Rosamund Pike, Ben Affan, and Mohamed Attougui em Beirut (2018)

Beirute: O Resgate, em análise

“Beirute: O Resgate” entusiasma-se em demasia com o seu diálogo especulativo, acabando por se tornar algo monótono e, ultimamente, previsível.

Jon Hamm, Dean Norris, and Rosamund Pike em Beirut (2018)

À primeira vista, “Beirute” possui todas as credenciais de um bom thriller de ação/espionagem, não estivéssemos a falar de um filme cujo argumento possui a chancela “Bourne“. E se Tony Gilroy é a mente por detrás dessa famigerada obra de ficção, seria de esperar que “Beirute” acompanhasse o mesmo pedigree cinematográfico, mas, infelizmente, fica um pouco aquém das expectativas. Não é que Beirute seja um mau filme, de todo, ainda para mais quando agrega um carismático Jon Hamm (Mason Skyles) e uma destemida Rosamund Pike (Sandy Crowder) como cabeças de série do jogo de espiões. A verdade, é que a fita de Brad Anderson (O Maquinista) indaga em demasia a sua rede conspirativa por diversos jogadores, raramente retribuindo o espectador na devida altura. Talvez, o guião de Gilroy seja vítima da sua linha temporal – a guerra civil libanesa dos anos 80 -, evocando aquele tipo de ação da velha guarda mais diplomático e menos físico, que verbaliza com afinco as suas intenções antes de agir.

Jon Hamm bem que se entranha na sua personagem estigmatizada com uma dedicação admirável, mostrando que é neste palco que brilham os verdadeiros “Mad Men’s”.

Deliberadamente, “Beirute” tenta recriar a época histórica e o contexto político em que se insere sem grandes artifícios visuais, recorrendo apenas a uma câmara de mão de 75mm para recriar um look sujo e lúgubre, que nem sempre beneficia a experiência de visualização. Mas, talvez, consigamos perdoar Bjorn Charpentier por querer brincar com as sombras desfocadas de Hamm, que é convocado a inaugurar o set libanês com uma língua bem afiada para enrolar as hostes politiqueiras, até uma bomba terrorista tirar tudo de todos. Volvidos dez anos (1982), numa Beirute agora em escombros, o ex-diplomata alcoólatra (Mason), é recrutado pela CIA para negociar a libertação de um dos seus ativos feito refém por uma fação rebelde (OLP), que ocupa o território palestiniano. Filmado maioritariamente em Tânger (Marrocos), Anderson consegue a proeza de camuflar o baixo orçamento da sua produção, enveredando por uma abordagem crua e autêntica estilo documentarista. Com um plano de imagem sempre colado à pele dos intervenientes, a cinematografia fluorescente de Charpentier veicula algumas trademarks de David Fincher e Michael Mann, sobretudo na obtenção daquele ambiente polarizante de contrastes luminosos e, por conseguinte, emocionais, que adjetivam, assim, a atmosfera sangrenta e gananciosa vivida em tempo de guerra.

Beirute: O Resgate
Jon Hamm, Dean Norris, and Rosamund Pike em Beirut (2018)

“Beirute”, não tem pressa de expor o seu enredo, vai mastigando os pavios da sua teia, dando espaço aos interlocutores de venderem o seu peixe, antes de apagarem o cigarro. O problema é que, quando se tenta ludibriar excessivamente uma plateia inteligente, pode cair-se no erro de ser-se desmascarado facilmente, e “Beirute” comete esse erro fatal. Mas não obstante o esforço de ocultação das suas peças de xadrez, “Beirute” salva-se por possuir no seu arsenal um par de atores exímios (Hamm e Pike), que comandam a nossa atenção do início ao fim; o resto é paisagem. No caso específico de “Beirute”, mais do que a jornada defeituosamente atribulada para resgatar o amigo Cal (Mark Pellegrino), é a história destrutiva de Mason e a sua redenção que nos agarra ao grande ecrã. E Jon Hamm bem que se entranha na sua personagem estigmatizada com uma dedicação admirável, mostrando que é neste palco que brilham os verdadeiros “Mad Men’s”.

