Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça, em análise

“Black and Blue. God vs Man. Day vs Night.”, diz o maníaco Lex Luthor, um dos personagens francamente mais interessantes deste Batman v Super-Homem. E mais do que a antevisão de uma luta presumivelmente titânica, o que fica implícito nessa citação é a referência a uma frente de batalha potencialmente superlativa que opõe atualmente a Marvel e a DC Comics nos multiplexes por esse mundo fora.

No mesmo ano em que a DC Comics /Warner Bros. estabelece o seu ano zero com a adaptação do arco “The Dark Knight Returns”, de Frank Miller, a Marvel segue a mesma ideologia de confrontos em grande escala dos seus heróis, no já muito antecipado capítulo da “Guerra Civil”. E as abordagens não poderiam ser mais díspares.

Se a Marvel/Disney se tem apoiado na estandardização dos seus filmes sob o desígnio da cultura pop, com recorrência frequente ao humor e a cenários e figurinos multicolores, onde os seus heróis se encerram num universo cinemático paralelo que privilegia o entretenimento imediato, a DC Comics/Warner Bros. parece seguir o culto dos deuses, onde os seus heróis – carregados de pathos – assumem um carácter messiânico em cenários de inegável negrume e de manifesta densidade dramática, mas também tendencialmente mais próximos da realidade fora do grande ecrã.

Lê Também: Coisas que (possivelmente) Não Sabias sobre Batman v Super-Homem

Tudo isto para dizer que, por muito que a rivalidade seja incontestável, é de realçar – e porque não elogiar – a capacidade de ambos os estúdios em criar universos de natureza tão distinta e até de complementaridade assinalável, neste que é o clímax  da insuflada era cinematográfica dos super-heróis. Temos pena, contudo, que o homem responsável pelas fundações frágeis deste Universo da DC Comics tenha o nome de Zack Snyder.

sam_r4_v11c3_151002_17mj_g_r709f.362886.tif

Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça surge no rescaldo dos acontecimentos de “Homem de Aço”, que deixaram Metropolis desfeita em pedaços, antecipando uma batalha entre o herói de Gotham e o deus kryptoniano alicerçado num interessante debate político e teológico desencadeado no seu primeiro ato. É, aliás, nessa primeira parte – se formos capazes de dividir o filme em duas partes lógicas – que Zack Snyder evidencia alguns dos atributos que o tornaram – há muito, muito tempo, convenhamos – num dos realizadores a olhar com atenção.

Se não vejamos logo a sequência inicial de créditos, onde Snyder privilegia os close-ups e joga com a cinematografia do foco e os slow-motions na construção de um prelúdio clássico e certeiro do jovem Bruce Wayne, e onde a terceira dimensão se torna visualmente agradável. Aqui, Snyder manifestava a sua atenção aos detalhes e, não fosse o que se seguiu, quase lhe conseguíamos desculpar a displicência do ensurdecedor “Homem de Aço”. Mas Zack Snyder ilude-nos por mais uns minutos, com a cumplicidade assumida do excelente lote de atores que compõem o elenco deste Batman v Super-Homem e de algumas ímpetos geniais do – na generalidade muito fraco – argumento de Chris Terrio e do tarefeiro David S. Goyer.

Wes for Publicity

Apresenta-nos desde logo uma versão louca e sádica do vilão Lex Luthor que não podia ter encontrado em Jesse Eisenberg uma melhor charneira de acoplagem entre o ambiente soturno e os necessários (mas pouco reiterados) momentos de comic reflief.  É, aliás, em Jesse Eisenberg que recaem algumas das mais engenhosas linhas de diálogo que merecerão seguramente análises mais minuciosas. Aplaude-se depois o facto de em Amy Adams haver hoje uma Lois Lane mais ativa e preponderante no desenvolvimento da narrativa, afastando-se da visão de donzela em apuros capaz de proferir gritos com níveis de decibéis incomensuráveis, que tantas vezes assola este subgénero. No elenco ainda mais secundário, Jeremy Irons prova que o legado de Michael Caine está em boas mãos, Diane Lane acrescenta um peso emocional que muitas vezes está ausente e Holly Hunter não compromete.

