Viola Davis e a sua personagem tornam-se uma só neste "Ma Rainey: A Mãe dos Blues" |©David Lee/NETFLIX

Óscares 2021 | Viola Davis em Ma Rainey: A Mãe dos Blues

A categoria de Melhor Atriz é, em 2021, uma das mais disputadas incógnitas da corrida aos Óscares. Antevemos a 93ª edição da premiação perfilando e homenageando uma das nomeadas, Viola Davis em Ma Rainey: A Mãe dos Blues. 
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Os Oscars 2021 têm data marcada para a madrugada de 25 para 26 de abril, segunda-feira, como é habitual pela 1 da manhã. Pela primeira vez em 20 anos, é a RTP a emitir a cerimónia. Entre os nomeados e nomeadas encontramos Viola Davis na categoria de Melhor Atriz pela sua interpretação tour de force na pele de Ma Rainey, uma figura real que transformou para sempre o panorama da música Blues e cujo génio se viu obscurecido pela seletividade e subjetividade da História.

VIOLA DAVIS – UMA PÉROLA EM HOLLYWOOD

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Denzel Washington e Viola Davis em “Vedações” | ©2016 Paramount Pictures.
Vencedora de uma estatueta dourada no passado recente por “Vedações” (em 2017, mais precisamente),  Viola Davis tornou-se, em 2021, a atriz afro-americana mais nomeada de sempre. Acumula, desde 2009, quatro indicações (duas delas como Melhor Atriz Secundária – “Vedações” e “Dúvida”  – e as restantes como Melhor Atriz – “As Serviçais” e agora por “Ma Rainey: A Mãe dos Blues”).
Para além deste historial com a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foi também nomeada a seis Globos de Ouro, conquistou um Emmy pela série de mega sucesso “Como Defender um Assassino” (a qual protagonizou ao longo de seis temporadas como uma estrondosa presença no pequeno ecrã que a tornou bastante popular junto das massas) e foram-lhe ainda entregues, entre outras distinções, dois Prémios Tony (pelas peças “King Hedley II” e “Fences”).  Enquanto membro de um clube de elite – os vencedores e vencedoras do “triple crown of acting” (Oscar, Emmy e Tony) – a sua transversalidade enquanto intérprete é inegável, sendo em igual parte aclamada pelos seus pares, crítica e público. A tremenda bagagem em frente a uma audiência ao vivo que transporta torna-a ainda mais sublime em adaptações de peças ao cinema, nas quais se tem mostrado arrebatadora em anos recentes.
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Tudo o que nos fica na memória em “As Serviçais”  é as interpretações de Octavia Spencer e Viola Davis| © DreamWorks II Distribution Co., LLC. All Rights Reserved.
Surpreendentemente, e como sinal de uma indústria a gritar por maior inclusividade, Viola Davis tornou-se também em 2021, com “Ma Rainey: A Mãe dos Blues” a primeira atriz negra a acumular duas nomeações na categoria principal de representação. Antes desta temporada de prémios Viola partilhava o recorde de mais nomeações para uma intérprete afro-americana com a sua amiga de longa data Octavia Spencer ( indicada por “Elementos Secretos”, “A Forma da Água” e vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária por “As Serviçais”). Já Whoopie Golberg foi, durante anos, a única atriz negra com mais do que uma nomeação, pelas suas prestações em “A Cor Púrpura” (1985) e “Ghost – Espírito do Amor” (longa-metragem que lhe valeu a estatueta de Melhor Atriz Secundária).
Como a maioria dos cinéfilos saberá, a primeira pessoa negra a ser nomeada (e a receber um Óscar de representação) foi Hattie McDaniel. Foi reconhecido o seu trabalho em “E Tudo o Vento Levou…” (como a fundamental Mammy), não obstante a recusa em sentá-la junto dos e das restantes nomeados(as). Até ao dia de hoje, Halle Berry continua a ser, por “Monster’s Ball – Depois do Ódio” a única intérprete negra a levar para casa o Óscar de Melhor Atriz na categoria principal. Será que Viola Davis conseguirá fazer uma vez mais história? 
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Apesar de uma corrida bastante incerta, com vários dos prémios importantes da temporada a serem entregues a intérpretes distintas, como discutimos neste artigo, a verdade é que Davis venceu o SAG  – Screen Actors Guild Award. Este prémio é entregue pela Academia do Sindicato de Atores dos EUA, o qual representa mais de 100 000 intérpretes. A sua Academia tem elevada coincidência com os atores e atrizes votantes nos Óscares, e por isso Viola é uma das candidatas de peso.
Viola Davis em Ma Rainey: A Mãe dos Blues
Viola Davis em “Ma Rainey: A Mãe dos Blues” |©David Lee/Netflix
Na 93ª cerimónia dos Óscares Viola Davis em “Ma Rainey: A Mãe dos Blues” enfrenta as performances da estreante Andra Day em “Estados Unidos vs. Billie Holliday”, a também novata nas lides das nomeações às estatuetas douradas Vanessa Kirby por “Pieces of a Woman”, a indicada pela segunda vez Carey Mulligan por “Uma Miúda com Potencial” e por fim a vencedora de dois Óscares e nomeada um total de seis vezes, Frances McDormand pelo seu “Nomadland – Sobreviver na América”.
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DOS PALCOS PARA O UNIVERSO FILMADO DO CINEMA

