LEFFEST’ 16 | O Exame, em análise

O Exame, de Cristian Mungiu, é a mais recente obra-prima do Novo Cinema Romeno e conta uma acutilante tragédia humana sobre um pai disposto a fazer tudo para assegurar o futuro da sua filha.

o exame leffest bacalaureat

“Quem de entre vós estiver sem pecado, que atire a primeira pedra.” Esta parafraseada citação bíblica é como um eco que ressoa por toda a narrativa de O Exame, o mais recente filme de Cristian Mungiu, o cineasta romeno de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias e Para Lá das Colinas. O filme começa, aliás, com uma pedra a ser atirada contra a janela de um inócuo apartamento. Este ato de violência nunca é explicado, nunca descobrimos a sua razão e, ao longo do filme, mais pedras serão atiradas, literal e metaforicamente, sendo que esta agressão inicial é apenas um breve prelúdio ao que é, no seu âmago, uma tragédia da Roménia contemporânea.

Essa tragédia, apesar de ser tanto sobre as personagens como é sobre o país onde elas vivem, foca-se numa trama à escala familiar, sendo esse apartamento apedrejado, a casa onde vivem os protagonistas de O Exame. Romeo é um médico de meia-idade que tem conseguido criar para si uma reputação de retidão moral, mesmo que, fora de olhares públicos, ele mantenha uma relação extraconjugal com uma das professoras da escola onde anda a sua única filha, Eliza. Sua relação com Magda, sua mulher, há muito se deteriorou, em parte devido à depressão que ela sofre depois de, tal como ele, ter visto as suas esperanças de uma Roménia pós-revolucionária se esvanecerem face à corrupção prolífera. Na sua vida há ainda uma quarta mulher, a sua mãe, já idosa e com um problema de coração que a leva a ter ataques de inconsciência regulares e que, por isso, precisa dos cuidados médicos e assistência do filho.

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Na verdade, a prodigiosa Eliza é a única pessoa a quem Romeo parece conceder verdadeiro afeto e atenção, sendo que, durante toda a vida da jovem, ele tem focado as suas energias e ganhos em conseguir que ela tenha oportunidade de ir para fora do país que ele tanto odeia. Tais esforços tiveram os seus frutos e, quando O Exame tem início, Eliza ganhou uma bolsa de estudos para o Reino Unido, mediante, contudo, o resultado dos seus exames finais que têm início no dia a seguir. Com todas as esperanças de um pai autoritário e uma mãe amargurada nos seus ombros, Eliza é alvo de um horrendo acaso do destino que vai descarrilar os planos e sonhos desta unidade familiar. Na manhã desse mesmo dia, que dá início à narrativa, Romeo, com pressa de chegar a casa da sua amante, não deixa a sua filha à porta da escola, mas sim do outro lado da rua. Enquanto espera para atravessar a passadeira, a jovem é abordada por um misterioso homem e arrastada até um espaço em obras encostado à estrada, onde ele a tenta violar sem sucesso.

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Eliza consegue defender-se do seu atacante mas o evento deixa-a com óbvios danos psicológicos e, no dia seguinte, ela não se consegue concentrar durante os exames. Romeo, horrorizado com a situação, vê o trabalho de uma vida a ir por água abaixo e começa então a enveredar-se ele mesmo no mundo de corrupção, cunhas e favores que tanto despreza e critica, em nome de conseguir garantir o futuro da sua filha. Pela sua parte, Eliza parece já nem querer essa bolsa para o estrangeiro e o trauma do ataque vai progressivamente corroendo o seu espírito, algo exacerbado pela abjeta negligência de seu pai que, mais do que se preocupar com o estado mental da filha, está sempre pronto a minimizar as suas emoções e angústias em prol de resolver o problema dos exames.