Contudo, a maior boa-nova surge da tão criticada escolha de Ben Affleck para o papel de Batman/Brune Wayne. Affleck, para além de parecer assumir algumas escolhas importantes relativamente ao argumento e realização no arco que concerne ao seu personagem, acaba por arrancar uma sólida prestação como o anti-herói de Gotham. Porventura moralmente mais divisivo que o Batman de Christian Bale (tal como se pretende de um anti-herói), o Batman de Affleck parece também ser sempre mais impenetrável, mais frio e mais rígido (facto exacerbado pelo seu uniforme fiel aos comics), provando que não é imperativa a existência de uma origin story independente para se construir um personagem com um pathos desta dimensão. Mas Affleck faz mais. Se o grande ponto de interrogação que pairava em Batman v Super-Homem se concentrava na prestação do malogrado Daredevil do grande ecrã, Affleck faz questão de passar a batata quente (e o ponto de interrogação) para alguém que esteve sempre mais exposto ao erro: Zack Snyder.

bvs2
Fica evidente que as maiores fragilidades de Batman v Super-Homem se concentram naquilo que este herda de “Homem de Aço” e, por consequência, de Snyder. Desde logo o próprio o Super-Homem de Henry Cavill, insípido e superficial, que faz uma série de escolhas duvidosas no jogo de vida ou morte (como o ridículo falecimento do seu pai em “Homem de Aço” e a contraproducente morte que se vê nos primeiro minutos de Batman v Super-Homem). A culpa não pode ser atribuída na plenitude ao ator britânico  (o seu subtexto é quase irrisório, sendo David S. Goyer aqui o principal culpado), mas a verdade é que Henry Cavill deveria ser, por natureza, mais carismático e menos amorfo. Mas na essência dessa herança de que falávamos está o instinto inato de Snyder em contemplar a explosão seguinte, em admirar como cai o próximo edifício ou simplesmente deleitar-se com o seu tipo de ‘verborreia’ favorita: o CGI.

Lê Também: Versão “R-Rated” de Batman v Super-Homem a caminho

E se há muitos que já defendem que o verdadeiro filme começa apenas na segunda metade dos seus excessivos 151 minutos (embora o tempo  e o passar do tempo nem sejam fatores determinantes, do nosso ponto de vista), permitam então que discordemos: o filme autodestrói-se precisamente nessa segunda parte, que coincide sensivelmente com o aparecimento do risível Doomsday.

bvs

Snyder é um fiel discípulo da expressão “demasiado de tudo”, fazendo vaguear o seu filme – até aqui com algumas ideias bem agradáveis –  para uma miscelânea confusa e sofrível de efeitos visuais. É que, na opção criativa de desvanecer a imagem para tons frios e escuros, o CGI cinético torna demasiados elementos do fotograma impercetíveis, constituindo-se tudo como um grande aglomerado de nada que Michael Bay teria venerado.

Dentro ainda dessa ideologia faraónica de querer fazer o filme dos filmes, Snyder acaba também por introduzir alguns elementos que, apesar de quererem fazer ligação com futuras sequelas, são, paradoxalmente, desconexos. Nestes pequenos rebuçados que Snyder atira lá do ecrã aos fan boys sedentos de cameos, vê-se o aparecimento de personagens como The Flash (Ezra Miller), Aquaman (Jason Momoa) e Cyborg (Ray Fisher) e sequências que sugerem viagens no tempo nos futuros filmes da Liga da Justiça. Excitações momentâneas, nada mais do que isso.

sam_r7_v6_1_150331_06rl_g_r709f.616311.tif

Quem também surge já lá no último ato e cai nos nossos olhos que nem um autêntico rebuçado é a misteriosa Wonder Woman da israelita Gal Gadot. Com uma entrada em cena fulminante (e que alguém não resistiu mostrá-la num trailer dessas centenas de trailers que incrivelmente ainda se fazem hoje em dia), ao som de um tema prodigioso fruto da colaboração entre Hans Zimmer e Junkie XL, Gadot mostrou-nos porque devemos estar ansiosos pela sua incursão a solo em 2017.

Mas o pouco tempo que Wonder Woman surge diante nós não é suficiente para esquecermos o descontrolo de um realizador que, ao fim de tantos falhanços, ainda continua a ser timoneiro de projetos de elevado orçamento.

Contra si, Snyder tem ainda a insolência de evocar Christopher Nolan na derradeira cena, como se já não bastasse estarmos a assistir à ressurreição de Batman pelas mãos de outro homem. É curiosa essa referência ao momento em que Dom Cobb, em “A Origem”, gira o seu totem para um movimento aparentemente perpétuo, deixando ao critério do espectador decidir se Cobb estava no mundo real ou se estava ainda a sonhar. Zack Snyder parece que ainda não parou de ver o totem de Cobb a girar. E nos escombros da destruição do seu próprio filme, resta a certeza de que há material e atores capazes de fazer mais e melhor, se Snyder estiver disposto a não fazer parte desta equação. Se Snyder acordar do sonho.

 


Título Original: Batman v  Superman: Dawn of Justice
Realizador:  Zack Snyder
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Holly Hunter, Jeremy Irons
NOS | Ação, Aventura | 2016 | 151 min


batman v superman_poster[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’]
 


DR

Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *