Griselda (foto de Prince Williams)

O Carimbo da Griselda no Rap Hardcore

Fala-se de violência, de egos, da rua, de drogas, de dinheiro, de crime e do passatempo favorito de um old school rapper, de wrestling. Com a Griselda não vamos ao engano!

O revivalismo do rap hardcore nos últimos anos tem-nos dado inúmeros artistas e projectos de qualidade que nos fazem constantemente voltar a este nicho da cultura do hip hop. Com o seu aparecimento em meados da década de 1980 e década de 1990 adentro, com grupos fortes da Costa Este como os Public Enemy ou os Run-DMC a influenciaram o que viria a ser o nascimento deste sub-género e estética literária, encabeçado sobretudo pelos Wu-Tang Clan, Nas, Mobb Deep e Gravediggaz, este nicho específico da Era de ouro do hip hop viu-se a esmorecer com a entrada no novo século e a profunda instauração da Bling Era. Na entrada da década de 2010 e observando-se o rápido advento da tecnologia e a facilidade, tanto no acesso, como na produção de música, vemos o hip hop a diluir-se em diversos sub-géneros e assistimos também ao revivalismo de outros tantos, como o rap hardcore. É aqui que nos centramos na Griselda e não podemos deixar de lado nomes como os Run The Jewels, Danny Brown, Pusha T, Vince Staples ou os Injury Reserve, mas todos estes pesos-pesados têm algo que foge à regra do núcleo da Griselda, há um lado experimental e abstracto na produção do som e das musicalidades, há um cuidado estético em fazer algo complexo e por vezes fora da caixa. Ora, da Griselda não esperamos isso e não o tratamos como algo menor, quando ouvimos todo o núcleo vem-nos à cabeça o hip hop nova-iorquino cru dos anos 90, o boom bap sem vergonha, os beats minimalistas e o sampling de pianos. Não esperamos deles o experimentalismo e a música complexa que irão deixar críticos de música a discutirem se serão a next big thing, mas esperamos a dureza da suja realidade, um hip hop ligado às pessoas e à classe que o criou. Fala-se de violência, de egos, da rua, de drogas, de dinheiro, de crime e do passatempo favorito de um old school rapper, de wrestling. Com a Griselda não vamos ao engano.

Directamente de Buffalo, Nova Iorque, o núcleo base do colectivo é formado por Benny The Butcher e os irmãos Westside Gunn e Conway The Machine como forças vocais; o conteúdo da produção fica muitas vezes encarregue ao produtor residente Daringer. Mas destacamos também o papel do rapper Mach-Hommy nos anos recentes do colectivo. Mais que uma crew, a Griselda é uma editora que não faz fronteias a trazer novos artistas, como é o caso dos rappers Elcamino, Boldy James, Armani Ceasar e o único MF DOOM. No caso da produção podemos contar com nomes como The Alchemist ou o DJ Green Lantern. Ao todo, entre LP’s, EP’s e mixtapes, já são mais de 50 projectos em menos de 10 anos – no mínimo, prolífico.

Griselda
Capa de WWCD

Olhando para a força vocal e lírica, nomeadamente dos nomes residentes, olhamos, contando com Mach-Hommy, para quatro personalidades singulares, diferentes na forma de como contar uma história, de como organizar a sua rima e de como impor um estilo específico. Começando por Conway The Machine, é-nos impossível não notar na forma pesada e de como enche a boca a cada palavra que profere, isto devido a um passado infortúnio em 2012 quando foi atingido por duas balas, uma no pescoço, outra no ombro, que o deixou com um lado da cara paralisado, alterando profundamente a forma como o mesmo fala, dando um toque, irónico, ao swag da sua rima e conectando-o a uma linha de pronúncia distinta, quase patenteada. Conway é, sem dúvida, um dos nomes mais versáteis da Griselda a par de Mach-Hommy, que se sente confortável tanto num boom bap clássico, em viagens de trap, assim como em beats que exploram o jazz e a calma repetição de loops pesados, como podemos ouvir no EP com The Alchemist, Lulu, em 2020. Conway significa um novo tipo de jogo dentro do rap hardcore, um jogo versátil, que se sente confortável a jogar à defesa com um estilo de hip hop à base da repetição dos beats e o minimalismo da criatividade e exploração dos mesmos, assim como joga ao ataque, tendo momentos exploratórios e revolucionários, de desconstrução da linha clássica do boom bap, tão enraizada e familiarizada nas heranças daquilo que os Wu Tang, nome maior do rap hardcore da Costa Este, deixaram ao longo da década de 1990.

