LEFFEST ’16 | Certain Women, em análise

Em Certain Women, a cineasta americana Kelly Reichardt constrói um delicado e minucioso tríptico sobre a vida de várias mulheres numa remota comunidade do Montana.

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Ao longo da sua ilustre filmografia, Kelly Reichardt tem vindo a demarcar-se como uma das mais importantes vozes autorais na presente conjetura do cinema norte-americano. Apesar dos seus filmes serem facilmente categorizados como indies, que seguem as tradições estilísticas e temáticas características desse pseudo género, a verdade é que a oeuvre de Reichardt denota sempre uma marca inequivocamente sua. Certamente é fácil compreender como é que alguém se pode sentir entediado pelos esforços da realizadora, sendo os seus filmes, na maioria dos casos, miniaturas sobre o quotidiano de figuras banais, onde vamos construindo um retrato expansivo da sua interioridade, condição social, económica e emocional através de uma observação atenta do seu dia-a-dia. O cinema de Reichardt é um de profundo minimalismo e terno humanismo onde quase nada acontece, no sentido dramático da expressão.

Certain Women, o mais recente trabalho da cineasta, segue este mesmo modo de trabalho e expressão, trazendo para o cinema três histórias baseadas em contos do livro “Both Ways Is the Only Way I Want It” de Maile Meloy. Como o título do filme indica, este tríptico centra-se em protagonistas femininas, todas elas habitantes de uma remota zona do Montana, e todas elas a viverem existências paralelas que não têm grande ligação umas com as outras – não estamos perante nenhum filme mosaico à la Crash. Como seria de esperar, as suas histórias são caracterizadas por uma conspícua falta de ação, sendo que é nas entrelinhas e nos silêncios que Reichardt encontra as complexidades humanas das suas personagens, aqui belissimamente filmadas em película cheia de grão e cores terrenas que conferem uma tatilidade quase grosseira ao modesto projeto.

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A primeira destas mulheres a ter a sua história contada é Laura, uma advogada de meia-idade que, entre umas escapadelas com um homem casado, está a lidar com um difícil caso que acaba por ter um desfecho desagradável para o seu mal-educado cliente. Ele, desesperado, acaba por tomar reféns numa situação aonde Laura é forçada a entrar pela polícia em busca de uma resolução pacífica. Seguidamente, no mais curto dos segmentos, Reichardt mostra-nos Gina, que está a tentar construir uma casa para sua família a partir de materiais orgânicos e locais. Quando vê que um velho amigo tem uma grande quantidade de uma específica rocha na sua propriedade, ela e o marido vão ter com o idoso, e tentam convencê-lo, ou manipulá-lo, a lhes vender o material. Finalmente, temos a delicada trama de Jamie, uma fazendeira nativo-americana que, por mero acaso, assiste a uma aula noturna de legislação educativa e é profundamente fascinada pela jovem advogada que está a servir como professora relutante.

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Para a filmagem destas três histórias, Reichardt conta aqui com um dos seus mais luminosos elencos – certamente é o seu mais rico em nomes sonantes e famosos. Laura Dern é a primeira protagonista a marcar presença em Certain Women e é, de longe, a atriz que mais utiliza a sua persona de “estrela de cinema” para informar e influenciar a sua personagem, com quem partilha o nome. Existe, na sua presença, um magnetismo encoberto por uma resignação cansada que lhe caracteriza as interações com os vários homens da sua vida, todos eles apresentados de tal modo que as suas palavras têm sempre uma certa dose de irritante paternalismo, especialmente no que diz respeito ao panorama profissional. Como já foi mencionado, é nas entrelinhas que Reichardt pinta os retratos das usa personagens e é precisamente nos silêncios de Dern, quando está a confrontar o seu enfurecido cliente armado, que essa postura minimalista se demonstra frutífera. Mais o que conforto maternal, Laura emana um pragmatismo frio aquando da climática cena de negociação, o que confere a toda a situação uma ambivalência tão iluminante como calcinante.

