O Cavaleiro das Trevas Renasce – Blu-ray em análise

Título original: The Dark Knight Rises

Realizador: Christopher Nolan

Atores: Christian Bale, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Anne Hathaway

ZON/WARNER | 2012 | 2.4:1 e 1.78:1 | DTS-HD Master Audio 7.1

160 min

Classificação:

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O Filme

É difícil imaginar qual o verdadeiro objetivo de escrever uma crítica para um filme tão grande como “O Cavaleiro das Trevas Renasce“, de Christopher Nolan. Tais “monstros da bilheteira” são verdadeiramente à prova de críticas, e nenhuma, por mais negativa (ou positiva?) que seja, fará grande diferença no quadro final. Felizmente, a Magazine-HD é um ninho de cinéfilos apaixonados, e não poderíamos nunca deixar de partilhar convosco o(s) nosso(s) parecer(es).

Christopher Nolan revolucionou o género dos “filmes baseados em B.D.”, introduzindo narrativas que se preocupam com algo mais do que rebentar com cidades imaginárias e exibir truques ostentosos.

A luxuria e seriedade de “Batman: O Início” deu lugar ao caos prodigioso de “O Cavaleiro das Trevas“, e mesmo apenas com dois títulos, Nolan criou a saga mais apaixonada (e apaixonante) pelo cruzado das vestes negras e, aliás, do universo dos super-heróis.

Perante tal estabelecimento de background, pairava uma expectativa dúbia relativamente ao terceiro e último capítulo da saga: a perspetiva esperançosa de algo ainda maior e consequentemente “histórico” equilibrava-se na balança com uma espécie de premonição da impossibilidade de melhorar o antecessor que, ainda que ativamente recalcada, persistia na mente de todos.

De todo o modo, não havia muito que “O Cavaleiro das Trevas Renasce” pudesse fazer para não ser, de alguma forma, uma desilusão. Dar seguimento àquele que é considerado o melhor “filme de super-heróis” de sempre era não só dolorosamente difícil, como incrivelmente injusto.

Não vamos aqui discutir se é melhor, ou pior; é diferente, e nessa diferença é fantástico.

Muito à semelhança de “Prometheus“, que estreou entre nós em Junho passado, “O Cavaleiro das Trevas Renasce” debate-se com temas fortes, contemporâneos e fieis ao zeitgeist sociopolítico do séc. XXI. – a crise financeira de 2008, o Occupy Wall Street, os conflitos pós-11 de setembro, a guerra ao terror(ismo) – infusões estas que não deixam de ser raras mas incrivelmente bem vindas (e enquadradas) no género.

A ação propriamente dita é de uma intensidade e qualidade capazes de fazer os queixos roçar o chão, sendo o mais livres de CGI possível. Mas a outra boa notícia? Nolan continua a querer fazer do género algo mais do que um dispositivo para ganhar bons trocos.

Como esperado, Nolan infundiu “O Cavaleiro das Trevas Renasce” com um ambiente maior do que a vida, que é perpetuado pelos visuais impactantes de Wally Pfister e pela banda sonora pungente de Hans Zimmer. A atmosfera espetacular do título é contrabalançada com interlúdios dedicados a diferentes personagens, o que permite ao realizador aproveitar grande parte do elenco de luxo de que dispõe.

Dos membros antigos, e por razões de economia de espaço, vou apenas destacar dois: Christian Bale, que nos oferece a sua melhor performance na saga – física e emocionalmente e o incontornável Michael Caine, o maior valor emocional centrífugo do título.

Tom Hardy é um duplo injustiçado pelas comparações infundadas com o antecessor (Heath Ledger) e pela paupérrima mistura de som do título, que afeta especialmente a voz do vilão. Mas Bane, mais na senda de Ra’s Al Ghul do que propriamente Joker, é genuinamente assustador no seu poderio físico e mental, e a dedicação demente de Hardy ao papel é bem palpável em cada cena que protagoniza.

Uma das mais surpreendentes adições à saga é a de Anne Hathaway como Selina Kyle que, astuciosamente, nunca é referida como Catwoman. A grande motivação é a sobrevivência, e apesar de uma abordagem quase radicalmente diferente de Michelle Pfeiffer em Batman (1989), Hathaway traz uma graça e distinção ao papel que complementa na perfeição as forças brutas de Batman e Bane. Como habilmente já me descreveram, Kyle é para Batman o correspondente de Han Solo para Luke Skywalker. Ainda do lado das meninas, Marion Cotillard é, talvez, o talento menos aproveitado. A sua relação com Bruce Wayne parece apressada e fria, e fica o desejo de que as mulheres tivessem tido melhores oportunidades no universo do Cavaleiro Negro.

Por fim, Joseph Gordon-Levitt surge como o aliado que Batman precisava para se reerguer – mais alguém disposto a pôr as mãos na massa para salvar aquilo em que acredita. E como já não é surpresa nenhuma, o ator fá-lo de forma magnética.

A estrutura da mitologia de Batman é extremamente complexa de sua moralidade difusa – estamos perante um herói emocional e psicologicamente mais afetado que muitos dos vilões; vilões estes que em muitos momentos carregam motivos mais nobres do que os do herói. Este simbiose de conceitos entre o bem e o mal é um elemento vital na tradição de Batman, e é algo que Christopher Nolan conhece exemplarmente bem. Pelo menos até certo momento, existe algum sentido de justiça e equidade no plano de Bane que o torna um arqui-inimigo intrigante: aquele pelo qual quase ousamos torcer.

