O protagonista é Al Cook, um músico de blues. ©Vento Film

Blues Contra Bulldozers e Estrelas no Deserto | Berlinale 2026 (Dia 9)

Da cave vienense dos blues (“The Loneliest Man in Town”) à aldeia do Chade (“Soumsoum, la nuit des astres”), a Berlinale 2026 oscilou entre a memória que resiste e o misticismo que não quer morrer.

Mais dois filmes em competição, o documentário “The Loneliest Man in Town” e a ficção africana, assente no realismo fantástico de “Soumsoum, la nuit des astres” e viajamos — porque cinema também nos faz viajar — por dois continentes, duas formas muito diferentes de falar de perda, resistência e fé. Uma cave em Viena cheia de vinis, VHS e memórias pessoais e de Elvis Presley. Uma aldeia no Chade onde o invisível ainda respira.

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Al Cook: a lenda vianense dos blues

Comecemos por um filme sobre um músico de blues, com “The Loneliest Man in Town” (“O Homem Mais Solitário da Cidade”), dos austríacos Tizza Covi e Rainer Frimmel. A dupla já nos habituou a um cinema de margens, de personagens reais a fazerem de si próprias, de um humanismo exemplar. Depois de “Vera” — sobre a decadência da socialite romana, filha do actor Giuliano Gemma — ter passado por Veneza com prémios na bagagem, regressam agora à competição berlinense com um filme que é, ao mesmo tempo, um adeus, uma homenagem e um murro discreto no estômago. O protagonista é Al Cook — nascido Alois Koch — engenheiro de precisão da Siemens mas sobretudo músico de blues vienense que interpreta uma versão de si próprio e que curiosamente é parecido com Robert Mitchum. Vive rodeado de memórias: livros empilhados, cassetes VHS, discos de vinil, uma cave que é santuário e cápsula do tempo. Filmado em Super 16mm, com aquela textura granulada que parece já trazer o pó da memória agarrado ao fotograma, o filme é um gesto de resistência estética e analógica, num mundo cada vez mais polido digitalmente.
Al perdeu a mulher, Silvia. Perdeu a cidade. E agora está prestes a perder a casa e o seu canto na cave, ameaçado por uma imobiliária que quer demolir o velho edifício. O que Covi e Frimmel fazem aqui não é apenas contar a história de um homem idoso confrontado com o luto e a perda. É filmar o apagamento cultural. O blues — essa música que nasceu longe de Viena — é que para Al é uma identidade. E quando a casa cai, cai também a ilusão de que a memória basta para nos manter de pé.
O filme é terno, mas nunca sentimentalista. Há humor seco, há dignidade, há aquele espírito intransigente de quem nunca pisou solo americano mas carrega o Mississippi na garganta e sobretudo na alma. E há uma pergunta que ecoa muito para lá da sala: o que acontece quando o mercado imobiliário decide que a nossa vida é um obstáculo logístico? Está a acontecer aliás em todas as grandes cidades: este processo de gentrificação a transformação urbana de edifícios, bairros populares ou históricos que sofrem valorização imobiliária, resultando na substituição dos moradores de baixa renda, geralmente idosos, por outros de maior poder aquisitivo e na maior parte das vezes utilizando o bullying (cortes na água, na electricidade, etc.) como acontece neste filme.
Num festival obcecado com geopolítica e grandes declarações, este filme faz política pelo detalhe. Pela recusa em deixar morrer uma forma muito particular de estar vida. Pela insistência em filmar quem já não é “útil”. Se é candidato ao Urso? Talvez não seja o filme mais ruidoso da competição, mas será seguramente um dos mais honestos, ternos e mais memoráveis.

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Soumsoum, la nuit des astres
O centro do filme é Kellou (Maïmouna Miawama), uma adolescente de dezassete anos. © Pili Films

Entre o visível e o invisível

Do frio de Viena viajamos para o calor místico de África em “Soumsoum, la nuit des astres” (“Soumsoum, a Noite das Estrelas”), do realizador franco-chadiano Mahamat-Saleh Haroun. Depois de ter competido em Cannes e Veneza, Haroun chega agora a Berlim com o seu nono filme e, pela primeira vez, à corrida pelo Urso de Ouro. Aqui, o centro é Kellou (Maïmouna Miawama), uma adolescente de dezassete anos que descobre ter poderes sobrenaturais. Visões, presságios, uma inquietação que não cabe na lógica racional. O encontro com Aya — mulher mais velha, guardiã de segredos e testemunha das últimas palavras da mãe de Kellou — abre a porta a um universo onde o mundo místico e panteísta ainda faz sentido.Se em “Lingui”, o seu filme anterior, Haroun nos confrontava com a violência social e religiosa de forma crua, aqui opta antes por um registo mais fantasioso, ou mesmo de realismo fantástico, mas não menos político. Porque falar de espiritualidade numa aldeia isolada do Chade é também falar de resistência cultural e de um reforço da tradição, contra os dogmas da religião muçulmana. E também, de preservar uma cosmologia que o mundo globalizado insiste em ridicularizar ou apagar. O filme mergulha num conflito claro: o chefe da aldeia quer expulsar Aya. Kellou decide defendê-la. E nesse gesto simples — quase arquetípico — está o coração do filme. A luta pela liberdade não é aqui um slogan, é uma escolha íntima. A fotografia privilegia os espaços abertos, as pedras e rochas soltas do deserto chadiano e sobretudo o céu estrelado, a noite como território de revelação. É um cinema que respira, que acredita no invisível sem precisar de grandes artifícios técnicos ou efeitos especiais. Entre o realismo documental de Covi e Frimmel e o misticismo contido de Haroun, a Berlinale ofereceu-nos na jornada de hoje, dois filmes sobre mundos em risco. Num, a ameaça vem das escavadoras. No outro, da erosão cultural e do medo colectivo.

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