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Como Gina, Michelle Williams, a rainha do minimalismo e uma regular presença na obra desta cineasta, é uma perfeita condutora do tipo de registo em que Reichardt se tem vindo a especializar. A partir de precisos movimentos, mínimas mudanças de postura perante um obstáculo, olhares inteligentes e pausas indecisas, a atriz pinta a imagem de uma mulher que é caracterizada principalmente pela sua obstinada força de vontade mas que parece estar ressentida com essa mesma classificação unidimensional que é, em parte, criada por ela própria. A dúvida da sua determinação em momentos chave da interação com o velho amigo de família, interpretado pelo maravilhoso Rene Auberjonois, é de particular destaque, conjurando uma ambivalência que liga esta mesma conversa negocial à confrontação entre Laura e seu cliente.

Lily Gladstone e Kristen Stewart, como Jamie e Beth, formam o improvável mas fabuloso dueto que encerra o tríptico de histórias de Certain Women. No papel da advogada que se torna no objeto de fascínio para uma jovem fazendeira, Stewart conjura uma das suas mais precisas interpretações de sempre, usando a sua postura manienta e característicos tiques vocais para sugerir uma pessoa que, apesar de estar num amigável jantar com uma nova amiga, tem sempre a cabeça noutro lugar. Não há crueldade nesta atitude, mas sim um entendível desinteresse e distração para com o afeto que vibra no olhar adorador de Lily Gladstone que, apesar de ser uma completa desconhecida, consegue ofuscar a estrela de cinema com quem partilha a cena. Há um constante desejo silencioso na atitude de Jamie, uma necessidade primordial de formar uma ligação com outro ser humano, que faz deste retrato uma comovente tempestade de contida melancolia.

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Na melhor e mais memorável cena de Certain Women, acompanhamos uma viagem de automóvel que Jamie faz para procurar a companhia de Beth. Aqui, a câmara foca-se na face de Gladstone, estudando suas mais delicadas mudanças de expressão e construindo um interlúdio silencioso que lembra o poder de uma semelhante observação da expressão facial em Birth com Nicole Kidman. A salientar ainda mais a importância deste momento, está o modo como cenas em carros são uma constante no cinema de Reichardt e neste filme constituem um dos poucos pontos de união entre as diversas histórias, quer seja a travessia noctívaga de Jamie, ou a viagem de Laura com o seu rude cliente ou as conversas familiares entre Gina, seu marido (que é o homem com quem Laura anda a ter um caso) e sua filha adolescente no carro. Em todos estes momentos, Reichardt estuda o silêncio das atrizes, encontrando o desejo pela ligação humana nos olhos de Gladstone; uma indignação capaz de quebrar as mais sólidas fortalezas de resignação em Laura; e o sublimar da incerteza e segurança de Gina face à sua falta de controlo sobre a vida e matrimónio.

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No mundo de Certain Women, as pessoas estão sempre em busca de uma forma de escaparem à solidão insular da sua própria mente, mas essa mesma fuga parece sempre uma impossibilidade dolorosa, como uma amizade frágil no fio da navalha entre o romance e a simples irrelevância. Essas ligações temáticas entre as histórias não são forçadas, mas sugeridas por um processo de acumulação e observação paciente, sendo que o filme começa com um comboio e, tal como o seu movimento sugere, apenas vemos uma parte destas vidas, estes momentos são apenas paragens momentâneas, fragmentos de algo muito maior. Da miniatura projetamos a grandiosidade do todo, da especificidade vem a humanidade e do minimalismo vem a transcendência humanista do cinema de Reichardt. A simplicidade cinematográfica raramente é mais sublime que em obras como Certain Women.

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O MELHOR: As quatro prestações principais de Dern, Williams, Stewart e a sublime Gladstone.

O PIOR: Para muitas pessoas, a deliberada inação do filme, assim como sua modéstia visual e sonoplastia rica em silêncios, será muito frustrante e de difícil apreciação.



Título Original:
 Certain Women
Realizadora: Kelly Reichardt
Elenco:
 Laura Dern, Michelle Williams, Lily Gladstone, Kristen Stewart, James Le Gros, Jared Harris

LEFFEST | Drama | 2016 | 107 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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