No caso de Westside Gunn já assistimos a um paradigma bem diferenciado do de Conway The Machine. Faz-nos crer que é mais preso a um estilo específico, que a sua versatilidade se sente não através dele próprio, mas da escolha dinâmica dos vários convidados nos diversos projectos que realiza, que criam na imagem de Westside quase como uma personalidade de curadoria, que se sabe rodear e construir uma narrativa através dos passos conjuntos entre os convidados, os produtores e ele próprio. Com uma voz difícil e, para muitos, demasiado vibrante e estridente, Westside cria uma imagem que se equilibra entre o humor da sua voz e dos seus ad-libs, e a dureza da realidade daquilo que relata, (quase) sempre de forma exacerbante e eufórica, apresentando um estilo específico que o destaca como alguém singular, tanto do resto da Griselda, como dos grandes nomes do hip hop contemporâneo. É um dos principais símbolos da ligação entre o classicismo do boom bap dos anos 90 e o estilo específico de hip hop que se faz em Nova Iorque na década de 2020.

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Mach-Hommy é dos quatro nomes, aquele que talvez seja mais difícil de desconstruir, começando pela sua descendência haitiana, passando pelo facto de ter crescido em Newark e não em Buffalo como os restantes três, até à sua persona pública quase inexistente, que cobra elevados preços para concertos e presenças, e mantém um particular anonimato. Ao nível musical, Mach-Hommy cria uma estética muito própria, preocupado com a desconstrução rítmica das rimas, um pouco à moda daquilo que MF DOOM tão bem fazia, não seguindo linhas básicas de repetição de lógica ‘ab-ab’. É um rapper de olhar detalhado para a forma de construir uma canção, assumindo uma personalidade camaleónica, criando equilíbrios entre beats simples e complexos, e jogos entre o rimar e o cantar, principalmente usando os refrões para o último efeito. A nível do beatmaking e do trabalho dos produtores convidados, assistimos a construções muito mais atrevidas e maximalistas, em que a lentidão se torna muitas das vezes na palavra de ordem, dando espaço à mistura de sons, não abandonando a particularidade dos ritmos do boom bap, mas sempre tendo em mente que é possível oferecer novas explorações entre os tempos dos loops das baterias. Mach-Hommy é um rapper particular, e que, sobretudo com Pray For Haiti, celebra a sua herança cultural haitiana, oferece-nos uma visão peculiar e mais íntima, não assumindo apenas a importância do que se é ser afro-americano nos EUA, mas também a particularidade da sua cultura, das diferenças linguísticas e culturais da sua comunidade. Presenteia-nos com um novo modelo de hip hop dentro do seio da Griselda, fugindo à loucura enigmática dos outros três, reafirmando momentos de calma e contemplação, momentos esses, atentos ao cuidado lírico, fazendo-nos crer que rimar por cima dum beat é fácil e desapegado de esforço – e faz-nos isto álbum após álbum, rima após rima.

Por último, Benny The Butcher, primo de Westside Gunn e Conway The Machine, é o rapper mais old school da Griselda, no sentido que se prende a um estilo duro e clássico do rap hardcore da década de 1990. Conseguimos absorver a raiva, o confronto e a agressão das suas letras apesar de este raramente sair da sua zona de conforto. É cativo duma área do hip hop que é direccionada a apenas uma dimensão. No entanto, isso não o torna menos carismático, abrindo espaço para hooks mais contundentes e uma produção quase sempre delicada e precisa. Benny The Butcher incorpora a assinatura típica da Griselda, com estruturas e musicalidades básicas e sistematizadas, abdicando dos momentos de refrão e de recursos que possam funcionar fora da sua habitual área de rima. Assistimos constantemente a uma autenticidade rara no interior do seio do hip hop contemporâneo mainstream, com um detalhe afincado das memórias da rua e a sua glorificação, em particular, em relação ao tráfico de droga, e de como isto lhe reflete um senso de honestidade à posição que chegou hoje como rapper bem-sucedido. Benny The Butcher é um artista que espelha sempre com facilidade a introspecção da violência e dificuldade do que é viver na rua, da rua e para a rua, que nos guia pelos passeios de Buffalo com a confiança de que estamos seguros ao lado dele.

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A Griselda é a receita ideal se quisermos conhecer o hip hop mais cru e a cruel realidade que este carrega. É uma janela para a sinceridade. A química que existe quando os nomes se cruzam é arrepiante, com especial foco para o projecto WWCD que junta Benny The Butcher, Conway the Machine e Westside Gunn.

GRISELDA | “CRUISER WEIGHT COKE”

MACH HOMMY | “NO BLOOD NO SWEAT”

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