“Home Stories” é uma pequena cidade alemã de província aberta. © Adrian Campean / Trimafilm

Moscas na Cabeça, Histórias na Província | Berlinale 2026

Entre um apartamento mexicano a preto e branco (“Moscas”) e uma “homestory” alemã (“Home Stories”), a Competição de hoje perguntou o que é, afinal, uma família e se ainda sabemos quem somos quando o mundo começa a entrar-nos pela porta dentro. Entre estes dois filmes pode estar um candidato ao Urso de Ouro 2026.

Berlim continua fria. Meteorologicamente — isso já sabemos — mas também emocional e cinematograficamente falando. Diga-se que ainda não apareceu aquele grande candidato ao Urso de Ouro 2026, sem margem para dúvidas. Mas os dois filmes de hoje, não sei, não sei… têm qualquer coisa de especial que cheira a prémios e até parece que os programadores da Berlinale 2026, como nas bodas de Caná, guardaram o melhor para o fim da festa. Porém — e já o dissemos — parece que a Competição deste ano anda obcecada com famílias em crise, identidades em suspensão e agora também com edifícios grandes demais para as pessoas pequenas que os habitam. Hoje foi a vez de duas propostas que, à primeira vista, não podiam ser mais diferentes: o minimalismo melancólico de “Moscas”, do mexicano Fernando Eimbcke, e o retrato coral provinciano alemão de “Home Stories” (Etwas ganz Besonderes), da alemã Eva Trobisch. Mas, no fundo, falam da mesma coisa: da dificuldade de viver com os outros e, pior ainda, de viver connosco próprios.

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Moscas
“Moscas” é dos melhores filmes que por aqui passaram. © Kinotitlán

As “Moscas” que não se calam

Em “Moscas”, do mexicano Fernando Eimbcke, Olga (Teresita Sánchez), uma funcionária pública aposentada, vive sozinha num apartamento demasiado grande para ela e numa espécie de bunker emocional. O apartamento está localizado num bloco gigante e ela tem uma vida milimetricamente organizada, com o silêncio e o Sudoku como religião. Teresita Sánchez — que já nos tinha partido o coração em “Totem” — constrói aqui uma mulher que parece feita de cimento armado. Até ao dia em que a vida, sob a forma de um pai vindo sabe-se lá de onde e de um miúdo, lhe entra pela casa dentro, alugando-lhe um quarto, sem qualquer explicação e até pagando adiantado. Eimbcke regressa ao preto e branco, como em “Temporada de Patos”, e não é fetiche estético. É geometria moral. O preto e branco limpa o melodrama, afia o gag, transforma o quotidiano daquelas pessoas em mecanismo. Há algo de chapliniano neste cinema: o caos entra devagar, instala-se e, quando damos por isso, já está sentado à mesa. A metáfora é declarada: a mosca é essa presença indesejada que não conseguimos ignorar. O pai e o filho são a mosca. A vida é a mosca. O imprevisto é a mosca. E Olga, que sempre viveu a abrir e fechar janelas para a mosca sair, percebe que, às vezes, é preciso deixar o zumbido existir. O miúdo — interpretado pelo maravilhoso não actor Bastian Escobar — tem aquela verdade crua que só as crianças conseguem. Eimbcke diz que “as crianças são cineastas por natureza”. Nota-se. O filme cresce sempre que a câmara se baixa ao nível dele. Um videojogo a preto e branco, famoso nos anos 80 — aliás, tempo em que se passa o filme, algo visível nos ambientes —, o “Space Invaders”, funde-se com o mundo real, como se a fantasia fosse apenas outra divisão do apartamento. Há também um eco berlinense curioso. Eimbcke viveu anos aqui, participou no Talent Campus e inspira-se nos blocos de Leste. Aqueles prédios enormes, impessoais, onde a solidão ecoa mais alto. Em “Moscas”, o espaço é personagem. O prédio é quase um organismo ou um videojogo. E Olga é apenas uma célula que tenta não ser contaminada, até perceber que a contaminação é o que a salva. É um filme pequeno? Sim. Mas é desses pequenos filmes que ficam e nos emocionam, quanto mais não seja por causa da interpretação e da perda do miúdo. Minimalista, preciso, emocional sem ser chantagista. Pode ser um candidato discreto ao Urso de Ouro 2026, mas ainda não daqueles que nos deslumbra completamente e sobre os quais, como em outros anos, não temos dúvidas quanto ao favoritismo ou às potencialidades de sair daqui com um prémio. Ainda assim, é dos melhores filmes que por aqui passaram e, como as moscas: pequeno, insistente, impossível de ignorar.

Home Stories
A jovem Frida Hornemann, estreia absoluta como actriz. © Adrian Campean / Trimafilm

“Home Stories”: Aquilo que ninguém sabe bem contar?

Se “Moscas” é um apartamento fechado, “Home Stories” é uma pequena cidade alemã de província aberta em todas as suas fracturas. Eva Trobisch, que já tinha mostrado nervo em “All Good”, regressa agora à Competição com um retrato familiar que começa com uma pergunta brutalmente simples: “Quem és tu?” Lea, 17 anos, candidata a um programa de talentos televisivo, não sabe responder. E essa incapacidade ecoa em tudo o que a rodeia. Pais separados, mãe grávida de outro homem, pensão familiar à beira da falência, avós num hotel florestal que só dá prejuízo, uma tia directora de museu que vive à custa de fundos europeus e arranja inimigos na própria terra. É a Alemanha profunda, pós-reunificação, dependente de subsídios e carente de turistas. Um museu renovado com dinheiro da UE enquanto a pousada da família se afunda em dívidas. Não é preciso ser muito subtil para perceber o comentário político. A cultura salva? Talvez. Mas não paga contas. A jovem Frida Hornemann, estreia absoluta como actriz, segura o filme com uma contenção impressionante. Há nela uma espécie de bloqueio emocional que é o próprio tema. Max Riemelt, como o pai que tenta manter a fachada, é o retrato do homem que já percebeu que perdeu o controlo mas insiste em fingir que não. Trobisch constrói uma “Gemengelage” — mistura explosiva — onde cada personagem é um sintoma da Alemanha profunda da actualidade. O filme é mais falado, mais coral, mais social do que o mexicano, é verdade. Às vezes aproxima-se demasiado da tese sociológica sobre uma família burguesa do interor em decadência de valores e bens. Mas tem nervo. E tem humor seco, quase cruel. A pergunta — que homestory podemos contar? — é também uma crítica à própria televisão, à necessidade de transformar vidas complexas em narrativas simples ou reality show. Lea não cabe num pitch de 30 segundos. E talvez nenhum de nós caiba.

JVM


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