Angry Birds – O Filme, em análise

Chega finalmente às salas de cinema a adaptação do jogo Angry Birds, mas o resultado não poderia ser mais desastroso.

Ao que parece o cinema familiar não está nos seus melhores dias. Depois de Alice do Outro Lado do Espelho não conseguir encantar tanto como o primeiro, chega esta semana às salas de cinema outro filme igualmente aborrecido, mero produto comercial, que não consegue sustentar as suas piadas por muito tempo. Falamos, nada mais nada menos, de Angry Birds – O Filme, a adaptação do jogo (certamente terá a aplicação no seu smartphone), criado em 2009, pela empresa Rovio Entertainment, sediada na Finlândia e que já teve mais de 3 mil milhões de downloads em diversas plataformas.

Como se já não bastasse o produto comercial dos jogos – relembramos as supérfluas adaptações de Resident Evil, e as expetantes estreias futuras de Warcraft e Assassin’s Creed  -, Angry Birds perde-se nos interesses da sua produtora (a Sony) em atingir avultadas receitas de bilheteira, cansando-se a si mesmo, como a nós espetadores, pelas múltiplas referências à cultura popular.

Angry Birds

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Angry Birds segue as pisadas de uma ave rejeitada, uma espécie de ‘underdog’ da animação ao estilo de Spider-Man, Harry Potter, ou Rocky Balboa, tendo em conta o seu apetite por luta. Esse protagonista, de nome Red (Jason Sudeikis), apercebe-se da ameaça de visitantes estrangeiros (rudes porquinhos verdes), ao contrário dos outros habitantes do remoto local onde vive, a Ilha dos Pássaros. Com a ajuda de amigos, o veloz Chuck (Josh Gad, com a Sony a querer roubar o efeito ‘Olaf’ de Frozen), a paciente Mathilda (Maya Rudolph), o explosivo Bomb (Danny McBridge) e o silencioso gigante Terrence (Sean Penn), Red tentará salvar o mundo ao evitar que os ovos dos seus companheiros sejam cozidos. O filme até começa bem, com uma diversidade de personagens (com patas) e cores próximas de Zootrópolis, da Walt Disney ou de O Panda do Kung Fu 3, da Dreamworks, conseguindo encantar pelo seu estilo em 3D, muito mais do que o jogo em duas dimensões. Todavia a narrativa só parece acrescentar, à medida que decorre, mais água a uma sopa sem sal, rica apenas em clichés. É que Angry Birds é um daqueles exemplos de que só assistindo ao trailer, sentimos que desvendamos toda a história.

De facto, Angry Birds não conta uma história efetivamente rica e bombástica, como uma das suas personagens, de longe a mais interessante, faz crer. Pelo contrário, situa-se no registo de pura tolice e, por vezes, de piadas como conotação sexual quase a serem proferidas – para bom entendedor, meia imagem basta – no sentido de atingir uma comédia mais adulta. O resultado aborrece os pais que levaram os seus filhos para assistir uma animação infantil que deveria, mais ou menos, ir ao encontro das produções da Disney e/ou Pixar. Apesar disso, Angry Birds acarreta influências dessa que uma das maiores marcas do planeta.

Angry Birds

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Red é, sem margem para dúvidas, uma recriação  da personagem Raiva do filme Inside Out – Divertidamente; Chuck parece ser ‘Dash’ Parr, o miúdo veloz de The Incredibles – Os Super-Heróis, para já não falar de Terrence, um Hulk um quanto avermelhado. Quanto aos porquinhos satânicos, um deles parece uma espécie de profeta, quer dizer, se pensar melhor, tem uma versão totalmente verde de O Feiticeiro de Oz, com os seus truques e poderosas maquinarias a iludir os inofensivos pássaros. O líder Leonard (Bill Hader) é o rei numa terra sem ordem, onde, aquando da chegada dos pássaros, parece ir buscar o nevoeiro a Como Treinar o Teu Dragão.

Por isso, pela esquizofrenia de referências culturais e populares, Angry Birds nunca consegue demarcar o seu terreno de originalidade. Mesmo assim, são válidas as picadas a Hamlet ou a The Shining, algo que não passará despercebido aos mais velhos. Na verdade, o jogo é dominado por essa multiplicidade de universos – temos versões de “Angry Birds Star Wars”, “Angry Birds Rio”; “Angry Birds Transformers”, perfazendo uma memória cultural. Num sentido mais lato, é através dos media, e da imagem cinemática nos lembramos de determinadas experiências das nossas vidas, ou seja, Angry Birds parece ir buscar uma herança das nossas memórias infantis, de outros tempos do cinema, para efetivar-se. Contudo, o seu problema é, paradoxalmente, ser mero merchandising desses produtos com os quais crescemos.

Entre as sequências mais interessantes destaque para a cena da batalha, onde a lógica de jogo até tem algum sentido, mas provavelmente tal seria melhor ou mais criativamente contado numa curta-metragem que a Sony Animation ligaria a outro grande projeto, conquistando pontos a seu favor. No final, nada de novo, apenas o caminho deixado em aberto para uma sequela, recaindo novamente nesse paradoxo da bilheteira e de cinema para massas, que se consume num dia excessivamente calorento.

Angry Birds

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O MELHOR – Uma ou outra referência popular mais inesperada.

O PIOR – O facto das sinopses e trailer não convidarem a uma ida ao cinema.


Título Original: The Angry Birds Movie
Realizador:  Clay Kaytis, Fergal Reilly
Elenco: Jason Sudeikis, Josh Gad, Danny McBride, Bill Hader e Peter Dinklage
Big Picture Films | Animação | 2016 | 97  min

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VJ

 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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