Cantar!, em análise

Cantar! traz a febre pelos programas de talentos musicais para o grande ecrã através de uma sociedade animal muito ao estilo de Zootrópolis.

Cantar! é a nova longa-metragem dos estúdios Illumination, responsáveis pelos filmes sobre umas tão peculiares criaturinhas amarelas chamadas Mínimos que estão na posse de Gru – O Maldisposto e por A Vida Secreta dos Nossos Bichos, onde as aventuras dos brinquedos Woody e Buzz Lightyear, da Pixar Studios foram reimaginadas e reduzidas às peripécias de vários animais domésticos. Nesta nova aventura de animação para toda a família, os protagonistas voltam a ser animais, mas em vez de perseguidos pelas ruas de Nova Iorque, perseguem os seus sonhos através de um programa de talentos ao estilo de American Idol, The Voice ou The X Factor.

A história volta a manter o bom humor típico do estúdio e segue o fracassado Buster Moon (voz de Matthew McConaughey), um coala um quanto charlatão decidido a pagar a hipoteca do teatro que o seu pai dedicou uma vida para comprar. Pensando que o preço dos bilhetes e algumas das relíquias que guarda ajudarão a pagar as dívidas e o inicial prémio de mil dólares que estabelece, Moon avança com a descoberta das vozes escondidas entre a sociedade, sempre com o intuito de regressar às luzes da ribalta. No entanto, as coisas não correm lá como planeado, uma vez que dois zeros são acrescentados por lapso ao cartaz de publicidade ao concurso, por já idosa, e com todo o respeito, vesga secretária iguana (Garth Jennings). Mesmo assim, o ambicioso coala continua a sua demanda.

Cantar!

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No palco juntam-se Rosita (Reese Witherspoon) e Gunter (Nick Kroll), dois porcos que dançam e cantam em simultâneo, Ash (Scarlett Johansson) uma roqueira e magnética ouriço-cacheiro, Mike (Seth MacFarlane) um rato ‘pinga-amor’ que conquista o público do mesmo jeito que Frank Sinatra ou Tony Bennett, Johnny (Taron Egerton) um gorila que esconde o seu talento da família, Meena (Tori Kelly) uma jovem elefante tímida com uma voz preciosa, e provavelmente temos o lote de personagens mais diversificado do ano. As suas vozes, num bom elenco de dobragem, faz os espetadores sentirem que estão naquele mesmo anfiteatro, onde são ouvidas mais de 50 canções reconhecidas pelo grande público, entre elas destaque para as versões de “Hallelujah”, da autoria de Leonard Cohen, “Shake it off”, de Taylor Swift ou “Stay with Me”, de Sam Smith.

Uma mais valia deste Cantar! é que consegue conjugar o lado musical, com uma vertente de imitação da estilística de montagem muito própria àqueles programas de música que assistimos no pequeno ecrã. Quer isto dizer que se ouvem músicas, mas também conhecem-se os dramas identitários e familiares de cada um dos indivíduos selecionados. Se Rosita é uma quase desesperada dona de casa à moda antiga, cuidando dos filhos e do marido com uma verdadeira mão de ferro, já Ash é uma jovem subjugada ao narcisismo e inveja do seu companheiro. Se Mike é um aldrabão de primeira, que contraí empréstimos bancários sem sequer saber como pagá-los, Johnny é filho de um dos gangs mais procurados da região e anseia deixar aquela vida pelo seu sonho. Ora, está explicada a ‘febre’ inebriante por programas do género, e é estabelecida a empatia do público com as personagens, pela exploração cuidada do lado humano, ou animal, como queira entender.

Sing!

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O filme ganha potencial uma vez que entre o encanto desses programas, não hesita em explorar o abismal declínio do mundo show-business musical, onde a extravagância de luzes e efeitos coloca em questão os verdadeiros artistas. O protagonista vai mesmo ter que limpar destroços, onde perceberá que nem sempre mais é sinónimo de melhor. Talvez isto vá ao encontro daquilo que uma das mais curiosas personagens da trama Nana Noodleman (Jennifer Saunders/Jennifer Hudson) – uma ovelha que imita Norma Desmond, a obsessiva personagem de Gloria Swanson em O Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950)-, revela que afinal já não se fazem espetáculos como os de outrora. Embora essa crítica aconteça num determinado momento, é posteriormente renunciada a favor do entretenimento e da emoção sobretudo da pequenada. A partir daí, os clichés – como o gorila pai-redimido que foge da cadeia na tentativa de recuperar a relação com o filho – começam a apoderar-se da intriga, não sendo mais que esse feel-good movie da temporada de Natal que está pronto a conquistar tudo e todos.

No que respeita ao domínio da técnica, a produtora continua a sua modelagem com cenários e padrões muito bem demarcados que a conseguem distanciar das animações da Pixar, da Disney e até da Dreamworks. O filme quando comparado aos animais antropomorfizados dos recentes Zootrópolis e O Panda do Kung Fu 3, mantém a mesma qualidade na textura das personagens, apesar de alguma cor aparentemente se perder no processo final. Além do mais, ao contrário de ambos esses projetos com histórias inteligentes e mensagens de aceitação determinantes na cultura popular, Sing! transpõe alguns pontos do mundo humano que não são muito originais e que se estendem em demasia. Talvez valem-se as piadas longe da infantilidade de algumas produções americanas, que são apenas compreendidas por adultos e os planos-sequências que introduzem as personagens tornando cada caso, um caso.

Sing!

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Cantar! consegue ainda instituir-se na linha musical, que este ano de 2016 tem sido reerguida, sobretudo quando comparado a anos anteriores, como o de 2008 em que Mamma Mia! estava nas bocas do mundo. Depois dos coming-of-age Sing Street e London Town, VaianaLa La Land: Melodia de Amor (cuja estreia em Portugal está apenas marcada para janeiro), Cantar! conquista exatamente pelos seus atributos musicais, com canções pop de sucesso. Até não seria de estranhar que alguma das suas músicas como “Set It All Free” ou “Faith” fossem nomeadas a um ou outro prémio de canção original e o filme não fosse nomeado a melhor animação.

Por fim, importa ainda referir o crescente nome de peso que se tem vindo a marcar na indústria de animação em Hollywood, a par de John Lasseter na Walt Disney Pictures existe Chris Meledandri, CEO da Illumination Entertainment que percebe bem como funciona o mercado infantil da animação. Pena que Sing! não conseguia cantar mais longe e ganhar mais pontos no seu enredo, e fique meramente pelas conquista do mercado.

O MELHOR: As vozes de um elenco de estrelas, que à boa tradição hollywoodesca sabe cantar e dobrar!

O PIOR: algumas desnecessárias linhas narrativas mais para o final da história, de que tudo está bem quando acaba bem, em vez de manter-se onde estava. 

Consulta ainda: Guia das Estreias de Cinema | Dezembro 2016 

 


Título Original: Sing!
Realizador:  Garth Jennings
Elenco: Matthew McConaughey, Reese Witherspoon e Seth MacFarlane
NOS | Comédia, Musical | 2016 | 102 min

Cantar!
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VJ

 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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