Viola Davis em Ma Rainey: A Mãe dos Blues
Viola Davis como Ma Rainey, o realizador George C. Wolfe e Chadwick Boseman como Levee | © David Lee / Netflix

 

Uma longa metragem Netflix realizada por George C. Wolfe (“Um Ponto de Viragem”), este “Ma Rainey: A Mãe dos Blues” baseia-se na peça de August Wilson do mesmo nome. O dramaturgo, vencedor de dois Prémios Pulitzer e um Tony, viu esta obra estreada pela primeira vez na Broadway em 1984 na alçada da realização do seu colaborador frequente Loyd Richards. Wilson é também o autor de “Fences”, ou “Vedações”, a obra que Viola Davis já representou ao vivo com notório sucesso e cuja adaptação ao cinema, que co-protagonizou, lhe valeu um Óscar em 2017.

August Wilson foi já apelidado como o “o poeta do teatro da América Negra”. A sua importância enquanto elemento identitário da black culture, e como mensageiro capaz de expressar a essência humana das suas personagens junto de qualquer pessoa que com elas contacte, é uma das celebrações presentes nas entrelinhas deste filme. Tanto o realizador, os produtores (incluindo Denzel Washington), o argumentista e os atores e atrizes trataram o material de referência com todo o respeito e admiração, o que aliás transparece no especial making-of  disponível na Netflix “Ma Rainey: A Mãe dos Blues – O Legado Chega ao Ecrã”. Este pequeno formato documental de meia hora presta ainda uma breve mas sentida homenagem a Chadwick Boseman, nesta que é a sua última aparição no cinema. Em 2021, recebe uma merecida nomeação póstuma na categoria de Melhor Ator pela sua interpretação como o ambicioso e fervilhante jovem músico Levee. Boseman faleceu em agosto de 2020, aos 42 anos, vítima de cancro do cólon. 

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Chadwick Boseman é Levee em “Ma Rainey’s Black Bottom” | © Netflix

Ainda quanto à peça do pioneiro Wilson, Ma Rainey é tida como uma crónica da experiência afro-americana na década de 1920 nos Estados Unidos da América.

Descrita como um retrato cativante da raiva negra e da auto-censura originada pelo racismo sistemático, esta obra teatral é a base para um filme que sabe ser muito mais do que uma mera peça filmada. Sentimos essa ira, essa revolta violenta, à medida que o filme de George C. Wolfe consegue cativar o espectador. Contudo, tudo começa e temita com um argumento fortíssimo (e com uma peça de teatro que desesperadamente queremos ver depois de sairmos da “sala de cinema” –  a qual infelizmente foi, sem qualquer outra hipótese, o nosso sofá).

A AMBIÊNCIA DE MA RAINEY’S BLACK BOTTOM: UMA INEBRIANTE EXPERIÊNCIA SENSORIAL

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© Netflix

Tensões febris num dia escaldante, uma incessante batida a permear toda a fita, “Ma Rainey: A Mãe dos Blues” é mestre na arte de destabilizar o espectador do início ao fim. O filme faz renascer uma vez mais o legado de Ma Rainey, artista blues nascida em 1886 e que na década de 1920 rumou a Chicago para gravar a sua música junto de uma discográfica liderada por executivos  brancos. Tal como a Ma do filme, a Ma da vida real era irreverente, tinha uma magnífica voz , era desprovida de pudores e orgulhosamente queer como comprovado pelo seu reportório musical. No Sul afirmou-se uma referência de peso e, durante a Grande Migração Negra Americana, a qual levou as populações negras do Sul a procurar  melhores oportunidades no Norte, também Ma migrou e com ela levou a sua música, numa altura em que os chamados “Race Records” (discos raciais) eram um produto muito lucrativo para as discográficas do Norte. Comercializados maioritariamente entre as décadas de 1920 e de 1940, estes discos compreendiam acima de tudo géneros de música afro-americanos, como o Blues, o Jazz, o Gospel (…)