Apesar das abundantes qualidades, “O Cavaleiro das Trevas Renasce” é um título imperfeito. Uma das suas maiores faltas está relacionada com um caso bastante extenso de “excesso de exposição”, onde diálogos longos e imoderadamente explicativos podem significar um desfasamento desnecessário entre o enredo e o espectador.

A outra questão prende-se com os motivos contraditórios de muitos personagens, mas essencialmente, dos vilões. Enquanto é sobejamente inovador colocar nos vilões um justificativo de ação dúbio – que pode significar até por vezes que estes têm os motivos mais nobres – Nolan parece tê-lo feito com mais acerto em “Batman: O Início” do que neste último capítulo.

Tipicamente, é difícil encontrar um “terceiro fascículo” que não se sinta pouco inspirado ou cansado pela árdua tarefa de unir as pontas soltas deixadas pelos antecessores. “O Cavaleiro das Trevas Renasce” será relembrado por ser um dos mais valiosos elementos desta categoria, enquanto o realizador Christopher Nolan ainda tem tanto a dizer sobre as personagens que a longo de sete anos tem vindo a construir, e sobre a sociedade em geral.

O Blu-Ray

A transferência para vídeo em 1080p alterna entusiasticamente entre um ratio de 2.40:1 e 1.78:1 (por causa das sequências filmadas com equipamento IMAX). A paleta de cores utilizada é expansiva e altamente visível nesta versão, sendo que a fotografia de Wally Pfister foi tratada com o maior cuidado e dedicação. Os detalhes aparecem naturais, e, como é tradição na trilogia, as sombras assumem muitas vezes posição fronteiriça – uma nota apenas para momentos esporádicos em que a imagem parece, de facto, um pouco escura demais.

Se isolarmos a única falha grave que já se fazia sentir na versão cinematográfica (o diálogo por vezes açambarcado bela banda sonora de Hanz Zimmer), no que respeita ao áudio, não há a mínima falha a apontar a uma transferência que é uma das melhores da Warner este ano e que proporciona uma experiência totalmente imersiva: explosiva nos momentos de ação pungente, mas sempre clara e cristalina.

Como vai sendo costumeiro, não se encontra em nenhuma das edições lançadas uma edição do filme com comentários de Christopher Nolan e outros – talvez faça parte de um conjunto de material guardado para uma edição especial a ser lançada no futuro -, mas o conjunto de materiais proporcionados nesta edição não envergonha ninguém.

Uma grande fatia dos extras encontrados na edição estão arrumados por categorias específicas.

No capítulo da “Produção”, podemos assistir à discussão de vários pontos cruciais da trama pelo realizador, equipa de produção e atores ao longo de uma série de 12 featurettes, cujos temas vão desde o prólogo aéreo, até à corrida ao reator.

Na categoria das “Personagens” encontramos mais três featurettes que se revolvem sobre as personalidades de Bruce Wayne, Bane e Selina Kyle.

Por último, “Reflexões” elabora durante uma soma de 15 minutos sobre os aspetos ligados à identidade visual do filme – fotografia, iluminação, locais de filmagens, design de produção.

Em “O Batmobile” é discutida a história do icónico veículo de Batman, com as contribuições de engenheiros, cineastas e caras conhecidas dos comics ao longo de quase uma hora num documentário que, apesar de não ser factualmente central a “O Cavaleiro das Trevas Renasce”, é uma espreitadela muito curiosa ao universo Batman.

Para acompanhar o filme, foi lançada uma app especial que quando sincronizada com os leitores de Blu-Ray, dispõe de conteúdos exclusivos.

Por fim, há ainda um conjunto de trailers a completar o embrulho.

 

Veredito

Christopher Nolan trouxe ao franchise, e à própria persona de Batman, a solenidade e um sentido de real muito capaz de coexistir no universo fantasioso, o portento, o sentido de contemporaneidade, mas sobretudo, a crença. Porque Batman não precisou de ser picado por uma aranha, ou afetado por radioatividade, ou vir de outro planeta para fazer a diferença. Batman só precisou que Bruce Wayne quisesse uma cidade justa para os seus habitantes, uma cidade alicerçada no Bem, que às vezes é tão capaz de ser ambíguo. O resultado foi um salvador atormentado, disposto a dar-nos tudo, mas sobretudo, um salvador que poderia ser qualquer um de nós.

E é isto que a audiência deseja tão ardentemente num mundo cada vez mais despido de fé na calma depois da tempestade. É também talvez por isto que a trilogia de Nolan se tornou no fenómeno que hoje é; porque fica a certeza de que não nos trouxeram apenas a lenda que necessitávamos, mas também aquela que merecíamos.

Quanto à edição dvd/blu-ray, é uma adição incontornável à coleção, e é mesmo caso para refazer as palavras de Bane: “you have our permission to buy”.

 

Versões disponíveis

O Cavaleiro das Trevas Renasce, em DVD (com todos os extras)

O Cavaleiro das Trevas Renasce, em Blu-Ray (com todos os extras)

O Cavaleiro das Trevas Renasce, Edição Especial de Luxo (com todos os extras e ofertas especiais)

Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

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