ARTE Kino | Vivir y Otras Ficciones, em análise

No documentário “Vivir y Otras Ficciones”, o realizador espanhol Jo Sol explora o tabu da sexualidade de pessoas deficientes com admirável respeito e inteligência. Este filme está disponível gratuitamente no site ARTE Kino, até dia 17 de dezembro.

arte kino vivir y otras ficciones critica

O corpo enquanto objeto político tem sido um dos temas mais curiosamente prevalentes no panorama do cinema dos últimos dois anos. Mesmo no contexto do festival online ARTE Kino, podemos contar, pelo menos, quatro filmes onde pessoas com deficiências ou enfermidades mentais, motoras e anatómicas veem os seus corpos tornarem-se em símbolos vivos de crises sociais que transcendem a carne do indivíduo. Em “Scarred Hearts”, o realizador romeno Radu Jude perscrutou as sombras da Europa pré-Holocausto através do retrato de um jovem poeta paralisado. No caso de “Godless”, idosos senis e negligenciados e abusados por uma enfermeira toxicodependente tornam-se em sinédoques de toda uma nação num processo de apodrecimento pós-soviético. “The Giant” conta a história de um homem autista e gravemente deformado, traçando, a partir daí, uma dissecação da crueldade e dos limites do estado social sueco.

“Vivir y Otras Ficciones” do espanhol Jo Sol é um exemplo com importantes diferenças no que diz respeito à sua abordagem a este tema, sendo que, para começar, o filme é um documentário. Verdade seja dita, este trata-se de um híbrido um tanto ou quanto simbiótico entre documentário e ficção, construindo-se quase inteiramente a partir de cenas claramente encenadas em que os intervenientes se estão a interpretar a si mesmos. No contexto atual, a membrana porosa que delineia as diferenças entre estes dois tipos de cinema está a ser cada vez mais porosa e irrelevante, mas convém denotar os elementos não fictícios desta obra pois, aquando da sua passagem pelo Queer Lisboa, o filme ganhou uma menção honrosa na competição de documentários.

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Independentemente de tais questões de género, “Vivir y Otras Ficciones” é, de facto, um poderoso documento sobre o corpo enquanto objeto político, podendo também ser caracterizado como um grito revolucionário pelo direito ao orgasmo. Pelo menos, presume-se que é assim que o seu protagonista gostaria de se referir ao objeto fílmico. Ele é Antonio, um escritor tetraplégico que decide contratar uma prostituta para poder ter alguma gratificação sexual apesar da sua condição, acabando por agir como um facilitador do mesmo serviço para outros seus conhecidos com problemas físicos semelhantes. A mulher que trabalha para Antonio como empregada e enfermeira mostra-se extremamente ofendida com tais ações, uma reação que é refletida nos amigos não deficientes do escritor.

O mais importante destes amigos é Pepe, uma espécie de coprotagonista do filme e um espelho da solidão e isolamento social sentidos por Antonio. Acabado de sair da prisão e de uma instituição psiquiátrica, ele é um velho cheio de ressentimentos para com a sociedade em geral. Um filho ausente que recentemente voltou a entrar na vida de Pepe serve de talismã humano à solidão venenosa desse homem, cuja moral é, apesar de tudo, ainda muito definida pelas tradições e normas sociais da Espanha católica. Segundo a retórica de Pepe, cada ato de masturbação é um pedaço de inferno e a luta por direitos, se não for feita com o seu ideal de seriedade respeitosa, é somente uma brincadeira.

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Muito do filme vive das discussões entre estes dois homens, mas é claro que Jo Sol está do lado de Antonio, mesmo que permita ao espetador encontrar algumas hipocrisias no seu discurso, especialmente nos seus diálogos com a mulher que tanto cuida das suas necessidades. Para o escritor, é difícil para as pessoas “normais” discutirem os problemas da sexualidade dos deficientes pois isso normalizaria demasiado a vida desses doentes. É fácil sentir-se pena pelo outro, mas realmente aceitar as semelhanças, incluindo ao nível de desejos e necessidades, é algo mais difícil. Nas palavras de Antonio, tais ponderações forçam a pessoa “normal” a ver-se a si mesma na posição do necessitado, a interiorizarem mentalmente a fragilidade da sua própria carne. Para os privilegiados que podem escolher ignorar tais realidades, é mais fácil condenar a sexualidade destas pessoas a algo abstrato.

O próprio cinema é culpado desta sistemática assexualização de corpos tidos como imperfeitos. Afinal, qual foi a última vez que se viu um filme lidar com os desejos de pessoas feias, de idosos, de obesos, ou mesmo de pessoas de etnias discriminadas? Nesse sentido, “Vivir Y Otras Ficciones” é um choque tremendo, um filme que tenta espantar e até repugnar o espetador até que dessa estranheza floresça empatia. Quando, perto do final, um clube noturno se torna num cabaret de corpos “anormais” a reclamarem o seu direito a serem vistos como desejáveis e sexuais, sentimos uma genuína vontade de celebrar e participar nas festividades orgásticas. Infelizmente, como modo de calibrar a perspetiva da audiência, o filme acompanha os seus jogos de choque com grandes monólogos, negligenciando o seu esqueleto rítmico.

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Tal displicência estrutural resulta num filme que, ocasionalmente, cai em momentos mortos e numa geral falta de energia. Com isso dito, as ambições e retórica política da obra muito compensam essas fragilidades e proporcionam momentos que transcendem mesmo o investimento intelectual do espetador e conseguem ativamente comover. Uma interação entre Antonio e a sua prostituta de eleição torna-se num dos momentos mais belos do filme e os interlúdios musicais são algo do outro mundo, propondo um diálogo entre o verso cantado e as ideias ativistas do escritor ao mesmo tempo que embalam o público com a beleza da voz e melodia em comunhão dançada.”Vivir y Otras Ficciones” é assim um filme importante, inteligente, frágil e portador de ideias incrivelmente urgentes sobre como, quando o nosso corpo é um objeto político, o próprio ato de existir se torna numa manifestação militante.

 

Vivir y Otras Ficciones, em análise

Movie title: Vivir y otras ficciones

Date published: 6 de December de 2017

Director(s): Jo Sol

Actor(s): Antonio Centeno, Pepe Rovira, Ann Perelló, Arantza Ruiz

Genre: Drama, Comédia, Documentário, 2016, 81 min

  • Cláudio Alves - 72
72

CONCLUSÃO

Com o seu retrato duplo de vidas solitárias e isoladas de uma sociedade que os trai e rejeita, “Vivir Y Otras Ficciones” é um híbrido entre documentário e ficção que explora um assunto ainda muito tabu, mesmo no cinema mais arriscado do circuito dos festivais. Afinal, pessoas deficientes não anseiam pela mera sobrevivência, também merecem viver.

O MELHOR: As ambições ideológicas do filme e do seu protagonista tetraplégico.

O PIOR: A frouxa estrutura da obra. Um trabalho de montagem mais cuidado poderia ter elevado este filme muito acima da sua presente forma que, apesar de valiosa, denota uma desnecessária humildade formal.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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