"Bora Lá" | © Disney

Bora Lá, em análise | Melhor Filme de Animação

Estreado logo no início da pandemia e seus primeiros estados de emergência, “Bora Lá” teve um percurso comercial muito atribulado. O 22º filme da Pixar foi, contudo, nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação e está disponível na Disney+.

Imaginemos um mundo em que as criaturas dos contos-de-fadas existem e não são somente um fragmento da nossa imaginação coletiva. Do sonho para a realidade, “Bora Lá” mostra-nos essa dimensão alternativa onde elfos, centauros, quimeras e tantas outras criaturas ocupam o lugar que os humanos têm no nosso pacato quotidiano. Longe disso resultar num universo caótico ou inequivocamente distante do nosso, a Pixar edificou este cosmos em torno de uma ideia de mundanidade. Apesar de terem orelhas pontiagudas e pele em cores de guloseima, estes elfos são como nós.

É no contexto do subúrbio Los Angelino que “Bora Lá” tem início, dando-nos o contexto para mais uma história de perda e família da parte de um estúdio que já muitas vezes nos fez chorar. Na boa tradição Disney, os irmãos Ian e Barley Lightfoot vivem sem um dos pais. Neste caso, é o patriarca, falecido quando ambos ainda eram novos. No caso de Ian, a sua meninice era tanta que ele praticamente não se recorda do pai, algo que o aflige há anos. Prestes a tornar-se num adulto independente, Ian é confrontado por essa mágoa antiga quando uma mensagem misteriosa abre caminho para um feitiço muito desejado.

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© Disney

Acontece que, séculos atrás, magia reinava sobre este mundo desenxabido. Contudo, tradições antigas foram-se perdendo e são poucos aqueles que ainda conseguem utilizar seus dotes sobrenaturais. Com um cristal poderoso na sua posse, os irmãos dão início a um ritual que lhes traria o pai de volta por um só dia. Só há um problema. Durante a invocação, algo corre mal, e eles acabam por só trazer de volta uma metade do homem morto. Nomeadamente, trazem a sua metade inferior. Sim, durante a maior parte deste filme da Pixar, uma das personagens principais é um par de pernas sem corpo.

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Há algo de delicioso na morbidez descarada de “Bora Lá”, uma despreocupação em chocar o espetador familiar que não coere muito bem com o seu design mundano. A aventura de Ian e Barley dura só um dia, mas é uma odisseia insólita, cheia de tropelias e reviravoltas. Também está bem recheada de emoções fortes e não nos referimos ao fulgor da adrenalina. Como bom filme da Pixar, esta fita quer-nos pôr a chorar e, como seria de esperar, sucede. Abordando o tema das ligações fraternais tão raramente exploradas no grande ecrã, os cineastas delineiam um retrato de personagem duplo que se baseia sobretudo no modo como famílias aprendem a crescer e ultrapassar o trauma da morte.

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Os momentos mais introspetivos de “Bora Lá” são extraordinariamente superiores às suas fracas tentativas de humor ou mesmo o seu gosto pela ação mirabolante. Apesar de colorido, o mundo concebido pela equipa do realizador Dan Scanlon não é o mais imaginativo e pouco nos surpreende nas suas visões. A tentativa de ancorar o sobrenatural no quotidiano banal, acaba por drenar alguma da magia ao espetáculo. Ainda bem que os efeitos visuais são tão primorosos como são. É aí que a conceção formal da obra se redime, materializando impossibilidades com tanto apreço pelo encanto como pelo terror.

Além de tudo isso, a versão original do filme tem um elenco invejável, desde as personagens principais às figuras mais secundárias. Tom Holland há muito provou ser um ás no que se refere à articulação de vulnerabilidades sentimentais, mas isso não significa que o seu Ian merece menos aplausos. Trata-se de uma caracterização consistente e convincente, uma base necessária para o conto que “Bora Lá” tenta contar. Nos papéis menores, Octavia Spencer é sublime como uma espécie de quimera com conhecimentos ocultos. Quando a sua voz se faz ouvir, a comédia pueril do filme até funciona e consegue desencantar umas gargalhadas do espetador.

Bora Lá, em análise
bora lá

Movie title: Onward

Date published: 25 de April de 2021

Director(s): Dan Scanlon

Actor(s): Tom Holland, Chris Pratt, Julia Louis-Dreyfus, Octavia Spencer, Mel Rodriguez, Lena Waithe, Ali Wong, Tracey Ullman

Genre: Animação, Aventura, Comédia, 2020, 102 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

Sincero, choroso, quiçá um pouco sentimental, “Bora Lá” é uma obra menor da Pixar. Contudo, temos de esclarecer que é cem vezes melhor que as sequelas desinspiradas que o estúdio andava a produzir há uns anos.

O MELHOR: Octavia Spencer e as conclusões emocionais da trama entre os irmãos.

O PIOR: A conceção do mundo. A banalidade destes seres fantásticos tem uma certa piada, mas o humor rapidamente esfuma depois de uns minutos de surpresa.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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