A fita de Brad Anderson (O Maquinista) indaga em demasia a sua rede conspirativa por diversos jogadores, raramente retribuindo o espectador na devida altura.

Rosamund Pike é igualmente feroz, enquanto operativa da CIA no terreno, que só pelo facto de ser mulher, e parafraseando as suas palavras: “necessita de ser duplamente mais forte que qualquer homem”. De facto, a agente Crowder aguenta-se superlativamente numa multidão de testosterona, assumindo-se como aquela “wild card” que tanto pode tombar para um lado como para o outro. O Coronel Ruzak (Shia Whigham) do lado americano, também confere um valioso contrapeso no novelo conspirativo, maquinando eloquentemente com os interesses em disputa. Assim, a trama emaranha-se em cenas de ação competentemente coreografadas aqui e ali, mas que logo se tornam quase obsoletas por constituírem clichés de tantos outros filmes do género. Talvez, Brad Anderson seja um realizador cauteloso ou se tenha convertido àquela vibe do spycraft mais old fashion. Contudo, não deixa de ser curiosa uma afirmação sua concedida à revista MovieMaker : “que o seu trabalho não consiste em ter as melhores ideias, mas o melhor gosto”.

Rosamund Pike em Beirut (2018)

“Beirute: O Resgate”, talvez se possa classificar como aquele tipo de metragem com um distinto gosto adquirido, com um paladar vintage, que não agradará a todos os palatos. E não há nada de errado na assunção de uma posição diferenciada, porque “Beirute”, pese embora algumas fraquezas estilísticas e estruturais, entretém com elegância e fervor. Mas falta qualquer coisa, falta “wow factor”, já não basta edificar uma obra de cinema com régua e esquadro para ficarmos garantidamente impressionados.

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Beirute: O Resgate
Beirut: O Resgate

Movie title: Beirut

Movie description: Em 1982, um ex-diplomata americano Mason Skiles (Jon Hamm) - agora um alcoólatra que trabalha como mediador em Boston - é abordado por um estranho num bar, que lhe entrega um passaporte, dinheiro e um bilhete de avião juntamente com um convite urgente de "amigos" mútuos para que ele viaje até à cidade que abandonou há dez anos, devido a um evento trágico: Beirute. Relutantemente, Mason acede e depara-se com uma zona de guerra de extrema violência e… a verdadeira razão pela qual foi recrutado; os agentes secretos e da embaixada explicam-lhe que terroristas sequestraram um agente da CIA, seu antigo amigo, e agora a missão de Mason é negociar pela libertação do líder terrorista Abu Rajal, que se acredita ter sido preso pela polícia secreta israelense, em troca do Americano.

Date published: 2018-05-08

Director(s): Brad Anderson

Actor(s): Jon Hamm, Rosamund Pike, Dean Norris

Genre: Drama, Thriller

  • Miguel Simão - 69
  • José Vieira Mendes - 60
  • Marta Kong Nunes - 56
62

CONCLUSÃO

Beirute é um thriller político de espionagem com textura e alma, mas ao retratar um evento histórico com quase meio século, é vítima de algum anacronismo e falta de inovação. Possui boas ideias, que teriam resultado numa outra época cinematográfica, quando tantas fitas do género concorrem entre si para sobressair.

O MELHOR - Jon Hamm assume-se finalmente como um monstro do grande palco hollywodesco; Rosamund Pike invade a tela com o seu charme e olhar penetrante, acrescentando sempre algum dramatismo aos seus papéis; o realismo e a crueza de um cenário de guerra fielmente retratado.

O PIOR - A palete de cores mais terrenas e sombrias por vezes causa desconforto na visualização; plot sobretrabalhada denuncia-se a si mesma.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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