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A partir daqui, a narração de O Exame começa a desdobrar-se em três linhas de pensamento distintas, mas inexoravelmente ligadas entre si. Talvez a mais óbvia destas seja precisamente o ângulo de crítica político-social que marca todo o texto e a direção astuta de Mungiu. Começando pela sua visita a um amigo da polícia, Romeo vai-se enveredando em caminhos cada vez mais corruptos à medida que tenta garantir que os resultados dos exames de Eliza sejam favoráveis. Inicialmente, fala-se de favores, de dar uma palavrinha a um amigo, mas depressa a sucessão de diálogos semelhantes e crescente amoralidade começa a ganhar uma dimensão quase absurda. Depois de escrutinar a Roménia durante os últimos dias da ditadura e examinar o fanatismo religioso enclausurado em comunidades insulares, o retrato que este cineasta faz do seu país continua a ser de uma amargura abismal e de um escárnio capaz de rivalizar o de Romeo, não fosse, é claro, a empatia que o guião demonstra para com as várias personagens.

E é precisamente a questão da empatia que nos trás à segunda linha de pensamento que corre o filme. Ou melhor, a questão da falta de empatia numa sociedade em que os códigos de comportamento e educação civil implicam a sua existência e valor. À medida que a teia de corrupção se desenrola e o comportamento de Romeo se vai tornando cada vez mais desesperado e controlador, algo evidencia-se tanto no seu discurso como no dos que o rodeiam. Falamos do modo como as pessoas justificam as suas ações com o bem-estar e benefício dos outros, apelando a generosidade e bondade que, no final, são apenas fachadas que pintam o egoísmo com uma imagem de empatia de acordo com a hipócrita moralidade regente na sociedade. Na verdade, existem poucas conversas em O Exame, onde um simples ato de caridade, bondade ou simpatia não se vá revelar um venenoso negócio, como se qualquer interação humana fosse sempre uma transação.

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Esse miasma de egoísmo dissimulado, hipocrisia e amoralidade traz-nos à terceira e mais pessoal corrente narrativa de O Exame, a da tragédia de Romeo e sua filha. Ao tentar garantir a bolsa para Eliza, o patriarca tem de vender sua alma e valores, passando do apedrejador moralista para aquele que é apedrejado, e acabando por se tornar na personificação de tudo o que ele mais odeia no seu país. E no final, tudo isso foi para quê? Ele pode dizer que foi por sua filha, mas tais noções são facilmente discutidas, especialmente quando vemos o modo como a sua miopia e condescendências vão levando a que Eliza se vá progressivamente afundando nas águas da depressão e ficando anestesiada para o mundo. Pela sua parte, Adrian Titieni, que este ano também nos maravilhou com um papel de semelhante hipocrisia em Ilegitim, telegrafa perfeitamente a mistura de certeza quase despótica e ódio próprio que vão pesando sobre Romeo e seu dilema faustiano, ao par que a jovem Maria-Victoria Dragus nos destroça o coração com a sua crescente mistura paradoxal de pânico e apatia.

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O Exame é um filme que segue a tradição estilística do Novo Cinema Romeno, pelo que, para além desse virtuosismo do elenco, temos ainda a direção realista de Mungiu que é particularmente rica em compridos takes, muitos deles filmados em câmara ao ombro. No final, O Exame é uma prova de como esse mesmo cinema ainda tem muito para dar, sendo que a sua última imagem, onde sorrisos falsos e uma bandeira romena marcam presença, é um dos mais precisos e ideologicamente violentos pontos finais que qualquer um destes vanguardistas filmes romenos já exibiu. Esta não é uma obra para ser vista levemente ou de fácil digestão, mas, na sua amargura, esconde-se um precioso retrato de uma humanidade perdida e a tragédia de um país onde a esperança, há muito, morreu.

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O MELHOR: Os surpreendentes ritmos de thriller que Mungiu concede ao que é, essencialmente, uma complicada e íntima tragédia moral.

O PIOR: O sentimento de desespero e vazio com que ficamos quando o filme acaba, se bem que isso não é tanto culpa de O Exame como do mundo em que vivemos



Título Original:
Bacalaureat
Realizador: Cristian Mungiu
Elenco:
 Adrian Titieni, Maria-Victoria Dragus, Lia Bugnar, Malina Manovici, Vlad Ivanov

Leopardo Filmes | Drama | 2016 | 128 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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