Viola Davis, em “Ma Rainey: A Mãe dos Blues”, representa uma cantora que foi determinante para a construção de um género musical nos Estados Unidos. Ainda hoje é citada como uma influência por parte de diversos artistas negros. Contudo, a sua importância histórica foi sendo esquecida e é na Arte, convenientemente, que vem encontrar nova vida.

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A ação do filme passa-se numa tarde quente de verão, sufocante ao ponto de colocar os nervos à flor da pele. Nesta tarde imaginada na longa-metragem nomeada a 5 Óscares, focada no ato de uma gravação musical ao longo de um só dia, assistimos a uma Ma que controla a sala, cada um dos seus elementos, com pedidos que, à primeira vista, podem parecer absurdos, pedantes, de “diva”. Contudo,  Ma está perfeitamente ciente da instrumentalização da sua voz, da sua música, da sua persona, perante aqueles que a irão comercializar. Sabe como melhor aproveitar o seu estatuto, não usa meias palavras, mas a tristeza de um povo que sofreu atrocidades está sempre presente nos momentos em que baixa a guarda. Viola Davis capta, numa performance repleta de sofisticação, tudo o que Ma exala.

A METAMORFOSE DE VIOLA DAVIS EM MA RAINEY: A MÃE DOS BLUES 

Viola Davis em Ma Rainey: A Mãe dos Blues
©David Lee/Netflix

Viola Davis. em “Ma Rainey: A Mãe dos Blues”, sabe diluir-se na personagem. Não há espaço para a vaidade da bela atriz, aqui capaz de abraçar a sua personagem e transformar-se nela (de corpo e alma, com a mesma comoção que os músicos Blues se entregam a uma música que parece irromper das profundezas da alma). A transformação de Viola é e foi, não só física como inteiramente espiritual. Não obstante, houve um processo de metamorfização visual de grande significância incontornável para dar vida a esta presença magnetizante.

Em entrevista à revista norte-americana “Entertainment Weekly” Viola Davis admitiu ter duvidado quando chegou a hora de aceitar o papel. Não se conseguia ver na pele desta figura exuberante de grande estatura. A experiente figurinista Ann Roth, nomeada por este filme aos Óscares (e que bem merecido)  e previamente por outros quatro, tratou de criar uma transformação visual inacreditável e rigorosa. De perucas de cabelo de cavalo a coroas de ouro, passando por muito enchimento, a representação física de Ma Rainey é aproximada se a compararmos com as poucas fotos da “Mãe dos Blues” que sobreviveram ao teste do tempo. Mais relevante ainda é constatar a ausência de uma representação caricatural. É fácil desvirtuar a imagem cinematográfica de um ícone e, apesar de a maioria das pessoas não se lembrarem ou terem alguma vez contactado com o aspecto físico desta figura histórica semi-obscura, aqui nunca se corre o risco de não respeitar a integridade de quem é homenageado. Aliás, o respeito dignifica a obra e o seu sujeito.

Claro que a verosomilhança física é apenas uma pequena peça do puzzle. A intérprete sentiu-se, de acordo com uma entrevista ao New York Times, empoderada ao assumir fisicamente esta nova pele. O seu “fat suit” (enchimento) baseava-se nas medidas corporais de Aretha Franklin, uma artista que a marcou ao longo da vida. Liberta de inibições associadas a padrões de beleza pré-formatados, Viola sentiu-se livre para explorar e para mergulhar cada vez mais fundo na personagem. A sua relação com Ma é simbiótica e conseguimos assimilar tudo o que fica por dizer: do sofrimento coletivo de um povo aguilhoado, através da força do seu olhar e da rispidez aparente do seu discurso, até à paixão musical que transpira de todos os poros da Ma de Viola e que nos deixa enamoradamente fascinados. A sua sagacidade inunda-nos, a sua expansão efusiva delicia. Viola Davis prova, uma vez mais, a sua inegável capacidade de mergulhar não só corporalidade como na psique de uma personagem. Bravo!

Consideram  este como é um dos melhores papéis da carreira de Viola Davis?

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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