Beasts of No Nation, em análise

 


O primeiro filme original Netflix é um drama de guerra que evidencia o processo de metamorfose de uma criança em algo possivelmente monstruoso e diabólico.


beasts-of-no-nation Título Original: Beasts of No Nation
Realizador: Cary Joji Fukunaga
Elenco: Abraham Attah, Ama K. Abebrese e Idris Elba
Género: Drama, Guerra
Netflix | 2015 | 137 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’]

 

 

Baseado no romance homónimo do autor nigeriano, Uzodinma Iweala, Beasts of No Nation, sem título português, é uma história de descobertas, num ambiente de rutura com o passado inocente. Agu (Abraham Attah) é um rapaz africano, nascido numa nação sem nome, que perdeu toda a sua família durante um confronto de guerrilhas. Consequentemente, é apanhado pelo conjunto de rebeldes, que integram o grupo da resistência e a partir daí, terá que obedecer ao Comandante (Idris Elba), uma espécie de mestre na sua transformação.

Engolido por um caminho sem rumo, Agu habita um território sem localização exata – numa preocupação do enredo em encarar a temática globalmente -, por isso não nos é dada qualquer informação adicional sobre o porquê do conflito, uma vez que todos pressupomos o que o causa. Invadindo aldeias, Agu e a sua nova ‘família’ conhecem o ponto horrendo da situação, sendo capazes de a danificar ainda mais.

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Beasts of No Nation

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Face à situação vivida, surge a ONU (a organização mundial parece estar por todo o lado, para reportar a situação) e por métodos mais noticiosos, os seus fotógrafos captam imagens dos soldados de forma crua. Neutros às cenas horripilantes de guerra, porque só pretendem realizar o seu trabalho  esse profissionais são encarados como fantasmas aos olhares dos rebeldes. Nessa crítica ao médium fotográfico será então, primordial a intervenção do cinema, pelas suas infinitas narrativas aptas na chamada de atenção a políticos e soberanos.

De grosso modo, a sétima arte precisa de projetar, ainda mais nesta era digital, a verdade desumana que abrange muitas nações e o mesmo comprova-se na realização segura de Cary Fukunaga (responsável por True Detective), cujo realismo é deveras chocante. No âmbito das interpretações, fazemos um merecido destaque a Abraham Attah – num registo bastante próximo ao protagonista de Os Quatrocentos Golpes (1959), de François Truffaut – e a Idris Elba, que teme ser súbdito ao poder oculto, omnipresente nas palavras inscritas em paredes de rua. Na verdade, não há bons nem maus, apenas seres idênticos a animais, como por exemplo formigas, que lutam dia após dia pela sobrevivência.

Beasts of No Nation

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Contudo, este não é um produto cinematográfico, mas produção da Netflix, aspeto permanentemente lembrado quando olhamos para o computador, televisão, tablet ou qualquer outro dispositivo onde seja possível visualizar o enredo de Beasts of No Nation – estamos diante da televisão da imaginação, como Agu nos mostra na sequência inicial. Beasts of No Nation é ágil em captar atenção do lar, nesse registo mais privado, em que sobressaem todos os nossos sentimentos, porventura, o problema está, ironicamente, na sua constituição. Pelo seu registo comercial através da internet, prolonga muitas vezes a intriga, provocando uma certa desatenção do espectador, quando este não evita responder a uma mensagem ou consultar o feed de notícias do Facebook.

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Beasts of No Nation

Na trama há também uma justaposição de sons tribais com sons digitais, mostrada na banda-sonora de Dan Romer, e fundamental mistura de som, que no mais pequeno ecrã se distingue. Com criatividade infinita que se espera deste serviço streaming, Beasts of No Nation valida, neste ano de comemoração dos 120 anos do nascimento oficial da sétima arte, anuncia um novo género, que poderíamos designar de cinema aplicativo, e que inevitavelmente veio para ficar.

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VJ

 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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