14º IndieLisboa | Arábia, em análise

Arábia, o mais recente filme da dupla João Dumans e Affonso Uchoa, é uma acutilante, simples e poderosa odisseia brasileira com um forte teor sociopolítico.

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A potencial obsolescência do realismo social enquanto estética para a criação de cinema político e socialmente consciente tem sido um dos pontos de diálogo mais fascinantes entre os vários filmes na competição internacional do 14º IndieLisboa. Em Pamilya Ordinaryo vimos a exploração abusiva de realidades difíceis em nome do melodrama sensacionalista ser o condutor de uma experiência manchada por contradições ideológicas e padronizadas escolhas estéticas. Por outro lado, Ciao Ciao propôs um estudo em alienação formalista como ilustração de barreiras socioeconómicas e culturais entre gerações. Viejo Calavera trouxe-nos uma dimensão lírica num modelo quase neorrealista. Temos também Arábia, uma peculiar odisseia brasileira com um título inspirado no trabalho de James Joyce. O filme, realizado e escrito por João Dumans e Affonso Uchoa, é o raro objeto de cinema político que consegue encontrar o elusivo balanço entre fúria indignada, necessária sinceridade, inteligente crítica, subtileza formalista e acessibilidade não condescendente, nem para com o público nem para com as suas personagens.

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Arábia tem o seu início com um prolongado plano em que um jovem, chamado André, percorre de bicicleta uma estrada entre as montanhas. Ele dirige-se para a sua casa em Ouro Negro, uma cidade com uma história tingida por opressão colonialista e comércio de escravos e que agora acolhe a exploração de recursos naturais pela força industrial moderna. André, abandonado pelos pais, vive com o seu irmão mais novo que sofre de asma e é regularmente visitado pela sua tia, uma enfermeira local que passa o tempo a tratar dos operários. Certo dia, um dos trabalhadores com quem o jovem se tinha ocasionalmente cruzado cai num profundo coma, e a tia enfermeira pede a André que vá buscar algumas roupas do homem à sua casa, no evento em que ele possa vir a acordar. Nessa habitação, ele acaba por se deparar com um inesperado tesouro sob a forma de um bloco de notas em que o comatoso escreveu o que aparenta ser a história da sua vida.

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O advento da leitura traz consigo o verdadeiro início da narrativa principal de Arábia, sendo que a trama de André tratou-se somente de um prólogo estruturalmente audacioso. Este é o filme da vida de Cristiano, que nos conta em voz-off a sua odisseia pessoal ao longo do Brasil. Depois de ter estado preso, o nosso protagonista fez-se à estrada em busca de trabalho e sustento, acabando por passar por uma série de diferentes trabalhos e regiões. A sua viagem é-nos assim apresentada através de uma série de episódios que, superficialmente parecem banais, mas que acabam por cumulativamente ser pinceladas de um grande retrato, não só de Cristiano, mas também do seu país.

Momentos prolongados de conversas anódinas, anedotas trocadas entre colegas de trabalho, façanhas musicais inesperadas, contos passados de viajante em viajante, histórias de amor abortadas pelo acaso da vida, menções de amigos há muito perdidos… Tudo isto é-nos oferecido por Cristiano nas suas próprias palavras, entre interlúdios de trabalho árduo e deambulação sem destino pelas estradas brasileiras. O Brasil que é assim retratado é um país com uma grave razia de empregos seguros, uma nação em que as pessoas vivem no medo de cair numa vida de crime e em que qualquer indivíduo com um poder mínimo está sempre pronto a abusar daqueles menos afortunados.

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Essa perspetiva não é somente manifesta no texto e estrutura de Arábia, também encontrando lugar para marcar presença na sua construção formal. Veja-se, por exemplo, o uso recorrente de grandes planos gerais, onde a paisagem esmaga a figura humana, mas onde as cores vibrantes da natureza sucumbem aos cinzentos da industrialização e aos rios de alcatrão que traçam estradas pelas suas entranhas. Terra e homem são abusados de igual modo e sua manifestação visual segue a mesma linha de pensamento. Tão constantes como as imagens de grandes campos até onde a vista alcança e de terra queimada, temos tableaux povoados por figuras em notório esforço físico, pessoas cuja força bruta se torna o último recurso a ser explorado e cuja humanidade é sistematicamente negada, convertendo-as em estatísticas ou invisibilidades e sem importância.

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Em Arábia, pelo menos, essas vidas não invisíveis, graças ao poder de contar histórias. Esse foi o intuito dos realizadores, que queriam expor como todas aquelas pessoas invisíveis pelas quais passamos ao longo da nossa vida têm as suas próprias histórias de complexidades sem fim. Evitando cair em inapropriadas condescendências de caridade elitista, os cineastas construíram assim, na figura de Cristiano, uma pessoa que, apesar do modo como é abusado pelo mundo que o rodeia, ainda detém em si algo que está sob o seu controlo e autonomia – a capacidade de narrar e assim dominar a sua história pessoal. Por esse meio, ele revela-se a nós, espetadores, mas também se descobre a si mesmo, ganhando consciência do seu lugar no mundo, do modo como a sua identidade é reduzida por tantas pessoas a simples mão-de-obra descartável e da sua existência e intrínseco valor enquanto ser humano.

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Sob a forma de uma odisseia vivida, passada a uma história lida em reverência curiosa por um jovem da geração seguinte, um conto de realismo social ganha dimensões míticas neste filme. Cristiano é o nosso Ulisses, mas não tem nenhuma Ítaca à qual regressar. Ele acaba por encontrar a sua Penélope, é verdade, no entanto não há nenhuma reunião fabulosa a marcar o triunfante final que, mesmo sem glória, consegue deixar o espetador surpreendido e desconcertado. Por tudo isso, Arábia é um belíssimo exemplo de cinema político. É um poema épico marcado pela modéstia da sua forma e protagonista, que não merece ser menosprezado pela sua simplicidade, mas sim muito celebrado como, aliás, tem vindo a ser desde a sua estreia mundial no Festival de Roterdão.

 

Arábia, em análise

Movie title: Arábia

Date published: 11 de May de 2017

Director(s): João Dumans, Affonso Uchoa

Actor(s): Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Gláucia Vandeveld, Renata Cabral, Renan Rovida

Genre: Drama, 2017, 97 min

  • Claudio Alves - 87
87

CONCLUSÃO

Arábia é uma fabulosa obra cinematográfica que nos oferece uma perspetiva política sob o simples ato de contar histórias, ao mesmo tempo que nos oferece um maravilhoso retrato humanista, mas não por isso menos sôfrego, de um homem e seu país.

O MELHOR: A estrutura narrativa de Arábia, que torna o uso de um dos mecanismos mais mal empregues do cinema moderno, a voz-off, numa ferramenta de genial e poderosa expressão pessoal e autorreflexão.

O PIOR: A modéstia geral do filme, desde a sua narrativa até á sua construção formal, acaba por lhe dar a aparência de uma obra menor, o que é algo triste mas inevitável.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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