cinema jornalístico, mas existe uma qualidade bem política a tais relatos e a solenidade como são apresentados. Sem auxílio de imagens ilustrativas ou bandas-sonoras que delineiam a reação pretendida, o espetador é obrigado a confrontar as palavras das entrevistas sem filtro, sem facilitismos dramáticos e sem sequer a benesse de uma cara à qual associar as experiências relatadas. Para além do mais, a escassez de presença humana neste filme impressionista leva a que o espetador naturalmente se agarre às vozes como a um bote salva-vidas num mar de indefinição confusa e assim fique duplamente agarrado à agonia por eles descrita.

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Até ao episódio final do filme, as imagens são, como já descrevemos, balançadas no limiar entre a materialidade visceral do deserto e a abstração lírica da abordagem estética. Nos seus derradeiros minutos, no entanto, o filme abandona qualquer noção de imagética documental ou concreta, para nos mergulhar numa sonolenta procissão de tableaux apocalípticos, em que um dilúvio se abate sobre o deserto numa tempestade de grão e baixa luminosidade que apaga qualquer detalhe discernível do ambiente natural. Na banda-sonora, uma voz declama um poema da autoria de  Sor Juana Inés de la Cruz. Discórdia, terror, angústia, medo e morte reinam sobre esta paisagem, sobre este mundo em que El mar la mar aprisiona o espetador durante 94 minutos difíceis de suportar. Esta é, sem dúvida, uma das mais singulares experiências cinematográficas que o 14º IndieLisboa nos está a proporcionar e deve ser valorizada, nem que seja pela sua pura audácia.

 

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El mar la mar, em análise

Movie title: El mar la mar

Date published: 7 de May de 2017

Director(s): Joshua Bonnetta, J.P. Sniadecki

Genre: Documentário, 2017, 94 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO

El mar la mar propõe uma experiência de abstração audiovisual emparelhada com horrendos relatos de sofrimento humano que contornam simultaneamente o político e o lírico, para conjurarem um híbrido desconcertante e poderoso.

O MELHOR: As passagens mais hipnóticas e imersivas do filme, como é o caso de uma coleção de planos em que chamas rompem com a escuridão noturna do deserto, um pesadelo sónico que torna vegetação em monstros sombrios e, é claro, os minutos finais do filme.

O PIOR: A secção intitulada “Costas” tende a ser um pouco repetitiva de mais nos seus ritmos e propostas imagéticas, deixando ocasionalmente de ser hipnótico e imersivo para passar a simplesmente ser soporífero.

CA

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